O Meu Filho Quer Casar com a Vizinha – O Drama de uma Mãe Portuguesa
— Mãe, preciso falar contigo. — A voz do Miguel ecoou pela cozinha, carregada de uma ansiedade que me gelou o sangue. Era domingo, o cheiro do café misturava-se com o aroma das torradas, mas naquele instante tudo perdeu o sabor.
Olhei para ele, tentando decifrar-lhe o rosto. Os olhos castanhos, tão parecidos com os meus, estavam inquietos. Sentei-me à mesa, limpando as mãos ao avental.
— Diz lá, filho. — Tentei sorrir, mas a minha voz saiu trémula.
Ele respirou fundo. — Vou casar com a Inês.
O mundo parou. Senti um aperto no peito, como se me faltasse o ar. A Inês? A vizinha do terceiro esquerdo? Aquela rapariga que sempre me pareceu demasiado impulsiva, demasiado livre para o meu gosto? Não consegui responder. Apenas fiquei ali, a olhar para ele, enquanto o silêncio se tornava insuportável.
Miguel continuou: — Eu amo-a, mãe. Sei que não gostas muito dela, mas peço-te… tenta aceitar.
As palavras dele ecoaram na minha cabeça durante dias. Fui para o trabalho — sou professora numa escola primária em Almada — e não consegui concentrar-me nos meninos nem nas tarefas. As colegas repararam no meu ar ausente.
— Está tudo bem contigo, Teresa? — perguntou a Ana, minha amiga de longa data.
— O Miguel vai casar… com a Inês. — Disse isto como quem confessa um crime.
A Ana sorriu. — Olha que ela parece boa rapariga.
Mas eu não conseguia ver nada de bom naquela relação. Lembrei-me de todas as vezes que vi a Inês chegar tarde a casa, rir alto nas escadas, vestir-se de forma ousada. E eu, que sempre tentei educar o Miguel para ser responsável e ponderado, via agora o meu esforço ameaçado por alguém que me parecia tão diferente dos nossos valores.
Em casa, os dias tornaram-se pesados. O Miguel evitava-me. Eu tentava puxar conversa ao jantar, mas ele respondia com monossílabos. Uma noite, não aguentei mais.
— Achas mesmo que ela é a pessoa certa para ti? — perguntei-lhe, baixinho.
Ele largou os talheres e olhou-me nos olhos. — Mãe, tu nunca gostaste de nenhuma das minhas namoradas. Mas eu já tenho trinta anos! Preciso que confies em mim.
Senti-me pequena. Lembrei-me de quando ele era bebé e eu passava noites em claro só para ter a certeza de que respirava bem. De todas as vezes que lhe limpei as lágrimas ou lhe contei histórias para adormecer. Agora era um homem feito e eu não sabia como protegê-lo.
A notícia espalhou-se pelo prédio como fogo em palha seca. A Dona Rosa, do rés-do-chão, não perdeu tempo:
— Então o seu Miguel vai casar com a Inês? Aquela rapariga é muito moderna…
Senti-me julgada por todos. Até o meu irmão António ligou de Braga:
— Teresa, deixa o rapaz viver a vida dele! Não podes controlar tudo.
Mas como podia eu aceitar aquilo? O pai do Miguel tinha-nos deixado quando ele era pequeno. Fui mãe e pai ao mesmo tempo. Sacrifiquei tudo por ele: os meus sonhos, os meus amores, até a minha saúde. E agora sentia-o a escapar-me por entre os dedos.
Comecei a observar a Inês com outros olhos. Via-a no elevador, sempre sorridente, cumprimentando toda a gente. Um dia cruzei-me com ela no supermercado.
— Olá, Dona Teresa! Precisa de ajuda com as compras?
Recusei educadamente, mas reparei na sinceridade do gesto. Talvez estivesse errada sobre ela…
Nessa noite sonhei com o Miguel em criança, a correr pelo parque da cidade. Acordei com lágrimas nos olhos e uma sensação de vazio.
Os preparativos para o casamento avançavam sem mim. O Miguel deixou de me contar detalhes; era a Inês quem vinha buscar as cartas do correio ou pedir açúcar emprestado. Senti-me excluída da vida do meu próprio filho.
Um sábado à tarde ouvi vozes alteradas no corredor. Abri a porta devagar e vi o Miguel e a Inês a discutir:
— Não percebes? A tua mãe nunca vai gostar de mim! — gritava ela.
— Dá-lhe tempo! — respondeu ele, desesperado.
Fechei a porta devagar e encostei-me à parede. Senti uma culpa esmagadora. Estaria eu a destruir a felicidade do meu filho?
Na semana seguinte fui chamada à escola porque uma das minhas alunas tinha problemas em casa. Enquanto falava com a mãe da menina, percebi que todas as famílias têm conflitos e dores escondidas. Ninguém é perfeito.
Voltei para casa determinada a tentar mudar alguma coisa. Convidei o Miguel e a Inês para jantar.
A mesa estava posta com o melhor serviço de porcelana. Fiz bacalhau à Brás — o prato preferido do Miguel desde pequeno.
Durante o jantar tentei ouvir mais do que falar. A Inês contou histórias da infância em Évora, falou dos pais separados e das dificuldades que passou na faculdade.
— Sempre quis ter uma família unida — disse ela, com os olhos marejados.
Nesse momento vi nela uma fragilidade que nunca tinha notado antes. Talvez fosse isso que unia os dois: ambos tinham crescido sem um pai presente.
Depois do jantar, enquanto lavávamos os pratos juntas, arrisquei:
— Inês… desculpa se fui dura contigo. Só quero o melhor para o Miguel.
Ela sorriu timidamente: — Eu sei, Dona Teresa. Também quero fazê-lo feliz.
Naquela noite não dormi bem. O medo de perder o Miguel misturava-se com uma nova esperança: talvez pudesse ganhar uma filha.
O casamento foi simples mas bonito, na pequena igreja do bairro. Chorei durante toda a cerimónia — lágrimas de tristeza e alegria misturadas.
Hoje olho para trás e vejo como fui egoísta ao tentar controlar a vida do meu filho. Mas também sei que tudo fiz por amor.
Agora pergunto-me: será possível amar tanto alguém ao ponto de quase sufocá-lo? E vocês, já sentiram este medo de perder quem mais amam?