Quando o Mundo Desaba Numa Só Noite: A História de Uma Família Portuguesa

— Não me digas que foste tu que deixaste a janela aberta, Mariana! — gritou o Rui, com a voz embargada, enquanto eu me encolhia junto à porta da cozinha. O som da chuva batendo nos vidros misturava-se com o eco das suas palavras. O cheiro a terra molhada entrava pela casa adentro, mas eu só sentia o vazio.

Naquela noite, tudo mudou. O Martim, o nosso bebé de dezoito meses, tinha adormecido mais cedo. A Leonor, com os seus quatro anos, desenhava na sala, alheia ao caos que se preparava para nos engolir. Eu estava exausta, mas lembro-me de cada detalhe: o pijama azul do Martim, o boneco preferido caído no chão, o relógio da parede marcando 22h17 quando ouvi aquele som — um estalido seco, um silêncio estranho.

Corri para o quarto dos miúdos. O Rui vinha atrás de mim, já a resmungar sobre a tempestade e as infiltrações no teto. Mas quando abri a porta, o mundo parou. O Martim estava caído junto à janela, imóvel. O tempo perdeu sentido. Senti o coração a rasgar-se dentro do peito.

— Mariana! Chama o 112! — gritou o Rui, ajoelhando-se ao lado do nosso filho.

As horas seguintes são um borrão de sirenes, vozes apressadas e mãos frias. No hospital de Santa Maria, uma médica baixinha e de olhos cansados olhou-nos com uma compaixão que me fez querer gritar. “Fizemos tudo o que podíamos”, disse ela. O Rui caiu de joelhos. Eu fiquei ali, parada, sem conseguir chorar.

Voltámos para casa sem o Martim. A Leonor dormia no sofá, abraçada ao boneco do irmão. Sentei-me ao lado dela e chorei pela primeira vez. O Rui não me olhou. Durante dias, não nos tocámos nem falámos sobre aquela noite. Só havia silêncio e acusações mudas.

A minha mãe apareceu no dia seguinte com sopa e rezas. “Deus sabe o que faz”, murmurou ela, enquanto me apertava as mãos. Quis gritar-lhe que Deus não sabia nada, que não havia razão para isto. O meu pai ficou na cozinha com o Rui, os dois calados, a beber café atrás de café.

Os dias passaram devagar. A Leonor perguntava pelo Martim todos os dias. “A mana vai buscar o mano à escola?” Eu inventava histórias: que ele estava a brincar com os anjinhos, que era uma estrelinha no céu. Mas à noite ouvia-a chorar baixinho no quarto.

O Rui começou a chegar cada vez mais tarde do trabalho. Uma noite voltou bêbado e atirou-me à cara:

— Se tivesses fechado a janela…

Senti-me esmagada pela culpa. Revivi aquela noite mil vezes: teria ouvido se ele chorasse? Porque não fui ver mais cedo? Porque não fechei aquela maldita janela? A minha cabeça era um labirinto sem saída.

A família afastou-se aos poucos. A minha sogra culpava-me em silêncio; a minha irmã dizia que eu tinha de ser forte pela Leonor. Mas eu não queria ser forte. Queria desaparecer.

Um dia, encontrei a Leonor sentada no chão da casa de banho, a falar sozinha:

— O mano está triste porque a mãe chora muito.

Ajoelhei-me ao lado dela e abracei-a com força. Percebi que estava a perder também a minha filha.

Procurei ajuda num grupo de apoio ao luto em Lisboa. Lá conheci outras mães como eu — mulheres despedaçadas por dentro, mas que ainda conseguiam sorrir umas às outras. Partilhámos histórias, lágrimas e silêncios pesados.

O Rui recusou-se sempre a ir comigo. “Isso é conversa de psicólogo”, dizia ele, amargo. A distância entre nós crescia todos os dias.

No Natal seguinte, pus uma vela junto à fotografia do Martim na sala. A Leonor ajudou-me a decorar a árvore com um anjinho feito por ela na escola. O Rui ficou sentado à mesa, olhando para o vazio.

Na noite da consoada, depois de todos irem embora, sentei-me ao lado dele:

— Não podemos continuar assim, Rui…

Ele olhou-me finalmente nos olhos — olhos vermelhos e cansados como os meus.

— Eu não sei como viver sem ele…

Chorámos juntos pela primeira vez desde aquela noite. Foi como se uma represa tivesse rebentado dentro de nós.

A partir daí, começámos devagarinho a falar sobre o Martim — sobre as suas gargalhadas, os primeiros passos trôpegos pelo corredor, o cheiro do seu cabelo depois do banho. A dor nunca desapareceu, mas deixou de ser um muro entre nós.

A Leonor cresceu rodeada por silêncios e memórias. Às vezes perguntava se podia ter outro irmão. Eu sorria-lhe com tristeza e dizia que talvez um dia.

Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente daquela Mariana que perdeu o chão numa noite chuvosa em Lisboa. Ainda sinto falta do Martim todos os dias; ainda acordo sobressaltada com pesadelos daquela noite. Mas aprendi que a dor pode unir ou destruir uma família — e que precisamos uns dos outros para sobreviver ao impossível.

Pergunto-me muitas vezes: como é que se aprende a viver depois de perder um filho? Será possível encontrar sentido naquilo que nunca terá explicação?