Redenção de uma Avó: Recomeço Entre os Escombros
— Não me peças para compreender, mãe. Eu já tomei a minha decisão. — A voz do Pedro ecoava pelo corredor, fria e definitiva. O som da porta a bater foi como um trovão a rasgar o silêncio da nossa casa. Fiquei ali, parada, com as mãos trémulas e o coração a latejar no peito, incapaz de acreditar que aquele rapaz que embalei em bebé agora virava costas à mulher e ao filho.
Alice estava sentada na sala, os olhos vermelhos de tanto chorar. O pequeno Tiago dormia no sofá, alheio ao caos que se abatia sobre nós. Sentei-me ao lado dela, sem saber o que dizer. O silêncio era pesado, quase sufocante.
— Ele não volta, pois não? — perguntou Alice, a voz embargada.
Quis mentir-lhe, dizer que tudo ia passar, mas as palavras ficaram-me presas na garganta. Em vez disso, abracei-a. Senti o corpo dela tremer contra o meu, e chorei também. Chorei pelo Pedro, por Alice, pelo Tiago e por mim. Chorei porque não sabia como se reconstroem famílias partidas.
Os dias seguintes foram um nevoeiro denso. Pedro não voltou. As mensagens eram secas, distantes. “Preciso de tempo.” “Não me procurem.” Alice tentava manter-se forte por Tiago, mas eu via como se desfazia em silêncio quando ele não estava a olhar.
A minha irmã, Teresa, veio visitar-nos. — Tu não tens culpa de nada, Maria — disse-me ela, apertando-me as mãos. — O Pedro é crescido. Fez a escolha dele.
Mas eu sentia-me responsável. Onde é que falhei? Terá sido por ter sido demasiado permissiva? Ou demasiado exigente? As perguntas rodopiavam-me na cabeça noite após noite.
Uma tarde, Alice apareceu à porta do meu quarto com os olhos inchados.
— Preciso de falar contigo.
Assenti e sentei-me na beira da cama.
— Não consigo continuar aqui — disse ela. — Cada canto desta casa lembra-me dele. Preciso de sair, de respirar.
O medo apertou-me o peito. Ia perder também Alice e Tiago? Mas vi nos olhos dela uma força nova, uma determinação que nunca lhe conhecera.
— Vais para onde? — perguntei.
— Para casa dos meus pais. Só por uns tempos. Preciso de me encontrar.
Abracei-a com força. — Vais conseguir. E eu estou aqui para tudo o que precisares.
Quando fecharam a porta atrás de si, senti um vazio imenso. A casa parecia maior, fria e vazia. Passei dias a arrumar gavetas e a limpar armários só para não pensar.
As vizinhas cochichavam no café: “O Pedro fugiu com aquela rapariga do escritório…” “Coitada da Maria…” Eu fingia não ouvir, mas cada palavra era uma punhalada.
Uma noite, Pedro ligou-me.
— Mãe… — A voz dele estava diferente, cansada.
— O que queres? — perguntei, sem conseguir esconder a mágoa.
— Só queria saber do Tiago…
— Se querias saber do teu filho, não tinhas ido embora! — explodi finalmente. — Sabes o que fizeste à tua família?
Do outro lado ouvi apenas silêncio. Depois um suspiro.
— Não consigo explicar-te agora… Preciso de tempo.
Desliguei antes que ele dissesse mais alguma coisa. Passei a noite em claro, a pensar em tudo o que tinha perdido.
Os meses passaram devagar. Alice arranjou trabalho numa escola primária perto dos pais e começou a sorrir outra vez. Tiago crescia rápido; quando vinha passar fins de semana comigo, enchia a casa de gargalhadas e desenhos espalhados pelo chão.
Um dia, Alice ligou-me:
— Maria… Preciso de ti aqui comigo. O Tiago está doente e os meus pais estão fora…
Fui imediatamente para lá. Quando cheguei, encontrei Alice exausta ao lado da cama do Tiago, que ardia em febre.
— Vai descansar um pouco — disse-lhe. — Eu fico com ele.
Passei a noite ao lado do meu neto, refrescando-lhe a testa com panos húmidos e contando-lhe histórias baixinho até adormecer. Senti uma paz estranha naquele quarto pequeno; ali éramos só nós dois contra o mundo.
De manhã, Alice apareceu à porta com um sorriso cansado.
— Obrigada… Não sei o que faria sem ti.
Nesse momento percebi: já não éramos sogra e nora; éramos duas mulheres destroçadas pela mesma perda, mas unidas pelo amor ao Tiago.
Começámos a ver-nos mais vezes. Aos poucos fui ajudando Alice com as tarefas da casa e com o Tiago. Íamos juntas ao mercado, cozinhávamos bolos ao domingo e ríamos das pequenas desgraças do dia-a-dia: o leite entornado na cozinha, o Tiago a pintar as paredes com lápis de cera.
Certa tarde, enquanto arrumávamos brinquedos espalhados pela sala, Alice olhou para mim com lágrimas nos olhos:
— Achas que algum dia vou conseguir perdoar o Pedro?
Sentei-me ao lado dela e segurei-lhe as mãos.
— O perdão não é para ele; é para ti. Para poderes seguir em frente sem esse peso no coração.
Ela sorriu tristemente e abraçou-me.
O Pedro continuava ausente. De vez em quando mandava mensagens para saber do filho, mas nunca aparecia. Um dia recebi uma carta dele:
“Mãe,
Sei que te desiludi. Sei que magoei toda a gente que amo. Não sei se algum dia vou conseguir perdoar-me pelo que fiz à Alice e ao Tiago. Só queria que soubesses que penso em vocês todos os dias.
Pedro”
Chorei ao ler aquelas palavras. Quis rasgar a carta e esquecer tudo; quis também correr para ele e abraçá-lo como quando era pequeno. Mas limitei-me a guardar a carta numa gaveta junto às fotografias antigas da família.
O tempo foi passando e as feridas começaram a sarar devagarinho. Alice conheceu alguém novo — o João, um colega da escola — e vi-a florescer outra vez. No início senti ciúmes; parte de mim queria agarrar-se à família antiga, mas percebi que todos tínhamos direito a recomeçar.
Numa tarde de verão, estávamos todos no jardim: eu, Alice, João e o Tiago a correr atrás das borboletas. Senti uma felicidade tranquila invadir-me; talvez não fosse a família perfeita que sonhei um dia, mas era nossa — feita de remendos e cicatrizes, mas cheia de amor.
Às vezes ainda sonho com o Pedro pequeno, a correr pelo quintal atrás das galinhas da avó Rosa. Pergunto-me onde errei; pergunto-me se algum dia voltaremos a ser uma família completa.
Mas aprendi que há muitas formas de amar e de reconstruir depois da tempestade. E talvez seja isso que significa ser mãe — continuar a amar mesmo quando tudo parece perdido.
E vocês? Já tiveram de perdoar alguém que vos magoou profundamente? Como se recomeça quando tudo parece ruir?