Desmaiei à Frente de Toda a Família Porque o Meu Marido Me Deixou Sozinha com o Nosso Filho – Será Este o Fim do Nosso Casamento?

— Mariana, podes tratar do Martim enquanto eu vou ali fumar um cigarro? — A voz do Rui soou seca, quase automática, como se cuidar do nosso filho fosse apenas mais uma tarefa da lista de supermercado.

Olhei para ele, com as olheiras fundas e o cabelo preso à pressa, e só consegui acenar com a cabeça. O Martim chorava no meu colo, inquieto com o barulho da sala cheia. Era o aniversário da minha sogra, e a casa estava repleta de familiares: tios, primos, cunhados, todos a rir alto, a discutir futebol e política como se nada mais importasse. Só eu parecia deslocada, como uma peça trocada num puzzle antigo.

Senti o suor frio a escorrer-me pelas costas enquanto embalava o Martim. Ele tinha apenas oito meses, e desde que nasceu que sinto que carrego o mundo às costas. O Rui trabalha muito, é verdade, mas quando chega a casa parece que desliga. Não há perguntas sobre o meu dia, não há partilha de tarefas. Só há silêncio e um telemóvel sempre na mão.

— Mariana, não queres sentar-te? — perguntou a minha cunhada Joana, sorrindo com simpatia.

— Não posso, o Martim está muito agitado… — respondi, tentando disfarçar a exaustão.

Ela olhou para mim com pena. Odeio aquele olhar. Odeio sentir-me fraca. Mas naquele momento já não conseguia esconder: as pernas tremiam-me e o coração batia descompassado. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia não chegar aos pulmões.

— Mariana? Estás bem? — ouvi a voz da minha sogra ao longe, como se estivesse debaixo de água.

O mundo rodou à minha volta. Senti os braços a fraquejar e o Martim escorregar-me das mãos. Depois, só escuridão.

Quando abri os olhos, estava deitada no sofá da sala. A família toda em redor, rostos preocupados e vozes sussurradas.

— Mariana, ouves-me? — era o Rui, finalmente ao meu lado, mas com aquele olhar distante que me magoa mais do que qualquer palavra.

— O que aconteceu? — perguntei, confusa.

— Desmaiaste. Estavas pálida como a cal. O Martim está bem, não te preocupes — disse a Joana, segurando-me na mão.

Senti as lágrimas a subir-me aos olhos. Não era só cansaço físico. Era tudo: noites sem dormir, dias sem descanso, a solidão de quem cuida sem ser cuidada. Olhei para o Rui à espera de um gesto de carinho, uma palavra de apoio. Mas ele limitou-se a encolher os ombros.

— Mariana, tens de te alimentar melhor — disse ele, como se tudo se resumisse a uma questão de vitaminas.

A raiva subiu-me à garganta. Quis gritar-lhe que não era só isso. Que precisava dele presente, não só fisicamente mas emocionalmente. Que me sentia invisível na própria vida.

— Preciso de ajuda, Rui — sussurrei, baixinho para não dar espetáculo à família inteira.

Ele olhou para mim como quem não percebeu. Ou talvez não quisesse perceber.

O resto da tarde passou-se num nevoeiro. Todos me diziam para descansar, para comer qualquer coisa doce. Mas ninguém perguntava como eu estava realmente. Ninguém via as noites em claro, os medos, as dúvidas que me corroíam por dentro.

Quando finalmente chegámos a casa, já com o Martim adormecido no ovo do carro, sentei-me na cama e chorei em silêncio. O Rui foi tomar banho sem dizer uma palavra.

No dia seguinte acordei com uma mensagem da minha mãe: “Filha, ouvi dizer que te sentiste mal ontem. Precisas de alguma coisa?”

Respondi que estava tudo bem. Não queria preocupar ninguém. Mas dentro de mim crescia uma revolta surda.

Durante dias tentei falar com o Rui sobre o que sentia. Ele fugia sempre ao assunto:

— Mariana, agora não posso falar disso. Estou cansado do trabalho.
— Mariana, estás sempre a reclamar…
— Mariana, todas as mulheres passam por isso…

Essas frases eram facas afiadas no meu peito. Será que todas as mulheres passam mesmo por isto? Será que todas se sentem tão sozinhas?

