O Apartamento Que Despedaçou a Minha Família – Confissões de Uma Mãe Portuguesa
— Não é justo, mãe! Sempre foi claro que o apartamento seria meu! — gritou a Ana, com os olhos marejados de lágrimas, a voz a tremer entre a raiva e a mágoa. O João, o meu filho mais velho, cruzava os braços no canto da sala, o rosto fechado, enquanto a Mariana, a sua mulher, olhava para mim como se eu fosse uma estranha. O silêncio do meu marido, António, pesava na sala como uma nuvem negra.
Naquele momento, senti-me pequena. Tão pequena como nunca antes. O apartamento da minha mãe, no centro de Lisboa, era o motivo de toda aquela discórdia. Quando ela morreu, deixou-nos aquele T2 antigo, com azulejos azuis e vista para o Tejo. Sempre pensei que seria uma bênção, mas tornou-se uma maldição.
— Ana, filha, eu só quis fazer o melhor para todos… — tentei explicar, mas ela interrompeu-me.
— O melhor para todos? Ou só para o João? Ele já vive aqui em casa convosco! Eu é que estou sozinha com a Leonor! — A voz dela ecoou pelo corredor. A minha neta, Leonor, brincava no quarto ao fundo, alheia à tempestade.
O João finalmente falou:
— Ana, não é assim tão simples. Eu e a Mariana estamos à espera do nosso primeiro filho. Precisamos de espaço. E tu sabes que a mãe sempre disse que eu ficaria com o apartamento.
A Mariana apertou-lhe a mão, mas eu vi nos olhos dela o desconforto. Ela nunca gostou de viver connosco. Desde que casaram e vieram para nossa casa — porque os salários não chegavam para uma renda em Lisboa — havia sempre pequenas discussões: sobre as tarefas da casa, sobre o espaço na cozinha, sobre quem ficava com a televisão à noite.
Eu tentei ser justa. Dividi as tarefas, cedi o meu quarto para eles terem mais privacidade. Mas nada parecia suficiente. E agora, com o apartamento da minha mãe em jogo, tudo veio ao de cima.
Lembro-me da última conversa que tive com a minha mãe antes dela partir:
— Filha, promete-me que vais manter a família unida. Não deixes que nada vos separe.
Prometi-lhe. Mas agora sinto que falhei.
A Ana saiu da sala batendo com a porta. Fui atrás dela, mas ela já estava a calçar os sapatos.
— Ana, espera! — supliquei.
Ela virou-se para mim com os olhos vermelhos:
— Não quero ouvir mais nada. Se é assim que vai ser, então não contem mais comigo para nada.
E saiu. Fiquei ali parada no corredor, sentindo um vazio enorme dentro de mim.
Nos dias seguintes, tentei ligar-lhe várias vezes. Mensagens sem resposta. A Leonor deixou de vir cá aos fins de semana. O João e a Mariana começaram a fazer planos para mudar-se para o apartamento assim que as obras terminassem.
O António tentava consolar-me:
— Deixa passar algum tempo. Ela vai acalmar.
Mas eu conheço a minha filha. Ela é orgulhosa e sente-se traída. E eu? Eu sinto-me dividida entre os meus filhos.
As obras no apartamento começaram e cada decisão era motivo para discussão: quem ia pagar as obras? Quem ficava com os móveis antigos? O João queria vender tudo e comprar novo; a Ana queria guardar algumas peças da avó como recordação.
Uma noite, sentei-me sozinha na cozinha e chorei baixinho para não acordar ninguém. Lembrei-me de quando os meus filhos eram pequenos e brincavam juntos no jardim do prédio. Lembrei-me dos natais em família, das gargalhadas à volta da mesa. Como é que chegámos aqui?
A Mariana começou a evitar-me. Passava os dias fechada no quarto ou saía cedo para o trabalho. O João estava sempre nervoso, respondia torto por tudo e por nada.
Um domingo à tarde, bati à porta do quarto deles:
— Podemos falar?
O João suspirou:
— Mãe, estamos cansados disto tudo. Só queremos paz. Achas que podes falar com a Ana? Dizer-lhe para aceitar as coisas como estão?
Olhei para ele e vi o menino que embalei nos braços há trinta anos atrás. Mas agora era um homem feito — e eu já não sabia como ajudá-lo.
Tentei falar com a Ana mais uma vez. Fui até ao bairro dela em Benfica, bati à porta do prédio antigo onde ela vivia com a Leonor.
Ela abriu a porta com ar cansado:
— O que queres?
— Só quero conversar… — pedi.
Sentámo-nos na cozinha minúscula dela. A Leonor desenhava ao fundo da mesa.
— Ana, filha… Eu não queria magoar-te. Só queria ajudar o teu irmão…
Ela interrompeu-me:
— Sempre foi assim! Sempre ele primeiro! Quando éramos pequenos era igual… Achas que não me lembro?
Fiquei sem palavras. Nunca pensei que ela guardasse tanta mágoa dentro de si.
— Não é verdade… — murmurei.
Ela olhou-me nos olhos:
— É sim. E agora estou sozinha outra vez.
Fui-me embora com o coração apertado. Senti-me velha e cansada.
As semanas passaram. O João e a Mariana mudaram-se finalmente para o apartamento renovado. Convidaram-nos para jantar na primeira noite lá — mas não convidaram a Ana.
O António tentou animar-me:
— Pelo menos eles estão bem instalados agora…
Mas eu só conseguia pensar na Ana e na Leonor.
No Natal desse ano, tentei reunir todos à mesa como antigamente. Liguei à Ana:
— Vens passar o Natal connosco?
Ela hesitou:
— Não sei… talvez fique só eu e a Leonor este ano.
Chorei depois de desligar.
Na noite de Natal, sentei-me à mesa com o António, o João e a Mariana — agora grávida de oito meses — mas havia um lugar vazio que ninguém ousou preencher.
Depois do jantar, fui até à janela olhar as luzes da cidade e perguntei-me: será que algum dia vamos voltar a ser uma família? Será que devia ter feito as coisas de outra forma?
Se pudesse voltar atrás no tempo… teria sido diferente? Ou será que certas feridas nunca saram?
E vocês? Já sentiram que uma decisão vossa mudou tudo para sempre?