Quando a Dor Não Passa: O Meu Mundo Depois da Traição do Miguel
— Leonor, precisamos de falar. — A voz do Miguel ecoou pela cozinha, rouca, quase irreconhecível. Eu estava a preparar o jantar, as mãos trémulas sobre a tábua de cortar, quando percebi que algo estava errado. O cheiro do refogado misturava-se com o medo que me subia à garganta.
Olhei para ele, tentando decifrar-lhe o rosto. Havia ali uma sombra que nunca tinha visto antes. — O que foi agora, Miguel? — perguntei, tentando soar firme, mas a minha voz vacilou.
Ele baixou os olhos. — Eu… Eu cometi um erro. Um erro grave.
O tempo parou. Senti o coração a bater tão forte que temi que ele ouvisse. — Que erro? — insisti, já sabendo que nada de bom viria dali.
— Estive com outra pessoa. Não foi só uma vez… E ela está grávida. — As palavras caíram como pedras, pesadas, irreversíveis.
Por um momento, não consegui respirar. O mundo à minha volta desfez-se em pedaços minúsculos. O barulho da rua, o cheiro da comida, tudo desapareceu. Só restava aquela frase a ecoar na minha cabeça: “ela está grávida”.
— Não pode ser… — murmurei, agarrando-me à bancada para não cair.
Miguel aproximou-se, mas recuei instintivamente. — Leonor, desculpa… Eu não queria magoar-te. Juro que foi um erro, eu amo-te…
— Ama-me? — gritei, sentindo as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. — Como é que alguém que ama faz isto? Como é que tu… — A voz falhou-me. Sentei-me à mesa, as mãos a tremer.
O silêncio instalou-se entre nós, pesado e sufocante. Lembrei-me dos nossos filhos a brincar no quarto ao lado, inocentes, alheios ao abismo que se abria sob os pés dos pais.
Os dias seguintes foram um nevoeiro denso. Miguel dormiu no sofá. Eu evitava-o, mas as perguntas não me largavam: Como é que não percebi? Onde falhei? E agora?
A minha mãe foi a primeira pessoa a quem contei. Liguei-lhe num pranto, incapaz de articular frases completas.
— Filha, tens de ser forte — disse ela, com aquela voz firme de quem já viu demasiado na vida. — Mas não deixes que te pisem. Pensa em ti e nos teus filhos.
A família do Miguel soube pouco depois. A mãe dele ligou-me a chorar, pedindo desculpa por um filho que já não reconhecia.
— Ele está perdido, Leonor… Mas tu sempre foste o pilar desta família.
Pilar? Senti-me tudo menos isso. Senti-me traída, humilhada, vazia.
Miguel tentou redimir-se. Levava os miúdos à escola, fazia o jantar, enchia-me de mensagens e flores. Mas cada gesto dele era um lembrete daquilo que tinha destruído.
O pior veio meses depois, quando nasceu o bebé da outra mulher — a Inês. De repente, havia uma criança no mundo que era metade dele e metade de alguém que eu nunca quis conhecer.
— Quero assumir o meu filho — disse Miguel numa noite fria de janeiro. — Ele não tem culpa do que aconteceu.
— E nós? Os teus filhos? Eu? — perguntei-lhe, sentindo o peito apertado.
— Eu amo-vos a todos… — respondeu ele, mas eu já não acreditava.
As discussões tornaram-se rotina. Os meus filhos começaram a perguntar porque é que o pai estava sempre triste. A minha filha mais velha ouviu uma conversa e chorou durante dias.
— A mãe vai deixar-nos? — perguntou-me ela uma noite.
Abracei-a com força. — Nunca vos vou deixar. Mas às vezes as pessoas magoam-se umas às outras…
A Inês apareceu à porta um dia para falar comigo. Trazia o bebé ao colo e um olhar cansado.
— Leonor… Eu não vim aqui para te roubar nada. Só quero que o meu filho conheça o pai dele.
Olhei para ela e vi uma mulher tão perdida quanto eu. Não havia vilões nesta história; só vítimas de escolhas erradas.
Os meus pais queriam que eu me separasse. Os amigos dividiam-se entre conselhos práticos e frases feitas sobre perdão.
— Perdoa-o se conseguires — disse-me a minha melhor amiga, Sofia. — Mas não te percas a ti própria no processo.
Tentei perdoar. Fui à terapia de casal com o Miguel. Chorámos juntos, gritámos juntos. Houve noites em que quase acreditei que podíamos reconstruir tudo do zero.
Mas cada vez que via aquele bebé nos braços dele, sentia uma dor impossível de explicar. Era como se alguém me arrancasse um pedaço do coração e mo mostrasse todos os dias.
A rotina tornou-se insuportável: jantares em silêncio, olhares fugidios, telefonemas escondidos para a Inês sobre consultas e vacinas.
Um dia acordei e percebi que já não era feliz há muito tempo. Que estava a viver numa prisão feita de memórias e promessas quebradas.
Chamei o Miguel à sala e disse-lhe:
— Não consigo mais. Perdoei-te tudo o que pude, mas perdi-me pelo caminho. Preciso de me reencontrar longe disto tudo.
Ele chorou como nunca o tinha visto chorar antes. Pediu-me para ficar, prometeu mundos e fundos. Mas eu sabia que já não havia volta atrás.
Arrumei as minhas coisas e fui para casa dos meus pais com os miúdos durante uns tempos. O vazio era imenso, mas pela primeira vez em muito tempo senti paz.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente no espelho: mais forte, mais dura talvez, mas também mais livre.
Às vezes pergunto-me: será possível amar alguém depois de tanta dor? Ou há feridas que nunca saram? E vocês… até onde iriam por amor?