Comecei a evitar os jantares de família. Não queria ouvir conselhos vazios nem olhares de pena. A minha sogra ligava-me todos os dias:

— Mariana, tens de ser forte pelo Martim…

Mas quem é forte por mim?

Uma noite, depois de adormecer o Martim pela terceira vez seguida porque ele acordava sempre a chorar, sentei-me na sala às escuras. O Rui estava no quarto a ver vídeos no telemóvel. Senti-me tão pequena naquele momento…

Peguei num caderno e comecei a escrever tudo o que sentia: medo de falhar como mãe, raiva por estar sozinha num casamento a dois, tristeza por já não reconhecer quem era antes do Martim nascer.

No dia seguinte deixei o caderno aberto em cima da mesa da cozinha. Queria que o Rui lesse. Queria que percebesse que estava à beira do abismo.

Quando cheguei do supermercado com o Martim ao colo e sacos nas mãos (mais uma vez sozinha), vi o caderno fechado no mesmo sítio. Intocado.

Foi nesse momento que percebi: talvez ele nunca vá perceber. Talvez esteja tão preso ao seu próprio mundo que não veja o meu desmoronar-se.

Nessa noite enfrentei-o:

— Rui, precisamos de falar seriamente sobre nós. Eu não aguento mais assim.

Ele suspirou alto:

— Mariana, agora não é altura para dramas…

Senti um nó na garganta.

— Não é drama quando uma pessoa desmaia à frente da família inteira porque está exausta e sozinha! Não é drama quando choro todos os dias sem saber porquê! Preciso de ti! Preciso que estejas aqui!

Ele ficou em silêncio durante uns segundos eternos.

— Eu também estou cansado… — murmurou finalmente.

— Mas tu podes desligar quando chegas a casa! Eu nunca desligo! Eu sou mãe 24 horas por dia! — gritei-lhe já sem filtros.

O Martim começou a chorar no quarto e fui buscá-lo ao colo. Sentei-me na cama com ele e deixei as lágrimas caírem-lhe nos cabelos finos.

O Rui ficou parado à porta do quarto sem saber o que fazer.

Naquela noite dormimos costas voltadas.

Os dias seguintes foram um arrastar penoso de silêncios e pequenas discussões sobre coisas insignificantes: quem compra pão, quem põe a máquina da roupa a lavar… Tudo servia para evitar falar do essencial.

Uma tarde recebi uma mensagem da Joana:
“Mariana, se precisares de conversar estou aqui para ti. Não tens de passar por isto sozinha.”

Pela primeira vez em muito tempo senti um fio de esperança. Liguei-lhe e desabafei tudo: o medo de perder-me neste papel de mãe-esposa-mulher invisível; a raiva por sentir que ninguém via o meu esforço; a dúvida se ainda valia a pena lutar pelo casamento ou se era altura de pensar em mim.

A Joana ouviu-me sem julgar:
— Mariana, tu mereces ser feliz também. Não te esqueças disso nunca.

As palavras dela ficaram-me na cabeça durante dias. Comecei a sair mais com o Martim: passeios no parque, cafés com amigas antigas… Aos poucos fui recuperando pedaços de mim mesma.

O Rui notou a diferença:
— Tens andado diferente…
— Tenho tentado cuidar mais de mim — respondi sem medo.

Ele pareceu incomodado:
— E eu? Onde fico eu no meio disso?

Olhei para ele com tristeza:
— Sempre estiveste no centro de tudo… Agora chegou a minha vez.

Não sei se o nosso casamento tem salvação. Não sei se ele vai mudar ou se eu vou conseguir perdoar esta ausência tão funda. Mas sei que já não quero ser invisível na minha própria vida.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres estarão agora mesmo sentadas às escuras numa sala qualquer em Portugal, sentindo-se tão sozinhas quanto eu? Será que vale sempre a pena lutar por um casamento ou chega um momento em que temos mesmo de lutar por nós próprias?