“Então é isto?” – A história de uma mulher portuguesa à beira do divórcio
— Então é isto? Depois de vinte anos juntos, é assim que acaba? — perguntei, com a voz embargada, olhando para Rui, que evitava o meu olhar enquanto mexia nervosamente nas chaves do carro.
Ele suspirou fundo, sem coragem de me encarar. — Desculpa, Teresa. Já não dá mais. Eu… eu conheci outra pessoa.
O chão fugiu-me dos pés. Senti o coração a bater tão forte que temi desmaiar ali mesmo, na nossa cozinha, onde tantas vezes cozinhámos juntos para os nossos filhos, onde rimos e discutimos sobre contas e férias. O cheiro a café ainda pairava no ar, misturado com o perfume dele — um aroma que agora me enjoava.
— Outra pessoa? — repeti, como se as palavras fossem um veneno que precisava de cuspir. — Quem? Há quanto tempo?
Ele hesitou. — Não interessa quem. Isto já não estava bem há muito tempo…
— Não interessa? Rui, somos uma família! Os nossos filhos estão a dormir no quarto ao lado! — gritei, sentindo as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto.
O silêncio caiu pesado entre nós. Lembrei-me da minha mãe, Maria do Carmo, que sempre dizia: “Filha, casamento é luta diária. Mas nunca deixes que te pisem.” O conselho dela ecoava-me na cabeça enquanto Rui recolhia algumas roupas à pressa e saía pela porta sem olhar para trás.
Naquela noite não dormi. Sentei-me na sala, rodeada pelas fotografias da família: os verões em Vila Nova de Milfontes, os natais em casa dos meus pais em Évora, os aniversários das crianças. Tudo parecia uma mentira agora.
No dia seguinte, acordei com o som dos passarinhos e o sol a entrar pela janela. O meu filho mais novo, Tomás, entrou na sala de pijama, esfregando os olhos.
— Mãe, onde está o pai?
Engoli em seco. — O pai foi viajar, querido. Vai demorar uns dias.
Ele assentiu, inocente. Mas a minha filha mais velha, Inês, já tinha percebido tudo. Aos dezasseis anos, era madura demais para a idade.
— Ele foi-se embora por causa daquela mulher do escritório, não foi? — perguntou ela à noite, quando me encontrou a chorar na casa de banho.
Fiquei sem palavras. Ela abraçou-me com força e chorámos juntas.
Os dias seguintes foram um turbilhão de telefonemas da família. A minha irmã Joana apareceu em casa com bolos e conselhos práticos:
— Teresa, tens de ser forte pelos miúdos. Não deixes que ele te veja assim.
Mas como ser forte quando tudo à minha volta desabava? O meu pai recusava-se a falar do assunto. “Estas coisas não aconteciam no meu tempo”, resmungava ele ao telefone.
No trabalho, tentei manter a compostura. Os colegas cochichavam nos corredores da escola primária onde dou aulas. A directora chamou-me ao gabinete:
— Teresa, se precisares de uns dias…
— Não, obrigada. Preciso de rotina — respondi, agarrando-me ao pouco controlo que ainda sentia ter sobre a minha vida.
As noites eram as piores. O silêncio da casa parecia gritar comigo. Comecei a escrever num caderno velho para não enlouquecer:
“Como é possível amar alguém durante metade da vida e de repente sentir-se uma estranha?”
Aos poucos, fui percebendo que não estava sozinha. Outras mães da escola começaram a partilhar as suas histórias comigo nos portões:
— O meu marido também me deixou por outra — confessou a Ana Margarida um dia. — Achei que ia morrer de dor… mas sobrevivi.
Essas conversas deram-me esperança. Comecei a sair mais com as crianças: passeios ao parque, idas à praia mesmo no inverno. Inês tornou-se o meu braço direito em casa; Tomás fazia-me rir com as suas piadas disparatadas.
Um dia, recebi uma mensagem de Rui: “Podemos falar?”
O coração disparou-me no peito. Encontrámo-nos num café discreto da vila. Ele parecia mais velho, cansado.
— Teresa… desculpa tudo isto. Eu… não sei se fiz bem.
Olhei-o nos olhos pela primeira vez desde aquela noite fatídica.
— Rui, tu escolheste este caminho. Agora tens de viver com as consequências.
Ele baixou a cabeça. — Sinto falta dos miúdos…
— Eles também sentem tua falta. Mas não posso proteger-te das tuas escolhas.
Saí daquele café mais leve. Pela primeira vez em meses senti que estava a recuperar o controlo da minha vida.
A minha mãe veio passar uns dias comigo. Sentámo-nos à mesa da cozinha enquanto ela descascava batatas para o jantar.
— Filha, às vezes é preciso perder tudo para percebermos quem somos realmente — disse ela com ternura.
Chorei no colo dela como uma criança pequena. Ela acariciou-me o cabelo e prometeu que tudo ia ficar bem.
O tempo passou devagar mas passou. Comecei a investir em mim: voltei a pintar quadros como fazia antes de casar; inscrevi-me num curso de cerâmica na biblioteca municipal; fiz novas amigas.
Um dia, ao arrumar o sótão, encontrei uma caixa cheia de cartas antigas que eu e Rui trocávamos quando éramos namorados. Li-as todas entre lágrimas e sorrisos amargos. Percebi que aquela Teresa já não existia — mas talvez isso não fosse mau.
O divórcio foi difícil e doloroso. Houve discussões sobre dinheiro, sobre quem ficava com o carro ou com o cão do Tomás. Mas no fim conseguimos chegar a um acordo civilizado pelo bem dos nossos filhos.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente ao espelho: mais forte, mais independente e menos ingénua. Ainda dói ver Rui com outra mulher na vila — mas já não sinto raiva nem inveja.
A Inês vai entrar para a universidade em Lisboa no próximo ano; o Tomás joga futebol no clube local e diz que quer ser treinador quando crescer. Eu continuo a dar aulas e a pintar nas horas vagas.
Às vezes pergunto-me: teria sido possível salvar o nosso casamento se tivéssemos falado mais cedo? Ou será que certas coisas estão mesmo destinadas a acabar?
E vocês? Acham que é possível perdoar uma traição? Ou há feridas que nunca saram?