Entre Duas Portas: Quando a Sogra Divide a Família

— Não percebes, mãe? Não é justo! — A voz do Rui ecoou pela cozinha, tensa, quase a tremer. Eu estava sentada à mesa, com as mãos frias agarradas à chávena de chá, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair. A sogra, Dona Teresa, olhou para ele com aquele ar de superioridade que sempre me fez sentir pequena.

— Rui, não me venhas com essas conversas. A tua irmã precisa mais do que vocês — respondeu ela, sem sequer me olhar nos olhos. — E vocês têm casa, têm comida. O que querem mais?

A minha cunhada, Mariana, estava encostada à ombreira da porta, com um sorriso vitorioso nos lábios. Sabia que era a preferida. Sempre foi. Desde que casei com o Rui, senti-me uma intrusa nesta família. No início tentei agradar, tentei ser a nora perfeita, mas rapidamente percebi que nunca seria suficiente.

Lembro-me do primeiro Natal passado aqui. Dona Teresa ofereceu à Mariana um envelope recheado de dinheiro e a nós… uma cesta de produtos do supermercado. O Rui ficou calado, mas eu vi nos olhos dele a mesma mágoa que sentia. Na altura pensei que era só uma fase, que talvez as coisas mudassem com o tempo. Mas passaram-se anos e tudo piorou.

A Mariana perdeu o emprego há dois anos. Desde então, a sogra paga-lhe a renda da casa, as contas, até o ginásio. A nós, quando pedimos ajuda para pagar uma conta da luz atrasada, ouvimos um sermão sobre responsabilidade e gestão financeira. Senti-me humilhada. Não era só o dinheiro — era o peso da injustiça, da diferença de tratamento.

— Mãe, nós também temos dificuldades — insistiu o Rui naquele dia na cozinha. — Não é justo estares sempre a ajudar só a Mariana.

Dona Teresa suspirou alto e virou-se para mim pela primeira vez.

— Tu não percebes, Sofia. A Mariana está sozinha. Tu tens o Rui. Tens uma família. Ela só tem a mim.

Quis gritar-lhe que eu também só tinha o Rui e que ela nunca me aceitou verdadeiramente. Mas calei-me. Sempre me calei para evitar discussões, para não criar mais conflitos. Mas aquela noite foi diferente. Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim.

Depois do jantar, já em casa, desabafei com o Rui:

— Não aguento mais isto. Sinto-me invisível nesta família. Parece que só existo para servir à mesa e sorrir nas fotografias.

O Rui abraçou-me forte.

— Eu sei, amor. Mas é minha mãe… Não quero cortar relações com ela.

— E eu? Vais cortar relações comigo? — perguntei-lhe, com lágrimas nos olhos.

Ele ficou em silêncio. O silêncio dele doeu mais do que qualquer palavra da sogra.

Os meses seguintes foram um arrastar de dias cinzentos. A Mariana vinha cá jantar quase todas as semanas, sempre com histórias novas sobre viagens e compras — tudo pago pela mãe. Eu sentia-me cada vez mais pequena, mais deslocada na minha própria casa.

Um dia, ao chegar do trabalho, encontrei Dona Teresa sentada na sala com o Rui.

— Vim trazer umas compras — disse ela, pousando sacos cheios de comida no chão. — Para vocês não vos faltar nada.

Agradeci por educação, mas por dentro sentia-me insultada. Precisávamos de ajuda para pagar o infantário do nosso filho, não de mais arroz e massa.

Nessa noite, depois de deitar o pequeno Miguel, sentei-me na varanda e chorei baixinho. Senti-me derrotada. Lembrei-me da minha mãe, que sempre dividiu tudo por igual entre mim e os meus irmãos. Porque é que aqui tinha de ser diferente?

No fim-de-semana seguinte, decidi confrontar Dona Teresa. Convidei-a para tomar um café connosco em casa.

— Dona Teresa — comecei eu, tentando manter a voz firme — queria falar consigo sobre a forma como trata os seus filhos.

Ela olhou-me com desconfiança.

— O que queres dizer com isso?

— Sinto que há uma diferença muito grande entre aquilo que faz pela Mariana e aquilo que faz por nós — disse eu, olhando-a nos olhos pela primeira vez em muito tempo.

Ela bufou.

— Lá estás tu com essas ideias…

— Não são ideias — interrompi-a. — São factos. A Mariana recebe dinheiro todos os meses. Nós recebemos comida quando lhe apetece trazer. O Miguel é seu neto também. Porque é que ele não merece o mesmo apoio?

O Rui estava ao meu lado, calado mas tenso.

Dona Teresa levantou-se abruptamente.

— Eu faço o que acho melhor! Sempre fiz tudo pelos meus filhos! Se não gostam, paciência!

Saiu porta fora sem olhar para trás. O silêncio ficou pesado na sala.

O Rui passou as mãos pelo rosto.

— Talvez tenha sido demais…

— Talvez tenha sido pouco — respondi eu.

Nos dias seguintes, Dona Teresa não atendeu os nossos telefonemas. A Mariana mandou-me uma mensagem: “Parabéns, agora conseguiste afastar ainda mais a mãe do Rui de vocês.” Senti-me culpada e aliviada ao mesmo tempo.

O Miguel perguntava pela avó e eu não sabia o que responder. O Rui andava cabisbaixo e distante.

Passaram-se semanas até Dona Teresa aparecer à porta de casa. Trazia um saco de brinquedos para o Miguel e um bolo caseiro.

— Vim ver o meu neto — disse ela secamente.

Deixei-os sozinhos na sala e fui arrumar a cozinha. Ouvi-a perguntar ao Miguel se estava tudo bem na escola e senti uma pontada de tristeza: porque é que comigo nunca conseguia ter uma conversa normal?

Quando ela se foi embora, deixou um envelope em cima da mesa da cozinha.

Abri-o: era um cheque de 200 euros “para ajudar no infantário”.

O Rui sorriu timidamente.

— Talvez tenha percebido…

Mas eu sabia que não era assim tão simples. O dinheiro era só um remendo numa ferida muito mais profunda: a falta de reconhecimento, de igualdade, de carinho verdadeiro.

Hoje continuo a viver entre duas portas: a da minha casa e a da casa da sogra; entre o desejo de pertencer e a certeza de nunca ser aceite completamente; entre o amor pelo Rui e o peso das escolhas dele.

Às vezes pergunto-me: quantas famílias vivem presas nestas teias de favoritismo e injustiça? Será possível quebrar este ciclo sem perder quem amamos? Gostava tanto de ouvir as vossas histórias…