Mudámos as fechaduras para a minha sogra não entrar em casa – como os sonhos de uma pessoa podem destruir uma família

— Não entras mais aqui, mãe! — gritou o Rui, com a voz embargada, enquanto eu, de mãos trémulas, segurava a nova chave da porta. O eco das palavras dele ainda ressoava na sala, misturando-se com o cheiro a café frio e o silêncio pesado que se instalou depois de mudarmos as fechaduras.

Nunca pensei que a minha vida chegasse a este ponto. Quando conheci o Rui, há oito anos, ele era um rapaz simples, trabalhador, com um sorriso tímido e um olhar que me fazia sentir segura. Apaixonámo-nos devagar, entre passeios à beira-rio em Coimbra e tardes de conversa no Jardim da Sereia. Mas havia sempre uma sombra: a dona Teresa, a mãe dele, que me olhava como quem avalia um produto no supermercado.

— A Andreia é boa rapariga, mas… — ouvi-a dizer à vizinha, no dia em que fui apresentada à família. — O Rui merecia alguém melhor, alguém com mais ambição. Uma médica, uma advogada…

Eu era professora primária. Orgulhava-me do meu trabalho, mas para ela nunca seria suficiente. O Rui tentava defender-me:

— Mãe, a Andreia faz-me feliz. Não é isso que importa?

Ela suspirava, virava costas e continuava a planear o futuro do filho como se eu fosse um obstáculo temporário. No início, tentei conquistar-lhe o coração: levava-lhe bolos caseiros, ajudava-a com as compras, ouvia as histórias do passado. Mas nada resultava. Sempre que eu entrava na casa dela, sentia-me uma intrusa.

Quando casámos, pensei que as coisas iam melhorar. Mudámo-nos para um pequeno apartamento em Santa Clara, modesto mas nosso. A dona Teresa começou a aparecer sem avisar: às vezes de manhã cedo, outras vezes ao fim da tarde. Trazia sacos de compras, criticava a arrumação da casa, apontava defeitos na minha comida.

— O Rui gosta do arroz mais solto — dizia ela, empurrando o prato para o lado.

O Rui tentava apaziguar:

— Mãe, deixa a Andreia em paz. Cada um tem o seu jeito.

Mas ela não desistia. Um dia encontrei-a no nosso quarto, a remexer nas gavetas.

— O que está a fazer? — perguntei, tentando controlar o tremor na voz.

— Só queria ver se precisavam de alguma coisa — respondeu ela, como se fosse normal invadir a nossa privacidade.

A gota de água foi quando engravidei do nosso primeiro filho. Em vez de alegria, senti medo: medo das críticas dela, medo de não ser suficiente aos olhos daquela mulher que nunca me aceitou. Durante a gravidez, ela aumentou as visitas e as exigências.

— O meu neto vai precisar do melhor — dizia ela. — Já pensaram em mudar para um bairro melhor? Conheço um apartamento em Celas…

O Rui começou a afastar-se de mim. As discussões tornaram-se frequentes. Ele estava dividido entre mim e a mãe.

— Não percebes que ela só quer ajudar? — gritava ele.

— Não é ajuda! É controlo! — respondia eu, com lágrimas nos olhos.

O nascimento do Tiago trouxe alguma paz temporária. A dona Teresa parecia encantada com o neto e durante uns meses limitou-se a visitas rápidas. Mas depressa voltou ao mesmo: criticava as minhas escolhas como mãe, dizia que eu não sabia dar banho ao bebé, que devia amamentar mais tempo.

Um dia cheguei a casa e encontrei-a sozinha com o Tiago. Tinha ido buscá-lo à creche sem me avisar.

— Não podes fazer isto! — gritei.

Ela encolheu os ombros:

— Sou avó. Tenho direito.

O Rui ficou do lado dela:

— Ela só quer ajudar…

Senti-me sozinha na minha própria casa. Comecei a evitar sair de casa com medo de voltar e encontrá-la lá dentro. O Rui recusava-se a confrontá-la verdadeiramente. As noites tornaram-se longas e frias; dormíamos costas voltadas.

A situação tornou-se insustentável quando descobri que ela tinha uma chave da nossa casa — o Rui dera-lha sem me dizer nada. Senti-me traída por ele e invadida por ela.

— Ou mudas as fechaduras ou eu vou-me embora! — disse-lhe numa noite de tempestade.

Ele hesitou, mas viu nos meus olhos que não havia volta a dar. No dia seguinte mudámos as fechaduras juntos. Quando a dona Teresa apareceu e tentou entrar, encontrou a porta trancada e bateu furiosamente.

— Como é possível? Sou vossa família! — gritava do outro lado da porta.

O Tiago chorava no meu colo; o Rui tremia ao meu lado. Nunca vi tanta dor nos olhos dele.

Durante semanas não falámos com ela. O Rui ficou deprimido; eu sentia-me culpada mas aliviada ao mesmo tempo. A família dele virou-se contra mim: cunhados deixaram de falar comigo, sogros espalharam boatos no bairro.

A solidão tornou-se insuportável. O Rui começou a chegar tarde a casa; evitava olhar-me nos olhos. Um dia explodiu:

— Destruíste a minha família!

Chorei até adormecer nessa noite. Pensei em ir embora com o Tiago, recomeçar noutro lugar onde ninguém me conhecesse nem julgasse. Mas não consegui abandonar tudo aquilo por que lutei.

Hoje olho para trás e pergunto-me: teria sido diferente se eu tivesse cedido mais? Ou se o Rui tivesse tido coragem de pôr limites desde o início? Será possível reconstruir uma família depois de tantas feridas?

Às vezes vejo o Tiago brincar sozinho e pergunto-me se ele vai crescer sem avós, sem tios, sem primos… Tudo por causa dos sonhos de uma pessoa que nunca me aceitou como sou.

E vocês? Acham que há volta depois de tanto sofrimento? Como se repara uma família partida por expectativas alheias?