Ele disse que era melhor assim: A noite em que perdi tudo e me reencontrei
— Maria, temos de falar. — A voz do António soou baixa, quase um sussurro, mas cortou o silêncio da cozinha como uma faca. Eu estava a arrumar a loiça do jantar, os miúdos já tinham subido para os quartos, e o cheiro do arroz de pato ainda pairava no ar. Senti um arrepio na espinha, como se já soubesse o que vinha aí.
Virei-me devagar, com o pano ainda nas mãos. Ele olhava para as próprias mãos, os dedos entrelaçados sobre a mesa de madeira que herdámos dos meus pais. — Acho que devíamos separar-nos. — Disse isto sem levantar a voz, sem lágrimas, sem raiva. Só uma tristeza cansada nos olhos castanhos que eu conhecia há vinte anos.
Por um momento, não consegui respirar. Oiço o relógio da parede a marcar cada segundo, cada batida mais alta do que o meu próprio coração. — Como assim? — perguntei, a voz a tremer. — António…
Ele suspirou. — Assim vai ser melhor para todos. Para ti, para mim, para os miúdos. Estamos só a arrastar isto. — E nesse instante percebi: ele já tinha decidido há muito tempo. Eu é que não quis ver.
Não chorei logo. Fiquei ali sentada, a olhar para ele como se fosse um estranho na minha cozinha. Lembrei-me do dia em que nos conhecemos na festa da aldeia, das promessas feitas na igreja de São Pedro, das noites em claro com os nossos filhos bebés. Tudo isso parecia tão distante agora.
— E os meninos? — perguntei, quase num sussurro.
— Vamos explicar-lhes juntos. Não quero que sintam que têm de escolher lados. — Ele falou com aquela calma irritante de quem já ensaiou tudo na cabeça.
Subi as escadas devagar naquela noite, cada degrau mais pesado do que o anterior. No quarto, sentei-me na cama e olhei para as fotografias na cómoda: nós no Gerês, os miúdos na praia da Nazaré, o Natal em casa dos meus pais antes da mãe morrer. Senti-me tão sozinha como nunca antes.
No dia seguinte, a notícia espalhou-se pela família como fogo em mato seco. A minha irmã Inês ligou-me logo de manhã.
— Maria! O que é isto que me disseram? O António saiu de casa?
— Ainda não… Mas vai sair. — A minha voz soava estranha até para mim.
— Mas vocês sempre foram tão unidos! O que é que aconteceu?
Como explicar? Como dizer à minha irmã, à minha família inteira, que o amor se tinha esgotado? Que eu própria já não sabia quem era sem ele?
Os dias seguintes foram um borrão de lágrimas escondidas na casa de banho, silêncios constrangedores à mesa e olhares tristes dos meus filhos. O João, com 14 anos, fechou-se no quarto e só saía para ir à escola ou comer à pressa. A Leonor, com 9 anos, chorava baixinho à noite e perguntava se o pai ainda ia buscá-la ao ballet.
A minha mãe ligava todos os dias:
— Maria, tens de ser forte pelos teus filhos. Não podes deixar-te ir abaixo.
Mas eu sentia-me a afundar num poço sem fundo. Ia trabalhar no hospital com um sorriso forçado, respondia aos colegas com monossílabos e voltava para casa para enfrentar o vazio.
O António arranjou um apartamento pequeno perto do trabalho. Levou só uma mala e algumas roupas. No dia em que saiu, fiquei à porta a vê-lo afastar-se pelo passeio, as costas curvadas sob o peso da decisão. Quando fechei a porta atrás dele, desabei finalmente em lágrimas.
A partir daí começaram as discussões familiares. O meu pai nunca gostou do António e agora sentia-se justificado:
— Eu sempre disse que ele não era homem para ti! Devias ter ouvido o teu velho!
A Inês tentava apaziguar:
— Pai, agora não é altura para isso…
Mas as palavras dele feriam mais do que ajudavam. Senti-me culpada por tudo: por não ter visto os sinais, por não ter lutado mais, por não conseguir proteger os meus filhos desta dor.
Os meses passaram devagar. Aprendi a fazer tudo sozinha: levar os miúdos às atividades, tratar das contas da casa, resolver avarias no carro. Às vezes sentia-me uma heroína silenciosa; outras vezes só queria desaparecer.
O João começou a sair mais com amigos e a chegar tarde a casa. Uma noite voltou bêbado e eu perdi a cabeça:
— Achas que isto é maneira de chegares a casa? Tens 14 anos!
Ele olhou-me com raiva:
— Se o pai cá estivesse era diferente! Tu nem sabes o que fazes!
Fechei-me na casa de banho e chorei baixinho para ninguém ouvir.
A Leonor tornou-se mais carente, pedia para dormir comigo todas as noites.
— Mãe, tu nunca me vais deixar também pois não?
Abraçava-a com força e prometia-lhe tudo o que podia prometer.
No trabalho começaram a notar que eu estava diferente. A enfermeira Carla chamou-me à parte:
— Maria, tens de cuidar de ti também… Não és de ferro.
Mas como cuidar de mim quando tudo à minha volta parecia desmoronar-se?
Um dia recebi uma mensagem do António: “Podemos falar?”
Encontrei-o num café perto da escola dos miúdos. Estava magro e cansado.
— Maria… Eu sei que isto está a ser difícil para todos. Mas acho mesmo que foi o melhor.
Olhei-o nos olhos pela primeira vez em meses.
— Melhor para quem? Para ti? Para mim? Para os nossos filhos?
Ele baixou os olhos.
— Eu já não era feliz há muito tempo… E tu também não eras.
Quis gritar-lhe todas as mágoas guardadas, mas só consegui perguntar:
— E agora? O que é suposto eu fazer?
Ele encolheu os ombros.
— Seguir em frente…
Saí dali com uma raiva surda dentro do peito. Mas naquela noite percebi que ele tinha razão numa coisa: eu já não era feliz há muito tempo. Tinha deixado de sonhar, de rir às gargalhadas, de me olhar ao espelho sem sentir vergonha ou tristeza.
Comecei a fazer pequenas coisas por mim: voltei a caminhar ao fim da tarde junto ao rio Douro; inscrevi-me numa aula de cerâmica; aceitei convites para sair com colegas do hospital. Aos poucos fui recuperando pedaços de mim mesma.
O João continuava revoltado mas um dia entrou na cozinha e disse:
— Mãe… desculpa por tudo o que te disse aquele dia.
Abracei-o com força e chorei outra vez — mas desta vez foi um choro bom.
A Leonor trouxe-me um desenho: nós três de mãos dadas sob um arco-íris.
Hoje olho para trás e vejo quanto cresci nesta dor toda. Ainda sinto falta do António às vezes — das conversas longas à noite ou dos domingos preguiçosos no sofá — mas aprendi a viver sem ele. Aprendi sobretudo a viver comigo mesma.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem presas ao medo de recomeçar? Quantas escondem as lágrimas dos filhos e fingem força quando tudo dentro delas está partido? Será possível amar outra vez depois de perder tudo? Talvez sim… Talvez seja preciso perder-se primeiro para se encontrar.