Fechei os olhos para a traição dele – até cair na rua e descobrir quem realmente estava ao meu lado
— Não me venhas com desculpas, Miguel! Eu vi as mensagens. — A minha voz tremia, mas não era de raiva. Era de cansaço. O relógio da cozinha marcava quase meia-noite e o cheiro do café frio misturava-se com o perfume dela, que ainda pairava no ar, mesmo sem eu nunca a ter visto.
Miguel encostou-se ao balcão, os olhos fugidios, evitando os meus. — Estás a imaginar coisas, Leonor. Sabes como és…
Aquela frase era sempre o ponto final das nossas discussões. Eu sabia como era: alguém que fechava os olhos para não ver o que doía. Alguém que preferia o silêncio à solidão. Mas, naquela noite, o silêncio pesava mais do que nunca.
Durante anos, fui a mulher perfeita: mãe dedicada à nossa filha Inês, esposa presente, profissional esforçada num escritório de contabilidade em Lisboa. O nosso apartamento em Benfica era pequeno, mas sempre cheio de risos — ou pelo menos assim parecia aos olhos dos outros. Só eu sabia quantas vezes chorei baixinho na casa de banho, sufocando soluços para não acordar Inês.
A primeira vez que desconfiei de Miguel foi numa noite de sexta-feira. Ele chegou tarde, com o colarinho desalinhado e um cheiro estranho na roupa. Disse que tinha ficado a trabalhar até tarde com o Rui. Eu quis acreditar. Precisava de acreditar. A alternativa era demasiado assustadora: admitir que o homem com quem partilhei metade da minha vida já não me amava — ou talvez nunca tivesse amado.
Os meses passaram e as ausências tornaram-se rotina. Os jantares a três transformaram-se em refeições silenciosas entre mim e Inês, que perguntava cada vez menos pelo pai. Eu inventava desculpas: “O pai está a trabalhar muito para podermos ir de férias este verão.” Mas as férias nunca chegaram.
No trabalho, a minha chefe, Dona Teresa, notava o meu ar cansado. — Leonor, tens de cuidar mais de ti. — Eu sorria e dizia que estava tudo bem. Ninguém quer ouvir os problemas dos outros.
Foi numa manhã chuvosa de novembro que tudo mudou. Saí apressada de casa, atrasada para uma reunião importante. O chão da rua estava escorregadio e, antes que me apercebesse, escorreguei e caí com força. Senti uma dor aguda na perna e tudo ficou escuro por instantes.
Acordei no hospital, com a perna engessada e a cabeça pesada. Miguel apareceu horas depois, com um ramo de flores baratas e um olhar impaciente. — Não podes ser tão distraída, Leonor… Agora como é que vou gerir tudo sozinho?
Não perguntou como me sentia. Não segurou a minha mão. Apenas suspirou e olhou para o telemóvel enquanto eu tentava conter as lágrimas.
Nos dias seguintes, percebi quem realmente estava ao meu lado. A minha mãe veio de Setúbal para cuidar de mim e da Inês. A vizinha do terceiro andar trouxe sopa quente todas as noites. Inês sentava-se ao meu lado na cama e lia-me histórias para eu não me sentir sozinha.
Miguel? Passava cada vez menos tempo em casa. Dizia que tinha reuniões importantes ou que precisava de descansar. Uma noite, ouvi-o ao telefone na varanda:
— Não posso ir agora… Ela ainda está em casa… Sim, prometo que logo que possa vou ter contigo.
O nó no meu peito apertou-se até quase não conseguir respirar. Pela primeira vez em anos, deixei-me chorar alto, sem medo de ser ouvida.
A recuperação foi lenta e dolorosa. Tive tempo para pensar em tudo o que tinha ignorado: as mentiras pequenas e grandes, os olhares vazios, os aniversários esquecidos. Lembrei-me da Leonor de vinte anos atrás, cheia de sonhos e planos, e perguntei-me onde ela tinha ido parar.
Uma tarde, Dona Teresa visitou-me em casa. Trouxe flores e um bolo caseiro.
— Sabes, Leonor… Às vezes temos medo de mudar porque achamos que não vamos aguentar sozinhas. Mas tu és mais forte do que pensas.
As palavras dela ficaram comigo durante dias.
Quando finalmente voltei ao trabalho, sentia-me diferente. Mais leve, mas também mais determinada. Miguel continuava ausente — física e emocionalmente — e eu já não fazia esforço para fingir que estava tudo bem.
Numa noite fria de janeiro, sentei-me com Inês no sofá.
— Filha… Achas que serias feliz se vivêssemos só as duas?
Ela olhou-me com aqueles olhos grandes e sinceros.
— Mãe… Eu só quero ver-te sorrir outra vez.
Foi nesse momento que decidi: merecia mais do que migalhas de atenção e amor fingido.
Na semana seguinte, esperei Miguel chegar a casa. Ele entrou sem olhar para mim, largou as chaves na mesa e foi direto ao quarto.
— Miguel… precisamos de falar.
Ele revirou os olhos.
— Outra vez?
— Sim, outra vez. Mas desta vez é diferente.
Contei-lhe tudo: as noites sozinha, as mentiras que já não conseguia engolir, a dor de sentir-me invisível dentro da minha própria casa.
— Quero separar-me.
Ele ficou em silêncio durante longos segundos antes de explodir:
— Vais destruir esta família por causa de uma queda? Por causa de uma suspeita?
— Não é uma suspeita, Miguel. É uma certeza. E já chega.
Os meses seguintes foram um turbilhão: advogados, papéis para assinar, conversas difíceis com Inês sobre o futuro. Mas também foram meses de redescoberta: voltei a sair com amigas antigas, inscrevi-me numa aula de pintura e comecei a correr no parque aos domingos.
A minha mãe ficou mais presente do que nunca; Dona Teresa tornou-se uma amiga próxima; até a vizinha do terceiro andar passou a ser companhia para longas conversas à janela.
Miguel tentou voltar atrás algumas vezes — mensagens tardias, promessas vazias — mas eu já não era a mesma mulher disposta a aceitar tão pouco.
Hoje olho para trás com tristeza pelo tempo perdido, mas também com orgulho pela coragem que encontrei quando mais precisei.
Às vezes pergunto-me: quantas mulheres continuam a fechar os olhos para não verem o que dói? E se todas tivéssemos coragem de escolher-nos primeiro? O que mudaria nas nossas vidas?