Devo deixar a minha ex-sogra ver a minha filha? Uma história de lealdade, dor e escolhas difíceis

— Não podes fazer isto, Sofia! — gritou a minha mãe ao telefone, enquanto eu olhava para o bolo de aniversário da Leonor, já meio derretido na mesa da sala. — Depois de tudo o que aquela família te fez, vais mesmo deixar a Dona Amélia entrar aqui?

A minha mão tremia ao segurar o telemóvel. O relógio marcava quase cinco da tarde e a sala estava cheia de balões coloridos, mas o ambiente era pesado, como se cada cor fosse uma lembrança do que já não tínhamos. O Rui, meu ex-marido, não tinha dado sinal de vida. Nem uma mensagem. Nem uma chamada. Nada.

Olhei para a Leonor, de dois anos, sentada no chão com o vestido azul que Dona Amélia lhe oferecera no Natal passado. Ela sorria para os bonecos, alheia à tempestade que se formava à sua volta. Senti uma pontada de inveja pela sua inocência.

— Mãe, ela é avó da Leonor — respondi, tentando manter a voz firme. — Não posso simplesmente cortar essa ligação.

— Mas ela é mãe do Rui! E tu sabes bem o que ele te fez! — insistiu a minha mãe, com aquela voz de quem já decidiu por mim.

A campainha tocou. O som ecoou pela casa como um trovão. Senti o coração acelerar. Por um momento, desejei que fosse o Rui, que viesse pedir desculpa, que dissesse que ainda se importava. Mas sabia que era impossível.

Abri a porta e lá estava ela: Dona Amélia, com um embrulho cor-de-rosa nas mãos e os olhos vermelhos de tanto chorar. O cabelo grisalho apanhado num coque apressado, as mãos trémulas.

— Olá, Sofia… — disse ela, quase num sussurro. — Posso entrar?

Hesitei. O cheiro do perfume dela trouxe-me memórias de outros tempos: domingos em família, risos à mesa, Leonor ainda bebé ao colo do pai. Tudo isso parecia tão distante agora.

— Claro… Entre — respondi, afastando-me para lhe dar passagem.

Ela entrou devagarinho, como se tivesse medo de perturbar alguma coisa sagrada. A minha mãe olhou-a de cima a baixo, mas não disse nada. O silêncio era cortante.

Dona Amélia ajoelhou-se ao lado da Leonor e entregou-lhe o presente. A menina abriu-o com entusiasmo: um urso de peluche enorme, quase do tamanho dela. Os olhos da avó brilharam por um instante.

— Parabéns, meu amor — murmurou ela, abraçando a neta com força.

Fiquei ali parada, sem saber o que fazer com as mãos. Queria proteger a Leonor de tudo aquilo, mas também sabia que não podia privá-la do carinho da avó. E ao mesmo tempo, cada gesto de Dona Amélia era uma lembrança dolorosa do Rui: das traições, das discussões intermináveis, das noites em claro à espera dele.

Depois do bolo e das velas sopradas com pouca convicção (faltava alguém naquela mesa), sentei-me com Dona Amélia na varanda. Ela olhava para o jardim como se procurasse respostas nas flores murchas.

— Sofia… — começou ela, com a voz embargada — Eu sei que não tenho direito de pedir nada depois do que aconteceu entre ti e o Rui… Mas eu amo aquela menina como se fosse minha filha. Não me tires isso também…

Senti as lágrimas a quererem saltar dos olhos. Lembrei-me das vezes em que Dona Amélia me defendeu do filho dela, das conversas longas na cozinha enquanto ele desaparecia sabe-se lá onde.

— Eu não quero afastá-la de si — confessei. — Mas é difícil… Cada vez que a vejo aqui lembro-me do que perdi.

Ela pousou a mão sobre a minha.

— Eu perdi um filho para os erros dele… Não quero perder uma neta por causa disso também.

O silêncio caiu sobre nós como um manto pesado. Lá dentro, ouvia-se a Leonor a rir com os primos.

Quando Dona Amélia se foi embora, ficou um vazio estranho na casa. A minha mãe aproximou-se de mim e abraçou-me sem dizer palavra. Senti-me pequena outra vez.

À noite, depois de deitar a Leonor, sentei-me na cama e olhei para o telemóvel. Nenhuma mensagem do Rui. Nenhuma chamada perdida. Só o silêncio.

Lembrei-me da última discussão antes do divórcio:

— Eu não aguento mais! — gritei-lhe naquela noite chuvosa. — A tua ausência está a matar-me!

Ele olhou-me com aquele ar cansado de quem já desistiu há muito tempo.

— Sofia… Eu não sei ser pai nem marido. Desculpa.

E saiu porta fora sem olhar para trás.

Desde então, tentei reconstruir-me aos bocados: arranjei outro emprego numa loja de roupa no centro de Lisboa; voltei a sair com amigas; tentei sorrir para a Leonor mesmo quando só me apetecia chorar.

Mas havia sempre esta sombra: o medo de estar a falhar como mãe por não conseguir perdoar totalmente; o receio de estar a privar a minha filha de uma família maior só porque eu ainda sangrava por dentro.

No trabalho, as colegas falavam dos maridos e dos sogros como se tudo fosse simples.

— A minha sogra é um amor! — dizia a Carla enquanto dobrava camisolas. — Vai buscar os miúdos à escola todos os dias!

Eu sorria e mudava de assunto. Ninguém sabia das noites em claro nem das mensagens que nunca chegavam.

Certa tarde, fui buscar a Leonor à creche e encontrei Dona Amélia à porta. Trazia um saco com bolinhos caseiros e um sorriso tímido.

— Posso levá-la ao parque? Só um bocadinho…

Olhei para Leonor: os olhos dela brilhavam sempre que via a avó. Suspirei e acenei que sim.

Sentámo-nos as duas num banco enquanto Leonor corria atrás dos pombos.

— Sabes… — disse Dona Amélia — Quando o Rui era pequeno eu também tive medo de não ser suficiente para ele. O meu marido era ausente… Eu fazia tudo sozinha. Talvez por isso ele tenha crescido assim…

Olhei-a nos olhos pela primeira vez em muito tempo.

— Não é culpa sua — disse-lhe baixinho. — Cada um faz as suas escolhas.

Ela sorriu tristemente.

— Mas as escolhas dos filhos doem tanto nas mães…

Ficámos ali em silêncio até ao pôr-do-sol.

Em casa, Leonor adormeceu agarrada ao urso novo. Fiquei a vê-la dormir e perguntei-me se algum dia conseguiria perdoar verdadeiramente o Rui; se algum dia deixaria de associar Dona Amélia à dor do passado; se algum dia conseguiria ser só mãe sem ser ex-mulher também.

Às vezes penso: será justo privar uma criança do amor da avó só porque eu ainda não consegui sarar? Ou será que estou apenas a prolongar uma ferida que já devia ter cicatrizado?

E vocês? O que fariam no meu lugar? Até onde vai o nosso dever como mães… e onde começa o nosso direito à paz?