A Última Primavera de Mariana: Entre Sacrifícios e Silêncios

— Não podes ficar aqui para sempre à espera que eles venham, Mariana. — A minha voz saiu mais dura do que queria, mas era impossível esconder a frustração. O relógio da cozinha marcava quase oito da noite e a sopa arrefecia na mesa, intocada.

Ela olhou para mim com aqueles olhos fundos, onde antes brilhava uma esperança teimosa. — Eles disseram que vinham hoje, Leonor. O Miguel prometeu que trazia os miúdos depois do trabalho. — A voz dela era um sussurro, como se tivesse medo de acordar as paredes.

Sentei-me ao lado dela, sentindo o peso do silêncio entre nós. O cheiro a remédios misturava-se com o aroma da sopa de legumes, tornando o ar pesado. Mariana sempre foi a irmã forte, aquela que nunca se queixava, mesmo quando o marido a deixou sozinha com três filhos pequenos e uma casa para sustentar.

Lembro-me de noites em que ela costurava até tarde para pagar as contas, de manhãs em que saía antes do sol nascer para limpar escritórios no centro de Lisboa. Nunca faltou nada aos filhos: nem pão, nem livros, nem um colo onde chorar. Mas agora, com os ossos frágeis e o coração cansado, tudo o que restava era esta espera interminável.

— Achas que fiz alguma coisa mal? — perguntou-me de repente, os olhos marejados. — Será que fui demasiado dura? Ou talvez demasiado mole? — A voz dela tremia como uma folha ao vento.

Agarrei-lhe a mão. — Não fizeste nada mal, Mariana. Deste-lhes tudo. Talvez até demais.

Ela sorriu, mas era um sorriso triste, resignado. — O Miguel era tão pequenino quando o pai foi embora… Lembras-te como chorava à noite? E a Inês, sempre tão sensível… Eu só queria protegê-los do mundo.

O telefone tocou, interrompendo o nosso momento. Mariana endireitou-se na cadeira, o olhar ansioso. Mas era apenas uma chamada automática da farmácia a lembrar a renovação da receita.

Naquela noite, depois de a ajudar a deitar-se, fiquei sentada na sala escura a ouvir os sons da casa: o tique-taque do relógio, o vento lá fora, o respirar pesado da minha irmã no quarto ao lado. Perguntei-me onde estavam os sobrinhos que ela criara com tanto amor. O Miguel agora era engenheiro informático em Braga; a Inês dava aulas numa escola em Setúbal; o Pedro trabalhava num restaurante em Almada. Todos adultos, todos ocupados demais para visitar a mãe doente.

No domingo seguinte, levei-lhe flores e um bolo de laranja — o seu preferido. Ela sorriu ao ver-me, mas os olhos procuraram atrás de mim, como se esperasse ver alguém mais.

— Ainda nada? — perguntei.

Ela abanou a cabeça. — O Miguel mandou mensagem a dizer que está muito atarefado. A Inês disse que talvez venha no próximo fim de semana… O Pedro nem respondeu.

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Como podiam ser tão ingratos? Como podiam esquecer-se da mulher que lhes deu tudo?

— Mariana, tens de pensar em ti agora. Eles têm as suas vidas…

Ela interrompeu-me com um gesto suave. — Eu sei, Leonor. Mas custa tanto sentir-me invisível…

Os dias passaram lentos e iguais. Mariana foi ficando cada vez mais fraca. Eu fazia-lhe companhia sempre que podia, mas tinha também os meus próprios netos para cuidar e uma saúde já não tão firme como antes.

Uma tarde chuvosa de março, ouvi-a falar sozinha no quarto:

— Se ao menos viessem… Só para me dizerem que está tudo bem…

Entrei devagarinho e sentei-me na beira da cama.

— Queres que lhes ligue? — perguntei.

Ela abanou a cabeça. — Não quero incomodar ninguém.

Mas eu liguei na mesma. O Miguel atendeu ao fim de vários toques:

— Oh tia Leonor… Desculpe, tenho estado cheio de trabalho… Sim, eu sei… Claro que me preocupo com a mãe… Sim, vou tentar passar aí no fim de semana…

A Inês não atendeu. O Pedro respondeu por mensagem: “Agora não posso falar.”

Naquela noite chorei baixinho na cozinha. Senti-me impotente perante a solidão da minha irmã e a indiferença dos sobrinhos. Lembrei-me dos Natais cheios de risos e das festas de aniversário em que Mariana fazia questão de juntar toda a família à volta da mesa.

O tempo foi passando e Mariana deixou de sair do quarto. Passava os dias a olhar pela janela, esperando por alguém que nunca vinha.

Uma manhã encontrei-a sentada na cama com uma caixa de fotografias no colo. Mostrou-me uma foto antiga: ela com os três filhos pequenos no jardim do bairro.

— Olha como eram felizes… — murmurou.

— Ainda podem ser — tentei animá-la.

Ela abanou a cabeça devagarinho. — Acho que já não sei como se faz isso.

No último domingo de abril, finalmente vieram todos. Chegaram juntos, apressados e cheios de desculpas: “O trânsito estava impossível”, “O trabalho não me larga”, “Os miúdos ficaram doentes”. Mariana sorriu-lhes com ternura e não lhes cobrou nada.

Sentaram-se à mesa como antigamente, mas havia uma distância invisível entre eles. Falavam do tempo, das notícias, dos problemas do dia-a-dia. Ninguém perguntou como ela se sentia realmente.

Quando se foram embora, Mariana ficou sentada na sala vazia durante muito tempo.

— Valeu a pena esperar? — perguntei-lhe baixinho.

Ela olhou para mim com lágrimas nos olhos e respondeu:

— Vale sempre a pena amar, Leonor. Mesmo quando dói.

Naquela noite adormeceu cedo e eu fiquei ali ao lado dela, segurando-lhe a mão como quando éramos crianças assustadas pelo trovão.

Pouco tempo depois, Mariana partiu em silêncio numa madrugada fria de maio. Os filhos vieram ao funeral e choraram muito. Fizeram promessas uns aos outros: “Temos de nos ver mais vezes”, “Não podemos deixar isto acontecer outra vez”.

Mas eu sabia que o mundo deles já girava noutro eixo.

Agora venho aqui muitas vezes sentar-me no banco do jardim onde tirámos aquela fotografia antiga. Penso na minha irmã e em todas as mães que dão tudo sem esperar nada em troca — mas que mereciam tanto mais do que o silêncio dos filhos ocupados.

Será que estamos todos demasiado distraídos para ver quem precisa de nós? Ou será que só aprendemos o valor do amor quando já é tarde demais?