Entre Dois Amores: Quando a Minha Filha Recusou a Minha Nova Chance de Ser Feliz
— Mãe, não acredito que estás mesmo a fazer isto! — gritou a Inês, com os olhos marejados de lágrimas, enquanto atirava a mochila para o chão da sala. O som ecoou pela casa vazia, como se cada parede absorvesse a dor que ela sentia — e que eu sentia também.
Fiquei ali, parada, com as mãos trémulas agarradas à chávena de chá frio. O cheiro do jasmim já não me acalmava como antes. Olhei para a minha filha, tão parecida comigo aos dezasseis anos: teimosa, apaixonada, cheia de certezas absolutas. Mas eu já não era aquela mulher de certezas. Desde que o Pedro morreu — tão de repente, tão injustamente — tudo em mim era dúvida e medo.
— Inês, por favor, ouve-me… — tentei aproximar-me, mas ela recuou como se o meu toque queimasse.
— Não quero ouvir! Não quero saber desse homem! — gritou ela, e correu para o quarto, batendo com a porta com uma força que fez tremer os quadros na parede.
Sentei-me no sofá, sentindo o peso do silêncio. O Pedro tinha partido há três anos. Três anos em que fui mãe e pai, enfermeira das nossas feridas, gestora das contas da casa e dos silêncios à mesa. Três anos em que me esqueci de mim própria. Mas agora… agora havia o Miguel.
Conheci o Miguel numa manhã chuvosa de novembro, no café da esquina onde ia buscar pão quente ao sábado. Ele sorriu-me com uma gentileza que já não reconhecia nos homens. Começámos a conversar sobre trivialidades — o tempo, o Benfica, os preços do supermercado — e, sem dar por isso, dei por mim a sorrir outra vez. Senti culpa. Senti medo. Mas também senti esperança.
A Inês nunca gostou do Miguel. Desde o início, olhou para ele como se fosse um intruso no nosso pequeno mundo de duas. E eu compreendia-a. O Pedro era insubstituível. Mas eu estava cansada de viver apenas para sobreviver.
Naquela noite, depois da discussão, fui até ao quarto dela. Bati à porta suavemente.
— Inês? Posso entrar?
Silêncio.
Abri a porta devagar. Ela estava encolhida na cama, abraçada ao urso de peluche que o pai lhe dera no último Natal juntos.
— Eu sei que isto é difícil para ti… — comecei, sentando-me na beira da cama.
Ela virou-se para mim, olhos vermelhos.
— Porque é que precisas dele? Não somos suficientes?
A pergunta dela cortou-me como uma lâmina. Como explicar-lhe que amar outra vez não era esquecer o pai dela? Que o vazio que sentia não era culpa dela?
— Tu és tudo para mim, filha. Mas também sou mulher. E sinto falta de alguém ao meu lado…
Ela virou-se para a parede.
— Odeio-o.
Saí do quarto com o coração em pedaços.
Os dias seguintes foram um campo minado de silêncios e olhares frios. No trabalho, os colegas perguntavam se estava tudo bem; respondia sempre que sim. Mas não estava. Em casa, as refeições eram rápidas e sem conversa. O Miguel ligava-me à noite e eu inventava desculpas para não sair.
Uma tarde, ao chegar a casa mais cedo do trabalho, encontrei a Inês sentada à mesa da cozinha com a avó Helena. Ouviam-se sussurros e soluços abafados.
— A mãe já nem pensa em mim — dizia ela à avó.
— Filha, a tua mãe sofreu muito. Merece ser feliz — respondeu-lhe a minha mãe, com aquela voz calma que sempre me acalmou em criança.
Entrei na cozinha e as duas calaram-se imediatamente.
— Podemos falar? — perguntei à Inês.
Ela encolheu os ombros.
— Vou dar uma volta ao jardim — disse a minha mãe, saindo discretamente.
Sentei-me em frente à minha filha.
— Inês… eu amo-te mais do que tudo neste mundo. Mas preciso que tentes perceber o que sinto. Não quero substituir o teu pai. Nunca vou esquecer o Pedro. Mas também não quero passar o resto da vida sozinha.
