Entre Dois Mundos: Onde Acaba o Amor e Começa o Aproveitamento?

— Inês, podes ir buscar o teu irmão à estação? — A voz da minha mãe ecoou pela casa, carregada daquele tom que não admitia resposta. Era sábado à tarde, o cheiro do arroz de pato ainda pairava no ar, e eu mal tinha pousado o casaco. O meu irmão, Miguel, chegava de Lisboa para mais um daqueles almoços de família em que todos fingíamos que estava tudo bem.

Olhei para o relógio e suspirei. Tinha planeado finalmente descansar, mas como sempre, os meus planos eram secundários. — Claro, mãe — respondi, tentando esconder a irritação. Ela nem sequer olhou para mim; já estava ocupada a arranjar a mesa, a dar ordens ao meu pai e à minha tia Rosa, que vinha sempre ajudar, como se a nossa casa fosse um quartel-general.

No carro, a caminho da estação, o meu pensamento era um turbilhão. Porque é que sou sempre eu? Porque é que ninguém pede nada ao Miguel? Ele chega, senta-se à mesa e é tratado como um príncipe. Eu sou a motorista, a confidente, a enfermeira quando alguém adoece, a secretária das burocracias do meu pai. Mas quando chega a hora de falar de mim, de perguntar como estou, há sempre qualquer coisa mais urgente.

Miguel entrou no carro com aquele sorriso fácil. — Olá mana! — disse ele, pousando a mochila no banco de trás. — Estás com bom ar.

Sorri de volta, mas por dentro sentia-me exausta. — Olá Miguel. Vieste para ficar ou é só visita relâmpago?

Ele riu-se. — Só até amanhã. Tenho uma reunião importante na segunda-feira. Sabes como é…

Pois sei. Sempre ocupado, sempre importante. E eu? Eu era a filha que ficou na terra natal porque alguém tinha de estar por perto dos pais. Alguém tinha de ser o pilar invisível.

O almoço foi uma encenação habitual: conversas superficiais, risos forçados e olhares trocados por cima da mesa. A minha mãe enchia o prato do Miguel como se ele ainda tivesse dez anos. O meu pai contava as mesmas histórias de sempre sobre os tempos em que trabalhava nos CTT. Eu tentava participar, mas sentia-me deslocada.

Depois do almoço, enquanto arrumava a cozinha com a tia Rosa, ouvi-as falar baixinho:

— A Inês é tão prestável… — dizia a tia.
— Pois é, não sei o que seria de nós sem ela — respondeu a minha mãe.

Sorri amargamente. Prestável. Não querida, não admirada. Prestável como um eletrodoméstico útil.

À noite, sentei-me no meu quarto com o diário aberto. Escrevi: “Será isto amor ou apenas hábito? Serei eu filha ou apenas recurso?”

No domingo de manhã, acordei com o som do telefone fixo — sim, ainda temos um telefone fixo porque o meu pai não confia nos telemóveis. Era a minha prima Joana: precisava de boleia para ir ao hospital visitar a avó. Adivinhem quem foi chamada?

— Inês, fazes-me esse favor? — pediu a minha mãe, já com o casaco na mão da Joana.

Miguel estava sentado no sofá a ver televisão. Nem levantou os olhos.

No hospital, enquanto esperava no corredor frio e impessoal, vi-me refletida no vidro da janela: uma mulher de trinta e dois anos com olheiras profundas e um sorriso cansado. Lembrei-me da infância, dos natais em família em que eu era invisível ao lado do Miguel e da prima Joana. Sempre fui aquela que não dava trabalho, que não fazia ondas.

Quando voltámos a casa, Miguel já tinha ido embora. Deixou um bilhete na cozinha: “Obrigado pelo almoço! Até breve!” Nem uma palavra para mim.

À noite, tentei falar com os meus pais.

— Mãe, pai… Posso falar convosco?

Eles olharam-me com estranheza.

— O que se passa? — perguntou o meu pai.

— Sinto-me cansada… Sinto que estou sempre disponível para todos e ninguém repara em mim. Gostava que me ouvissem também.

A minha mãe suspirou.

— Oh filha… Tu sabes que gostamos muito de ti! Mas és tão forte… O Miguel precisa mais de atenção porque está sozinho em Lisboa.

— E eu? Não preciso de nada? Não mereço ser vista?

O silêncio caiu pesado na sala. O meu pai desviou o olhar para a televisão.

Subi para o quarto com lágrimas nos olhos. Pela primeira vez em muitos anos, senti raiva — não deles apenas, mas de mim própria por ter permitido isto tanto tempo.

Na segunda-feira de manhã, decidi faltar ao trabalho. Fui até à praia da Figueira da Foz sozinha. O mar estava revolto e o vento cortava-me a cara. Sentei-me na areia fria e chorei tudo o que tinha guardado durante anos.

Lembrei-me da última vez que alguém me perguntou o que eu queria da vida. Tinha dezassete anos e sonhava ser escritora. Agora era assistente administrativa numa empresa local porque era prático ficar perto dos pais.

Peguei no telemóvel e escrevi uma mensagem ao Miguel:

“Irmão, gostava de falar contigo sobre nós os dois e sobre a família. Preciso que me oiças sem julgar.”

Ele respondeu passado uma hora: “Claro mana! Diz quando quiseres.”

Marcámos um café para sábado seguinte em Coimbra.

Quando nos encontrámos, ele parecia genuinamente preocupado.

— Inês… O que se passa?

— Miguel… Sinto-me sozinha nesta família. Sinto que só contam comigo quando precisam de alguma coisa. Tu és sempre o centro das atenções e eu sou… útil.

Ele ficou calado durante uns segundos.

— Nunca pensei nisso assim… Sempre achei que eras feliz aqui.

— Não sou feliz há muito tempo — confessei.

Ele pegou na minha mão por cima da mesa.

— Desculpa… Vou tentar estar mais presente. E devias falar disto aos pais outra vez.

Voltei para casa com uma sensação agridoce: finalmente tinha dito em voz alta aquilo que me magoava há anos, mas sabia que nada mudaria de um dia para o outro.

Nos dias seguintes comecei a dizer “não” mais vezes: não podia dar boleia à Joana; não podia ajudar o meu pai com as contas; não podia ir buscar medicamentos para a mãe. No início ficaram chocados; depois começaram a pedir menos.

Senti-me culpada — mas também livre pela primeira vez.

Hoje escrevo esta história porque sei que não sou a única Inês deste país: tantas filhas e filhos invisíveis que carregam famílias inteiras às costas sem serem vistos ou ouvidos.

Será isto amor? Ou apenas medo de perder aquilo que nunca tivemos verdadeiramente? Quantos de nós vivem entre dois mundos — o da obrigação e o do desejo de ser amado pelo que somos?