Quando a Minha Sogra Pediu o Impossível: Um Drama à Mesa Portuguesa
— Mariana, não te esqueças: o bacalhau à Brás tem de ser como eu faço. Não aceito menos. — A voz da Dona Lurdes ecoou pela cozinha, carregada de autoridade e um toque de ameaça velada. O relógio marcava sete da manhã e eu já sentia o suor frio escorrer-me pelas costas. Era véspera de Natal e, mais uma vez, a responsabilidade de preparar o jantar recaía sobre mim.
Olhei para o avental, já manchado de farinha e azeite, e pensei: “Será que algum dia vou conseguir agradar-lhe?” No ano passado, o bacalhau ficou salgado demais. O arroz empapado. Ela não disse nada à mesa, mas os olhares trocados com o meu marido, Rui, diziam tudo. Depois do jantar, ouvi-a sussurrar para ele na varanda: “A tua mãe nunca deixava o bacalhau assim…”
Este ano, porém, algo em mim mudou. Talvez fosse o cansaço de tentar ser perfeita, ou talvez a saudade da minha própria mãe, que já não está cá para me dar força. Senti uma raiva surda crescer-me no peito enquanto Dona Lurdes me dava instruções como se eu fosse uma criança.
— Mariana, não te esqueças de demolhar o bacalhau duas vezes! E corta as batatas fininhas, não quero batatas grossas! — insistia ela, de braços cruzados à porta da cozinha.
Respirei fundo e tentei manter a calma. O Rui entrou na cozinha nesse momento, tentando aliviar a tensão:
— Mãe, deixa a Mariana fazer à maneira dela. O importante é estarmos juntos.
Dona Lurdes lançou-lhe um olhar fulminante.
— Rui, tu sabes como é importante manter as tradições! Se cada um faz à sua maneira, isto vira uma confusão!
Senti-me pequena, esmagada entre as expectativas dela e o desejo de agradar ao Rui. Mas este ano não ia ceder. Virei-me para ela e disse, com a voz a tremer:
— Dona Lurdes, este ano vou fazer o bacalhau à minha maneira. Se não gostar, pode sempre não comer.
O silêncio caiu na cozinha como uma pedra. O Rui ficou branco. A sogra abriu muito os olhos, chocada com a minha ousadia.
— Como assim? — perguntou ela, num tom gelado.
— Estou cansada de tentar ser alguém que não sou. Quero que este Natal seja nosso, não uma competição com o passado — respondi, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
Ela virou costas e saiu da cozinha sem dizer mais nada. Fiquei ali parada, com as mãos a tremer e o coração aos pulos. O Rui aproximou-se e abraçou-me.
— Fizeste bem — murmurou ele. — Já era tempo de alguém lhe dizer.
O resto do dia foi um turbilhão de emoções. A Dona Lurdes fechou-se no quarto e só saiu para ir à missa. O meu cunhado, Miguel, chegou com a mulher e os filhos ao fim da tarde. O ambiente estava tenso; todos sentiam que algo tinha mudado.
Quando chegou a hora do jantar, coloquei o tabuleiro de bacalhau à Brás na mesa com mãos trémulas. Todos se serviram em silêncio. A Dona Lurdes olhou para o prato como se fosse veneno.
O meu sobrinho mais novo foi o primeiro a falar:
— Tia Mariana, isto está delicioso!
A tensão aliviou-se um pouco. O Miguel sorriu-me e levantou o copo:
— Ao novo bacalhau da família!
A Dona Lurdes manteve-se calada durante quase toda a refeição. No fim, levantou-se e disse:
— Mariana… está diferente do meu. Mas está bom.
Foi tudo o que precisou de dizer. Senti um peso sair-me dos ombros. Pela primeira vez em anos, senti-me parte daquela família — não como uma intrusa a tentar imitar alguém, mas como eu própria.
Depois do jantar, sentei-me na varanda com o Rui. Olhei para as luzes da cidade e pensei em tudo o que tinha passado para chegar ali: as lágrimas escondidas na casa de banho depois dos comentários da sogra; as noites em claro a tentar aprender receitas que nunca me pertenciam; os telefonemas à minha mãe pedindo conselhos que já não podia ouvir.
— Achas que algum dia vou ser suficiente para ela? — perguntei ao Rui.
Ele sorriu e apertou-me a mão.
— Para mim já és mais do que suficiente.
Fiquei ali a pensar: quantas mulheres portuguesas passam por isto todos os anos? Quantas tentam encaixar-se em moldes antigos só para agradar? Será que vale mesmo a pena perdermos quem somos para manter tradições que já não nos dizem nada?
E vocês? Já sentiram esta pressão familiar? Até onde iriam para agradar alguém?