Férias que Mudaram Tudo: Entre a Traição e o Recomeço

— Não me mintas, Miguel! Eu vi as mensagens! — gritei, com a voz embargada, enquanto as lágrimas me escorriam pelo rosto. O cheiro a maresia entrava pela janela aberta da casa de férias, misturando-se com o sabor amargo da traição. Era o primeiro dia das férias em Vila Nova de Milfontes, e eu já sabia que nada voltaria a ser igual.

Miguel olhou para mim, pálido, sem conseguir encarar-me nos olhos. — Ana, deixa-me explicar… Não é o que parece.

— Não é o que parece? — interrompi, quase a rir de nervosismo. — Então explica-me porque é que a tua colega de trabalho te chama “meu amor” e fala em saudades das noites contigo?

O silêncio dele foi mais ensurdecedor do que qualquer grito. Senti o coração apertar-se no peito, como se alguém o estivesse a espremer com força. Os nossos filhos, Leonor e Tomás, brincavam lá fora, alheios ao furacão que se abatia sobre nós.

Nunca pensei que fosse acontecer comigo. Sempre fui aquela mulher que acreditava na família, no casamento, na honestidade. Cresci em Setúbal, filha de pais trabalhadores e honestos, que me ensinaram a lutar pelo que queria. Conheci o Miguel na faculdade, apaixonámo-nos depressa demais, casámos cedo demais. Mas nunca duvidei do nosso amor — até agora.

— Ana… foi um erro. Eu estava confuso, as coisas entre nós não estavam bem… — balbuciou ele.

— E achaste que a solução era trair-me? — atirei-lhe, sentindo a raiva crescer dentro de mim. — E os nossos filhos? E tudo o que construímos?

Miguel não respondeu. Limitou-se a baixar a cabeça, derrotado. Senti-me sozinha como nunca antes. O som das ondas lá fora parecia gozar comigo: “Vês? Nada é eterno.”

Durante o jantar, tentei manter a compostura por causa das crianças. Leonor, com os seus oito anos, percebeu logo que algo não estava bem.

— Mãe, estás triste? — perguntou ela, com aqueles olhos grandes e atentos.

Sorri-lhe, tentando esconder o desespero. — Não, filha. Só estou cansada da viagem.

Mas Tomás, mais velho e perspicaz, lançou um olhar desconfiado ao pai. — Vocês discutiram outra vez?

Miguel tentou intervir: — Não é nada de grave, Tomás. Só estamos cansados.

A noite caiu pesada sobre mim. Não consegui dormir. Fiquei horas a olhar para o teto branco do quarto alugado, a ouvir a respiração tranquila dos meus filhos no quarto ao lado e o silêncio ensurdecedor do Miguel ao meu lado na cama. Perguntei-me como tinha chegado ali. Onde é que me tinha perdido? Será que alguma vez fui verdadeiramente feliz ou só estava a viver uma ilusão?

No dia seguinte, acordei cedo e fui caminhar pela praia sozinha. O mar revolto parecia refletir o meu estado de espírito. Sentei-me na areia húmida e chorei tudo o que tinha para chorar. Lembrei-me da minha mãe, da força dela quando o meu pai ficou desempregado e ela teve de sustentar a casa sozinha durante meses. Sempre admirei aquela coragem silenciosa.

Quando voltei à casa de férias, encontrei Miguel à mesa da cozinha, com um café frio à frente e os olhos vermelhos de quem também não dormiu.

— Ana… precisamos de conversar — disse ele, num tom baixo.

Sentei-me à sua frente, sentindo um nó no estômago.

— Eu sei que não mereço o teu perdão — começou ele. — Mas quero tentar explicar-te… Eu sinto-me perdido há muito tempo. No trabalho sou só mais um número, em casa parece que estamos sempre cansados ou preocupados com as contas… Senti-me sozinho e deixei-me levar por uma ilusão.

Olhei para ele e vi um homem cansado, desiludido consigo próprio. Mas isso não desculpava nada.

