As Mensagens Escondidas: O Segredo de Mariana e o Fim do Meu Mundo
— Não faças barulho, por favor… — sussurrei para mim mesmo, tentando não acordar Mariana enquanto tateava pela cozinha à procura de comprimidos para a dor de cabeça. O relógio marcava três da manhã e o silêncio da casa só era interrompido pelo som do meu próprio coração a bater forte no peito.
A noite anterior tinha sido perfeita — ou assim pensei. Passámos o dia na praia da Comporta com os nossos amigos, rimos, comemos amêijoas e bebemos vinho branco gelado. Mariana parecia feliz, mas agora, no escuro da cozinha, algo não batia certo. O telemóvel dela estava ali, abandonado no balcão, a luzinha das notificações a piscar insistentemente.
Senti um aperto no peito. Não era a primeira vez que aquela sensação me assombrava. Nos últimos meses, Mariana estava distante, sempre com o telemóvel na mão, mensagens trocadas às escondidas, risos abafados quando eu entrava na sala. Lutei contra o impulso de mexer no aparelho dela. Sempre fui contra esse tipo de invasão, mas a dúvida corroía-me por dentro.
— Se não tens nada a esconder… — murmurei, tentando justificar o que estava prestes a fazer.
Desbloqueei o telemóvel com o código que ela usava há anos. Abri o WhatsApp. O nome “João (Trabalho)” apareceu logo no topo das conversas. Hesitei. João era colega dela no escritório de advogados em Lisboa. Sempre achei que ele era só isso — um colega. Mas as mensagens não mentem.
“Adorei ontem à noite. Não consigo parar de pensar em ti. Quando voltamos a encontrar-nos?”
O chão fugiu-me dos pés. Continuei a ler, incapaz de parar. Mensagens trocadas há semanas, encontros secretos depois do trabalho, jantares em hotéis do centro da cidade. Mariana dizia-lhe coisas que nunca mais me disse a mim: “Contigo sinto-me viva”, “És tudo o que preciso”.
Senti-me ridículo. A dor de cabeça desapareceu, substituída por uma dor muito maior — uma dor que me atravessava o peito e me deixava sem ar.
— O que é que eu faço agora? — perguntei-me em voz baixa, as lágrimas a ameaçarem cair.
Voltei para o quarto em silêncio. Mariana dormia profundamente, alheia ao furacão que se tinha levantado dentro de mim. Passei o resto da noite acordado, a olhar para o teto, a tentar perceber onde é que tudo tinha começado a correr mal.
Na manhã seguinte, sentei-me à mesa da cozinha com ela.
— Mariana, precisamos de falar.
Ela olhou para mim com um ar cansado.
— O que foi agora, Miguel?
— Eu sei sobre o João.
O silêncio caiu entre nós como uma sentença. Ela não tentou negar. Baixou os olhos e ficou ali, imóvel.
— Há quanto tempo? — perguntei, a voz embargada.
— Uns meses… — respondeu ela, quase num sussurro.
— Porquê? — A pergunta saiu-me num grito abafado.
— Senti-me sozinha… Tu andavas sempre cansado, distante… Eu tentei falar contigo tantas vezes…
— E achaste que a solução era trair-me?
Ela chorou. Eu também. A discussão arrastou-se durante horas. Vieram à tona todas as mágoas guardadas: as noites em que cheguei tarde do trabalho, as vezes em que ela pediu atenção e eu não ouvi, os sonhos adiados por causa das contas para pagar e das rotinas que nos engoliram.
No meio da discussão, ouvi passos no corredor. Era a minha mãe, que tinha vindo passar uns dias connosco depois da operação ao joelho.
— O que se passa aqui? — perguntou ela, preocupada.
Mariana levantou-se e saiu da cozinha sem dizer palavra. Fiquei sozinho com a minha mãe.
— Miguel…
— Ela traiu-me, mãe.
A minha mãe abraçou-me como quando eu era criança e caía da bicicleta. Mas desta vez não havia joelho esfolado para tratar — era o coração partido.
Os dias seguintes foram um pesadelo. Mariana mudou-se para casa da irmã em Almada. Os amigos começaram a perguntar por nós; alguns já sabiam, outros fingiam não saber. O meu pai ligou-me todos os dias:
— Tens de ser forte, filho. Não deixes que isto te destrua.
Mas eu sentia-me destruído. Ia trabalhar como um autómato e voltava para casa vazia. A comida sabia-me a nada; as noites eram passadas em claro.
Uma tarde, recebi uma mensagem dela:
“Precisamos de falar sobre o divórcio.”
Foi como levar outro murro no estômago. Fui ter com ela ao café onde nos conhecemos há dez anos atrás. Estava nervosa, com os olhos inchados de tanto chorar.
— Miguel… Eu sinto muito por tudo isto. Mas acho mesmo que já não há volta a dar.
Assenti em silêncio. Não havia mais nada a dizer.
Os meses passaram devagar. Os papéis do divórcio chegaram pelo correio numa manhã chuvosa de novembro. Assinei-os com mãos trémulas.
A família dividiu-se: uns ficaram do meu lado, outros do dela. A minha irmã acusou-me de nunca ter dado atenção suficiente à Mariana; o meu cunhado disse que ela foi egoísta e cobarde.
No Natal desse ano sentei-me à mesa com os meus pais e senti falta dela em cada detalhe: nos guardanapos vermelhos que ela adorava dobrar em forma de estrela; na música do Rui Veloso que ela punha sempre enquanto cozinhava bacalhau à Brás; no cheiro do seu perfume misturado com o aroma do pinheiro verdadeiro na sala.
Comecei terapia porque já não conseguia lidar sozinho com tanta dor e raiva. Aos poucos fui percebendo que ambos tínhamos culpa — eu por me fechar no trabalho e esquecer quem estava ao meu lado; ela por procurar noutro homem aquilo que devia ter tentado salvar comigo.
Hoje olho para trás e vejo um homem diferente daquele que acordou naquela madrugada com uma simples dor de cabeça. Perdi muito — perdi uma mulher que amei durante anos, perdi amigos comuns, perdi até um pouco de mim próprio naquele processo todo.
Mas também ganhei alguma coisa: aprendi a ouvir mais e julgar menos; aprendi que o amor precisa de ser cuidado todos os dias; aprendi que ninguém é perfeito e que todos erramos — às vezes de formas irreparáveis.
Agora pergunto-me: quantas relações acabam assim, em silêncio, por falta de coragem para falar? E será possível reconstruir-nos depois de perdermos tudo aquilo em que acreditávamos?