Ela olhou para mim com raiva e tristeza misturadas.
— E se eu nunca gostar dele? Vais escolher entre nós?
A pergunta ficou suspensa no ar como uma ameaça.
Nessa noite não dormi. Fiquei horas a olhar para o teto do quarto onde tantas noites chorei em silêncio pelo Pedro. Lembrei-me do nosso casamento na igreja de Santa Maria, das férias em Vila Nova de Milfontes, das noites em que adormecíamos juntos depois de contar histórias à Inês. Senti-me traidora por desejar outro homem. Mas também sabia que merecia recomeçar.
No fim de semana seguinte, decidi apresentar o Miguel à família num almoço em casa da minha mãe. A Inês foi contrariada e passou o tempo todo calada, mexendo no prato sem comer.
O Miguel tentou conversar com ela:
— Inês, gostava muito de te conhecer melhor…
Ela levantou-se da mesa bruscamente.
— Não preciso de mais ninguém na minha vida! — gritou antes de sair porta fora.
A minha mãe suspirou fundo e pousou a mão no meu ombro.
— Dá-lhe tempo. Ela vai perceber que tu também tens direito à tua felicidade.
Mas os dias passaram e nada mudou. A Inês tornou-se mais distante, começou a chegar tarde da escola e evitava-me sempre que podia. Uma noite não voltou para casa à hora habitual. Liguei-lhe dezenas de vezes até que finalmente atendeu:
— Estou em casa da Mariana. Não quero falar contigo agora.
Passei a noite em claro, entre a preocupação e a culpa. Quando finalmente voltou para casa na manhã seguinte, olhou-me nos olhos com uma frieza que nunca lhe conhecera.
— Se continuares com ele… eu vou viver com o avô António — disse ela calmamente.
O mundo desabou aos meus pés. Era esta a escolha impossível: ou abdicava da minha felicidade ou perdia a minha filha?
Falei com o Miguel naquela noite no carro dele, estacionado junto ao rio Tejo.
— Não posso perder a minha filha — disse-lhe entre lágrimas.
Ele segurou-me as mãos com ternura.
— Eu entendo… mas dói saber que não sou bem-vindo na tua vida.
Chorámos juntos no silêncio do carro iluminado apenas pelos candeeiros da rua.
Nos dias seguintes tentei falar com a Inês sobre terapia familiar, sobre dar tempo ao tempo, sobre tudo aquilo que lia nos livros e nos fóruns online sobre famílias reconstruídas. Ela recusava tudo. O muro entre nós parecia intransponível.
Um dia encontrei uma carta dela no meu quarto:
“Mãe,
Sei que estás triste e eu também estou. Sinto falta do pai todos os dias e tenho medo de te perder também para outra pessoa. Não sei se algum dia vou conseguir aceitar o Miguel… mas queria que soubesses que te amo muito.”
Chorei como há muito não chorava. Percebi então que ambas estávamos presas ao passado e ao medo do futuro.
Passaram-se meses até as coisas começarem lentamente a mudar. A Inês aceitou ir falar com uma psicóloga da escola; eu continuei a ver o Miguel discretamente, sem pressas nem cobranças. Aos poucos voltámos a rir juntas nas pequenas coisas: um filme na televisão ao sábado à noite, um passeio à beira-mar ao domingo de manhã.
O Miguel nunca forçou nada; esperou pacientemente pelo tempo dela — pelo nosso tempo.
Hoje olho para trás e vejo como foi difícil escolher entre dois amores tão diferentes mas igualmente importantes: o amor pela minha filha e o amor por mim própria enquanto mulher e ser humano.
Ainda não sei se algum dia seremos uma família completa outra vez; talvez nunca sejamos como antes. Mas aprendi que às vezes amar é também saber esperar e perdoar — aos outros e a nós próprios.
E vocês? Já tiveram de escolher entre o vosso próprio coração e quem mais amam? Como se volta a ser feliz sem magoar quem nos é mais querido?