Lágrimas no Alcatrão: A História de uma Felicidade Perdida
— Dário, não podes continuar assim! — gritou a minha mulher, Teresa, com a voz embargada, enquanto atirava as chaves para cima da mesa da cozinha. O som metálico ecoou pela casa vazia, misturando-se com o silêncio pesado que se instalara desde aquela manhã fatídica.
Eu estava sentado à mesa, as mãos entrelaçadas, os olhos fixos numa chávena de café frio. O cheiro amargo do café misturava-se com o perfume doce dos brinquedos espalhados pelo chão da sala — carros de plástico, um urso de peluche sem um olho, e o carrinho azul que o Leonel adorava empurrar pelo corredor. Tudo parecia igual, mas nada era igual.
— Achas que eu quero estar assim? — respondi, a voz rouca de noites mal dormidas. — Achas que eu escolhi isto?
Teresa virou-me as costas, os ombros a tremerem. Ouvi-a soluçar baixinho, tentando esconder a dor que nos consumia. Desde o acidente, éramos dois estranhos a partilhar uma casa cheia de memórias dolorosas.
Naquela manhã de março, o sol brilhava como se nada pudesse correr mal. Leonel tinha cinco anos e uma energia que me fazia sorrir mesmo nos dias mais difíceis. Lembro-me de lhe apertar os atacadores dos ténis vermelhos enquanto ele me pedia para irmos ao parque. Teresa estava atrasada para o trabalho e discutíamos sobre quem ficaria com ele naquela manhã.
— Dário, por favor, tenho uma reunião importante. Não podes levá-lo tu? — pediu ela, já com o casaco vestido.
— Eu também tenho coisas para fazer! — resmunguei, sem olhar para ela. — Porque é que sou sempre eu?
Leonel olhava-nos com aqueles olhos grandes e castanhos, sem perceber o peso das nossas palavras. No fim, cedi. Peguei-lhe na mão e saímos para a rua.
O bairro era tranquilo, típico dos subúrbios de Lisboa: prédios baixos, vizinhos que se cumprimentavam à janela, crianças a brincar no passeio. O parque ficava do outro lado da rua. Lembro-me de olhar para o telemóvel enquanto esperávamos pelo semáforo verde. Uma mensagem do trabalho piscava no ecrã — mais um problema para resolver.
— Pai, posso correr até ao parque? — perguntou Leonel, já impaciente.
— Espera pelo verde — disse-lhe, distraído.
O semáforo mudou. Leonel largou-me a mão e correu. Eu olhei para o telemóvel por um segundo — só um segundo — e ouvi um grito. O som dos travões a chiar ainda me persegue nos sonhos. Quando levantei os olhos, vi o corpo pequeno do meu filho no alcatrão, o carrinho azul tombado ao lado dele.
O resto é um borrão: sirenes, vizinhos a gritarem, Teresa a chegar ao hospital com o rosto desfeito em lágrimas. Os médicos tentaram tudo. Mas Leonel partiu naquela tarde, e com ele levou a nossa felicidade.
A culpa instalou-se em mim como uma doença incurável. Teresa culpava-me em silêncio; eu culpava-me em voz alta. Os dias passaram a ser preenchidos por discussões sobre coisas pequenas — quem lavava a loiça, quem pagava as contas — mas sabíamos que era só uma forma de não falarmos do que realmente importava.
— Se não tivesses olhado para o telemóvel… — murmurou Teresa uma noite, quando pensava que eu já dormia.
Essas palavras cortaram-me mais fundo do que qualquer faca. Passei noites em claro a reviver aquele momento: e se tivesse segurado mais forte na mão dele? E se tivesse deixado Teresa levá-lo? E se…?
Os meus pais tentaram ajudar. A minha mãe vinha cá todos os domingos com bolos e palavras de conforto que soavam vazias.
— Tens de perdoar-te, filho — dizia ela, pousando a mão no meu ombro.
Mas como é que alguém se perdoa por perder um filho?
O meu pai era mais prático:
— Tens de seguir em frente. A vida não pára por causa da dor.
Mas a minha vida tinha parado naquele cruzamento.
Os amigos afastaram-se aos poucos. No início ligavam todos os dias; depois passaram a mandar mensagens; agora já nem isso. Ninguém sabe lidar com a dor dos outros durante muito tempo.
Teresa começou a chegar cada vez mais tarde a casa. Uma noite, apareceu com os olhos vermelhos e um cheiro estranho a perfume masculino na roupa.
— Estás diferente — disse-lhe eu, tentando esconder o ciúme e o medo.
— Preciso de respirar, Dário! Preciso de sentir que ainda estou viva! — gritou ela, atirando-me à cara tudo o que tínhamos evitado durante meses.
Nessa noite dormi no sofá. O silêncio era tão pesado que quase me sufocava.
O tempo passou devagar. Fui perdendo o emprego porque já não conseguia concentrar-me em nada. Os dias misturavam-se uns nos outros; as noites eram povoadas por pesadelos onde ouvia sempre aquele grito.
Um dia recebi uma carta registada: Teresa queria separar-se. Não chorei; não gritei; apenas fiquei ali sentado, com a carta nas mãos e o vazio dentro de mim a crescer.
A casa ficou ainda mais silenciosa depois disso. Os brinquedos do Leonel continuavam espalhados pela sala porque não tinha coragem de os arrumar. Às vezes sentava-me no chão e falava com ele como se ainda estivesse ali:
— Desculpa, filho… Desculpa…
A minha mãe continuou a visitar-me até ao dia em que me encontrou sentado no escuro, rodeado de garrafas vazias.
— Isto não pode continuar assim! — chorou ela, abraçando-me como quando eu era criança.
Foi nesse dia que percebi que tinha de fazer alguma coisa para não enlouquecer. Procurei ajuda num grupo de apoio para pais enlutados em Lisboa. Lá conheci outras pessoas com histórias parecidas — cada um com a sua dor, cada um com as suas culpas.
Uma senhora chamada Rosa contou como perdeu o filho num incêndio; um homem chamado Manuel falou sobre o acidente de mota do filho adolescente. Todos chorámos juntos; todos tentámos encontrar sentido onde não há sentido nenhum.
Com o tempo aprendi a viver com a dor. Nunca desaparece — apenas se torna parte de nós, como uma cicatriz invisível.
Hoje passo os dias a trabalhar numa associação que ajuda famílias enlutadas. Tento dar aos outros aquilo que ninguém conseguiu dar-me: compreensão sem julgamentos.
Às vezes vejo Teresa na rua. Ela refez a vida; tem outro companheiro e uma filha pequena que me lembra o Leonel em bebé. Cumprimentamo-nos à distância, cada um carregando os seus fantasmas.
À noite sento-me à janela e olho para as luzes da cidade. Pergunto-me se algum dia conseguirei perdoar-me verdadeiramente; se algum dia voltarei a sentir alegria sem sentir culpa.
E vocês? Acham possível recomeçar depois de perder tudo? Ou será que há dores que nunca nos largam?