O Testamento Escondido: O Desabafo de uma Filha Esquecida

— Não pode ser… Isto não pode ser verdade! — sussurrei, com as mãos a tremer enquanto segurava aquele papel amarelado, escondido no fundo da gaveta do velho aparador da sala. O testamento da minha mãe. O nome dela, Maria do Carmo, escrito com aquela caligrafia firme que sempre admirei. Mas o meu nome… o meu nome não estava lá. Nem uma linha, nem uma lembrança, nem um objeto deixado para mim. Apenas para o meu irmão, o António, e para a minha tia Leonor. Senti o chão fugir-me dos pés.

O relógio da parede marcava quase meia-noite. A casa estava mergulhada num silêncio pesado, interrompido apenas pelo tic-tac insistente. O António estava na cozinha, a beber um copo de vinho, como fazia todas as noites desde que a mãe morreu. Entrei devagar, ainda com o papel na mão.

— António… — a minha voz saiu rouca, quase inaudível.

Ele olhou para mim, olhos vermelhos de cansaço ou talvez de culpa. — Que foi agora, Mariana?

— Encontrei isto… — estendi-lhe o testamento. Ele ficou pálido.

— Não era para mexeres nas coisas da mãe…

— Não era para mexer? António, tu sabias disto? Sabias que ela me deixou de fora? — A minha voz subiu de tom, misturando raiva e incredulidade.

Ele desviou o olhar. — Não sei do que estás a falar.

— Não sabes? Então explica-me! Explica-me porque é que a mãe deixou tudo para ti e para a tia Leonor! Eu sou filha dela também! — As lágrimas começaram a escorrer-me pelo rosto.

O António levantou-se bruscamente, batendo com o copo na mesa. — Não faças cenas, Mariana. Já chega de dramas nesta casa.

— Dramas? Isto é a minha vida! — gritei. — Sempre fui invisível para vocês? Sempre fui menos filha?

Ele saiu da cozinha sem responder. Fiquei ali sozinha, com o testamento na mão e o coração em pedaços.

Naquela noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto do meu quarto de infância, onde ainda estavam coladas as estrelas fosforescentes que a mãe me ajudou a colar quando eu tinha oito anos. Lembrei-me das noites em que ela me embalava quando tinha pesadelos, das vezes em que me defendia dos miúdos maus na escola… Como é que tudo isso podia não contar?

No dia seguinte, fui procurar respostas à única pessoa que talvez soubesse mais do que eu: a tia Leonor. Ela morava no rés-do-chão do prédio ao lado, sempre pronta para dar conselhos não pedidos e bisbilhotar a vida dos outros.

Bati à porta com força. Ela abriu com um sorriso falso.

— Mariana! Que surpresa…

— Preciso de falar consigo. Agora.

Ela fez-me entrar e sentámo-nos na sala cheia de bibelôs e fotografias antigas. Mostrei-lhe o testamento.

— Sabia disto?

Ela suspirou. — Mariana, há coisas que não percebes…

— Então explique-me! Porque é que a minha mãe me deixou de fora? O que é que eu lhe fiz?

A tia Leonor olhou-me nos olhos, hesitante. — A tua mãe… ela sofreu muito antes de tu nasceres. O teu pai… ele traiu-a várias vezes. Tu foste fruto de uma dessas traições.

Senti um murro no estômago. — Está a dizer que eu não sou filha do pai?

Ela abanou a cabeça. — És filha dele, mas… para a tua mãe foi sempre difícil aceitar isso. Ela amava-te, mas havia mágoa. E depois… tu foste sempre mais próxima do teu pai.

As palavras dela ecoaram na minha cabeça como um trovão. Lembrei-me das discussões entre os meus pais, das portas a bater, dos silêncios prolongados à mesa do jantar. Sempre achei que era normal numa família portuguesa como a nossa.

— Mas isso não justifica… — tentei argumentar, mas a voz falhou-me.

A tia Leonor pousou uma mão fria sobre a minha. — Às vezes as pessoas magoam quem mais amam porque não sabem lidar com as próprias dores.

Saí dali ainda mais confusa e magoada. Passei dias sem conseguir olhar para o António ou para qualquer membro da família. Sentia-me traída por todos: pela minha mãe, pelo meu irmão, até pelo meu pai já falecido.

No trabalho, os colegas notaram logo a minha tristeza. A Ana, minha amiga desde os tempos da faculdade, puxou-me para um café depois do expediente.

— Mariana, tens de falar sobre isso. Não podes guardar tudo aí dentro.

Desabafei tudo com ela: o testamento, as palavras da tia Leonor, as memórias confusas da infância.

— E agora? O que vais fazer? Vais contestar o testamento?

Nunca tinha pensado nisso até então. Mas aquela ideia começou a crescer dentro de mim como uma semente amarga.

Voltei a casa e sentei-me à mesa da cozinha com o António.

— Quero falar contigo sobre o testamento.

Ele suspirou. — Mariana, não compliques as coisas…

— Não vou aceitar isto calada! Vou falar com um advogado. Tenho direito à minha parte!

Ele levantou-se furioso. — Só queres saber do dinheiro!

— Não é pelo dinheiro! É pelo respeito! Pela verdade! — gritei-lhe de volta.

A discussão subiu de tom até à vizinha do lado bater à parede para nos mandar calar. No fim, fiquei sozinha outra vez.

Passei semanas entre consultas jurídicas e conversas tensas com familiares distantes. Descobri que legalmente tinha direito à legítima parte da herança, mas o processo seria longo e doloroso.

Durante esse tempo, comecei também a revisitar memórias antigas: as festas de aniversário em família onde me sentia deslocada; os natais em que recebia presentes diferentes dos do António; as vezes em que ouvi conversas sussurradas sobre mim quando pensavam que eu não estava a ouvir.

Um dia encontrei uma carta antiga da minha mãe no fundo de uma caixa de sapatos. Era dirigida a mim:

“Minha querida Mariana,
Se algum dia leres isto, quero que saibas que te amei à minha maneira torta e imperfeita. Sei que falhei contigo muitas vezes e peço-te perdão por isso. Espero que um dia consigas compreender as minhas escolhas e encontrar paz no teu coração.
Com amor,
Mãe”

Chorei como nunca tinha chorado antes. Pela primeira vez percebi que talvez todos estivéssemos presos em dores antigas e mal resolvidas.

No final do processo judicial consegui garantir o meu direito à herança, mas nada disso me trouxe verdadeira satisfação ou paz interior. A relação com o António ficou ainda mais fria; com a tia Leonor nunca mais falei.

Hoje olho para trás e pergunto-me: valeu a pena lutar por justiça quando o preço foi perder ainda mais daquilo que restava da minha família? Será possível perdoar quem nos magoa tão profundamente? Ou será que há feridas que nunca saram?

E vocês? Já sentiram esta sensação de serem traídos por quem mais amam? O que fariam no meu lugar?