Vendi a Casa pelo Meu Filho – E Perdi Tudo
— Mãe, por favor, não tenho mais a quem recorrer. Se não me ajudares agora, vou perder tudo. — A voz do Rui tremia do outro lado da linha, e eu sentia o desespero dele como se fosse meu.
Agarrei o telefone com força, sentada na poltrona gasta da sala. O relógio marcava quase meia-noite, mas o sono já me tinha abandonado há muito. O Rui era o meu único filho, o meu orgulho e também a minha maior preocupação desde que o pai dele nos deixou, há já quase vinte anos. Lembro-me de todas as noites em que lhe fazia chá quando tinha febre, de todos os dias em que lhe apertava a mão antes dos exames. Agora, era ele quem precisava de mim — mas de uma forma que eu nunca tinha imaginado.
— Rui, já te ajudei tantas vezes… — tentei argumentar, mas a minha voz saiu fraca, quase um sussurro.
— Desta vez é diferente, mãe! Juro que é a última. Só preciso de um recomeço. — Ele chorava. E eu… eu sentia-me a afundar.
Durante dias não consegui pensar noutra coisa. O Rui estava atolado em dívidas. Primeiro pensei que era por causa do negócio de restauração que nunca arrancou verdadeiramente. Mas as contas não batiam certo. As quantias eram demasiado altas, os prazos demasiado curtos. Quando finalmente tive coragem de lhe perguntar diretamente, ele desviou o olhar.
— Rui, diz-me a verdade. Isto é por causa do jogo? — perguntei-lhe numa tarde fria de janeiro, sentados à mesa da cozinha.
Ele ficou calado durante tanto tempo que pensei que não ia responder. Depois, baixou a cabeça e murmurou:
— Sim, mãe… Perdi-me. Não sei como sair disto.
Senti um nó no estômago. O meu filho, aquele menino que eu embalei nos braços, estava preso numa teia de vício e desespero. Mas era meu filho. E eu faria tudo por ele.
Foi assim que tomei a decisão mais difícil da minha vida: vender a casa onde vivi mais de trinta anos. A casa onde o Rui deu os primeiros passos, onde celebrámos aniversários e chorámos perdas. A casa onde eu própria cresci, herdada dos meus pais. Mas naquele momento, parecia-me que nada era mais importante do que salvar o meu filho.
A minha irmã Teresa foi a primeira a saber.
— Estás louca? Vais ficar sem teto por causa dele? — gritou ela ao telefone.
— Ele é meu filho, Teresa! Não percebes? — respondi, sentindo as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto.
— E quando o dinheiro acabar? Achas que ele vai mudar? — Ela suspirou fundo. — Tu não podes carregar o mundo às costas.
Mas eu já tinha decidido. Vendi a casa por um valor abaixo do mercado porque precisava do dinheiro rápido. O comprador era um senhor idoso chamado Sr. Manuel, que me olhou com pena quando assinei os papéis.
— Tem a certeza do que está a fazer? — perguntou-me ele.
— Tenho — menti.
Entreguei todo o dinheiro ao Rui. Ele prometeu-me que ia pagar as dívidas e começar de novo. Até me disse que ia procurar ajuda para o vício. Durante umas semanas, parecia outro homem: mais calmo, mais presente. Até me levou flores num domingo à tarde.
Mas a ilusão não durou muito tempo.
Comecei a notar sinais estranhos: telefonemas à noite, ausências prolongadas, olhares fugidios. Um dia encontrei uma carta do banco dirigida ao Rui — estava cheia de ameaças de penhora. O dinheiro tinha desaparecido tão depressa como chegou.
— Rui, onde está o dinheiro? — perguntei-lhe num confronto inevitável.
Ele chorou, ajoelhou-se aos meus pés e pediu desculpa. Admitiu que tinha voltado ao casino logo depois de pagar parte das dívidas. Achava que podia recuperar tudo com uma aposta de sorte.
— Mãe, eu sou um falhado… — soluçou ele.
Nesse momento senti uma raiva surda misturada com uma tristeza profunda. Tinha perdido tudo: a casa dos meus pais, o meu lar e até a confiança no meu próprio filho.
Fui viver para casa da Teresa temporariamente. Ela recebeu-me de braços abertos mas com um olhar carregado de censura.
— Eu avisei-te… — disse ela numa noite enquanto bebíamos chá na cozinha dela.
— Eu sei… Mas como é que uma mãe vira as costas ao filho? — respondi-lhe, olhando para as mãos trémulas.
Os dias passaram lentos e pesados. O Rui desapareceu durante semanas. Não atendia chamadas nem respondia às mensagens. Teresa dizia para eu seguir em frente, mas como é que se esquece um filho?
Um dia ele apareceu à porta da casa da Teresa: magro, olheiras fundas, roupa suja.
— Mãe… preciso de ajuda — murmurou ele.
Desta vez fui firme:
— Só te ajudo se aceitares tratamento. Não há mais dinheiro nem desculpas.
Ele acenou com a cabeça e chorou nos meus braços como quando era pequeno. Arranjei-lhe vaga numa clínica em Lisboa com a ajuda da assistente social do centro de saúde local. Foi duro vê-lo partir para lá, mas sabia que era necessário.
Durante meses visitei-o todas as semanas. Vi-o lutar contra os demónios dele, vi-o cair e levantar-se vezes sem conta. Aos poucos foi recuperando alguma esperança e dignidade.
Entretanto comecei eu própria a reconstruir-me: arranjei trabalho como empregada numa pastelaria local para poder pagar um pequeno quarto arrendado. Não era fácil aos 62 anos recomeçar do zero, mas aprendi a valorizar cada pequena vitória: um sorriso de um cliente habitual, um café partilhado com uma colega nova.
O Rui saiu da clínica ao fim de oito meses. Não voltou a viver comigo — sabia que precisava de espaço para crescer sozinho. Arranjou emprego numa loja de informática e começou a frequentar reuniões dos Jogadores Anónimos.
Hoje olho para trás e vejo tudo o que perdi: a casa dos meus pais, os móveis antigos cheios de memórias, os jantares em família à volta da mesa grande da sala… Mas também vejo tudo o que ganhei: uma nova força dentro de mim e uma relação com o meu filho baseada na verdade e não na ilusão.
Às vezes pergunto-me se fiz bem ou mal em sacrificar tanto pelo Rui. Será que o amor de mãe deve ter limites? Ou será precisamente esse amor incondicional que nos salva — mesmo quando parece destruir-nos primeiro?