Só me procuras quando precisas de uma ama: O drama de Ariana e o seu filho
— Só me ligas quando precisas de uma ama, Daan. — As palavras saíram-me antes que conseguisse travá-las, carregadas de mágoa e cansaço. Do outro lado da linha, o silêncio dele foi como um eco surdo na minha cozinha vazia. O relógio marcava quase oito da noite, e eu já sabia o que vinha a seguir: “Mãe, podes ficar com a Zoé amanhã? Tenho uma reunião importante.”
Não era sempre assim? Desde que ele se separou da Marta, há quase dois anos, parecia que só existia para acudir às emergências dele. A Zoé, com os seus seis anos de olhos vivos e perguntas infinitas, era a única luz nos meus dias cinzentos. Mas até ela começava a perceber que a avó só era chamada quando o pai precisava de resolver a vida.
— Não digas isso, mãe… — respondeu ele por fim, num tom cansado. — Sabes que não é verdade.
— Não é? Quando foi a última vez que vieste cá jantar sem ser para deixares a miúda?
Ouvi-o suspirar. Imaginei-o sentado no sofá do apartamento novo, rodeado de caixas ainda por desfazer, com aquela expressão perdida que trazia desde o divórcio. Senti pena dele, claro. Mas também raiva. Raiva por me sentir descartável, por ser apenas um recurso logístico na vida do meu próprio filho.
Depois da separação, tentei ser o pilar. Fui à casa deles ajudar a empacotar brinquedos, ouvi as lágrimas da Zoé quando percebeu que ia ter dois quartos diferentes. Fui à escola falar com a professora para garantir que ela estava bem. E fui ficando cada vez mais sozinha.
A Marta afastou-se de mim quase imediatamente. Nunca fomos grandes amigas, mas sempre mantivemos uma relação cordial pelo bem da Zoé. Depois do divórcio, cortou quase todos os laços. Só me ligava em aniversários ou natais para combinar horários de entrega da neta. Senti-me duplamente rejeitada: pelo filho e pela nora.
As discussões começaram a surgir em pequenos detalhes. Um dia, ao buscar a Zoé à escola, encontrei a Marta à porta.
— Ariana, podes não dar tanto chocolate à Zoé? Ela chega a casa cheia de energia e não dorme nada — disse-me ela com aquele tom passivo-agressivo.
— Só lhe dei um quadradinho depois do almoço… — tentei justificar-me.
Ela encolheu os ombros e virou costas. Senti-me humilhada diante das outras mães.
Em casa, desabafei com a minha irmã, Helena.
— Eles só se lembram de ti quando precisam — disse ela, sem rodeios. — Tens de impor limites.
Mas como é que se impõem limites ao próprio filho? Como é que se diz não à neta que corre para ti de braços abertos?
A rotina tornou-se previsível: telefonema do Daan à última hora, desculpas apressadas, promessas de “para a semana vamos jantar juntos”, e eu ficava sempre à espera desse jantar que nunca acontecia.
Uma noite, depois de deixar a Zoé em casa do pai, decidi confrontá-lo cara a cara.
— Daan, precisamos de falar.
Ele olhou-me com ar exausto.
— Agora não dá, mãe… Estou cheio de trabalho.
— Nunca dá! — explodi. — Só me procuras quando precisas de alguém para ficar com a tua filha. Não sou invisível!
Ele ficou calado durante uns segundos longos demais.
— Achas que isto é fácil para mim? — murmurou finalmente. — Perdi tudo… A Marta, a casa… Estou a tentar manter-me à tona.
— E eu? Achas que não perdi nada? Perdi o meu filho! — As lágrimas caíam-me pelo rosto sem controlo.
Ele baixou os olhos e murmurou um pedido de desculpas quase inaudível. Mas nada mudou depois dessa noite.
Os meses foram passando. A Zoé crescia depressa demais. Começou a perguntar porque é que o pai e a mãe não estavam juntos, porque é que só via a avó em dias de semana e nunca aos fins-de-semana.
Um sábado à tarde, decidi ir ao parque sozinha. Sentei-me num banco e vi famílias inteiras a brincar juntas. Senti um vazio tão grande dentro do peito que me faltou o ar. Peguei no telemóvel e escrevi uma mensagem ao Daan:
“Gostava de te ver sem ser por causa da Zoé.”
Ele respondeu horas depois: “Desculpa mãe… Ando mesmo sem cabeça.”
Comecei a sair mais com amigas antigas. Fui ao cinema com a Helena, inscrevi-me num curso de pintura. Mas nada preenchia aquele buraco deixado pela ausência do meu filho.
No Natal desse ano, convidei-os para jantar cá em casa. A Marta recusou logo: “Vamos passar com os meus pais.” O Daan disse que vinha só ele e a Zoé. Passei o dia inteiro na cozinha a preparar o prato favorito dele: bacalhau com natas.
Quando chegaram, percebi logo pelo rosto dele que algo não estava bem.
— O que se passa? — perguntei enquanto ele pousava o casaco.
— A Marta quer mudar-se para o Porto com a Zoé — disse ele num sussurro.
O chão fugiu-me dos pés.
— Vais deixar? Vais deixar que levem a tua filha para longe?
Ele encolheu os ombros, derrotado.
— Não posso impedir… Ela tem melhores condições lá.
A raiva misturou-se com desespero. Fui para o quarto chorar em silêncio enquanto eles montavam a árvore de Natal na sala. Senti-me inútil, impotente perante as decisões dos outros.
Na noite seguinte liguei à Marta:
— Por favor… Não leves a minha neta para longe. Eu sou família dela também!
Ela respondeu fria:
— Ariana, tenho de pensar no melhor para a Zoé. E tu podes sempre visitá-la quando quiseres.”
Mas sabia que não seria igual. Sabia que ia perder aqueles pequenos momentos: as manhãs de panquecas, os desenhos animados no sofá, as perguntas inocentes sobre o mundo.
Quando finalmente partiram para o Porto, senti um luto silencioso instalar-se em mim. O Daan ligava cada vez menos. A Zoé mandava mensagens por vídeo chamada mas era diferente; faltava-lhe o abraço apertado ao chegar da escola.
Um dia recebi uma carta da minha neta:
“Avó Ariana,
Tenho saudades tuas. Aqui no Porto está tudo bem mas queria brincar contigo outra vez.”
Chorei como há muito não chorava. Peguei no telefone e liguei ao Daan:
— Filho… Não podemos continuar assim. Somos família ou não somos?
Desta vez ele ouviu-me até ao fim. Marcámos um fim-de-semana juntos no Porto. Quando abracei a Zoé na estação de Campanhã percebi que ainda havia esperança para nós.
Agora tento reconstruir laços perdidos, um telefonema de cada vez, uma visita inesperada aqui e ali. Mas continuo a perguntar-me: porque é tão difícil manter uma família unida? Será que algum dia voltaremos a ser mais do que apenas peças soltas à volta da Zoé?
E vocês? Já sentiram esta solidão dentro da própria família? Como se volta a confiar depois de tanta distância?