— E eu? Achas que não me sinto sozinha? Achas que não tenho medo do futuro? Mas nunca te traí! Nunca procurei consolo noutro homem! — respondi-lhe, sentindo as lágrimas voltarem aos olhos.

Ele tentou pegar-me na mão, mas afastei-a instintivamente.

— Preciso de tempo — disse-lhe apenas.

Os dias seguintes foram um tormento silencioso. Passeávamos com as crianças pela vila como se fôssemos uma família feliz, mas por dentro eu estava em ruínas. À noite chorava baixinho na casa de banho para ninguém ouvir. Comecei a questionar tudo: será que devia lutar pelo casamento? Ou seria melhor seguir sozinha?

A minha irmã Marta ligou-me ao terceiro dia das férias.

— Estás estranha ao telefone… aconteceu alguma coisa? — perguntou ela.

Não consegui mentir-lhe. Contei-lhe tudo entre soluços.

— Ana… volta para casa. Fica uns dias comigo e com o Pedro. Não tens de passar por isso sozinha — disse ela.

A ideia de fugir dali pareceu-me tentadora. Mas depois olhei para os meus filhos e percebi que não podia simplesmente desaparecer do mundo deles.

Nessa noite, depois de deitar as crianças, sentei-me na varanda com um copo de vinho e chamei Miguel para conversar.

— Não sei se consigo perdoar-te — disse-lhe honestamente. — Mas também não quero tomar decisões precipitadas por causa da dor.

Ele assentiu em silêncio.

— Quero voltar para Setúbal depois das férias. Preciso do meu espaço… Preciso perceber quem sou sem ti — continuei.

Miguel chorou pela primeira vez desde tudo aquilo começar. Vi nele um homem arrependido, mas também percebi que o nosso casamento nunca mais seria igual.

Quando voltámos a casa, pedi-lhe para sair durante uns tempos. Os meus pais receberam-me de braços abertos, mas senti o julgamento nos olhos do meu pai: “Falhaste.”

A Marta foi o meu maior apoio. Passávamos horas a conversar na cozinha dela enquanto os miúdos brincavam juntos.

— Sabes… sempre achei que tu e o Miguel eram perfeitos juntos — confessou ela uma noite. — Mas agora vejo que ninguém é perfeito. E tu tens direito à tua felicidade.

Comecei a ir à psicóloga. Falei sobre tudo: sobre o medo da solidão, sobre a culpa de falhar como mãe e mulher, sobre a raiva e a tristeza.

Certo dia, Leonor entrou no meu quarto com um desenho nas mãos: era uma família de quatro pessoas de mãos dadas sob um arco-íris.

— Mãe… ainda vamos ser felizes outra vez? — perguntou ela baixinho.

Abracei-a com força e chorei como há muito não chorava.

O tempo foi passando devagarinho. Miguel tentou reconquistar-me com gestos pequenos: flores deixadas à porta dos meus pais, mensagens carinhosas, convites para passeios em família. Mas eu já não era a mesma Ana de antes.

Comecei a redescobrir-me: voltei a pintar (algo que adorava em miúda), inscrevi-me num curso de cerâmica e fiz novas amizades no bairro. Pela primeira vez em muitos anos senti-me dona de mim própria.

Um dia sentei-me com Miguel num café à beira-mar para uma conversa definitiva.

— Miguel… agradeço tudo o que fizeste por mim e pelos nossos filhos. Mas preciso seguir o meu caminho sozinha agora. Preciso aprender a ser feliz comigo mesma antes de poder ser feliz com alguém.

Ele chorou outra vez, mas aceitou a minha decisão com dignidade.

Hoje vivo num pequeno apartamento em Setúbal com os meus filhos metade da semana. O resto do tempo é só meu: para ler, pintar ou simplesmente ouvir o silêncio sem medo dele.

Às vezes ainda dói lembrar tudo o que perdi. Mas também sinto orgulho na mulher em que me tornei: mais forte, mais livre e mais verdadeira comigo mesma.

Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem presas ao medo de recomeçar? Quantas escondem as suas dores atrás de sorrisos forçados? Será que temos coragem para escolher-nos a nós próprias quando tudo parece desabar?