No Dia do Meu Casamento, Encontrei a Paz Que Sempre Procurei

— Não vou permitir que ela entre nesta casa! — gritou a minha mãe, com os olhos marejados de lágrimas e raiva, enquanto eu segurava o bouquet com as mãos trémulas. O vestido branco parecia pesar toneladas sobre os meus ombros. O relógio marcava onze da manhã, e faltavam apenas duas horas para o início da cerimónia.

A minha irmã, Inês, estava encostada à porta da sala, braços cruzados, tentando esconder o nervosismo. Ela e a minha mãe não se falavam há meses, desde aquela discussão sobre a herança do avô. E agora, no dia do meu casamento, tudo vinha ao de cima como uma onda impossível de travar.

— Mãe, por favor… — tentei intervir, mas a voz saiu-me fraca, quase um sussurro. — Hoje é o meu dia. Não podemos deixar isto estragar tudo.

A minha mãe virou-se para mim, olhos vermelhos, e disse:

— Não percebes? Ela traiu-nos! Não quero saber se é teu casamento ou não!

Senti o coração apertar-se no peito. O meu pai estava calado, sentado no sofá, olhando para o chão como se procurasse respostas nas linhas do tapete. O silêncio dele era ensurdecedor.

De repente, ouvi o som do telemóvel a vibrar na mesa. Era o Miguel, o meu noivo.

— Amor, está tudo bem? — perguntou ele, com aquela voz calma que sempre me fazia sentir segura.

— Não… — respondi, tentando conter as lágrimas. — A mãe e a Inês… estão a discutir outra vez. Não sei se consigo…

— Olha para mim — disse ele, mesmo sem me ver. — Respira fundo. Lembra-te do que acreditamos. Deus está connosco hoje. Não deixes que nada te roube esta alegria.

Desliguei o telefone e sentei-me na cama do meu quarto de infância. Olhei à volta: as fotografias antigas na parede, os livros da catequese na estante, o terço da minha avó pendurado na cabeceira. Senti uma saudade imensa dos tempos em que tudo era mais simples.

Fechei os olhos e comecei a rezar baixinho:

— Senhor, dá-me força para perdoar e para unir a minha família neste dia. Não deixes que o rancor vença o amor.

Enquanto rezava, ouvi passos suaves atrás de mim. Era a Inês.

— Desculpa — murmurou ela, sentando-se ao meu lado. — Sei que devia ter tentado resolver isto antes… Mas não consigo falar com a mãe sem acabar tudo em gritos.

Olhei para ela e vi nos seus olhos a mesma dor que sentia no peito. Abracei-a com força.

— Hoje não é sobre o passado — disse-lhe. — É sobre começarmos algo novo. Preciso de ti ao meu lado no altar.

Ela assentiu, limpando uma lágrima teimosa.

O tempo parecia correr mais depressa do que nunca. As madrinhas entravam e saíam do quarto, trazendo maquilhagem, sapatos, conselhos apressados. Mas eu só conseguia pensar na minha mãe e naquela nuvem negra que pairava sobre nós.

Quando finalmente chegou a hora de sair para a igreja, hesitei à porta da sala. A minha mãe estava lá, ainda de rosto fechado.

— Mãe… — comecei, mas ela interrompeu-me:

— Tu mereces ser feliz. Só não sei se consigo perdoar a tua irmã.

Aproximei-me dela e peguei-lhe nas mãos.

— Então faz isso por mim. Pelo menos hoje. Amanhã podemos voltar a discutir, se for preciso. Mas hoje… só hoje… sê minha mãe como sempre foste.

Ela olhou-me nos olhos durante longos segundos. Depois suspirou e puxou-me para um abraço apertado.

— Amo-te tanto, filha…

Saímos de casa juntas. O caminho até à igreja foi feito em silêncio, mas um silêncio diferente: pesado de emoções por resolver, mas também cheio de esperança.

Quando entrei na igreja ao som do órgão, vi o Miguel à minha espera no altar, sorriso nervoso mas cheio de amor. Vi também a Inês ao meu lado, e a minha mãe sentada na primeira fila — olhos vermelhos mas cabeça erguida.

Durante a cerimónia, o padre falou sobre perdão e união familiar. Senti cada palavra como se fosse dirigida só a nós.

No momento dos votos, olhei para Miguel e disse:

— Prometo amar-te nos dias bons e maus, confiar em Deus quando tudo parecer perdido e nunca deixar que o rancor vença o amor.

Ele sorriu e apertou-me as mãos com força.

No final da missa, enquanto todos nos cumprimentavam e lançavam arroz à saída da igreja, vi a minha mãe aproximar-se da Inês. Por um instante temi outro confronto… mas ela abraçou-a em silêncio. As lágrimas correram pelas faces das duas.

O resto do dia foi uma celebração verdadeira: dançámos até de madrugada, rimos como há muito não ríamos e senti finalmente uma paz profunda dentro de mim.

À noite, já sozinha com Miguel no quarto do hotel, olhei para trás e pensei em tudo o que tinha acontecido naquele dia.

Será que é preciso chegar ao limite para percebermos o valor do perdão? Quantas famílias vivem presas ao passado quando poderiam encontrar paz na fé e no amor?

E vocês? Já sentiram que só a oração vos deu forças para ultrapassar um momento impossível?