Devo mesmo entregar a casa ao meu irmão? Uma história de família que me partiu o coração
— Mariana, precisamos conversar. — A voz da minha mãe tremia do outro lado da linha, e eu soube logo ali que nada de bom viria daquela conversa. Era uma tarde cinzenta de março, e eu estava a preparar o jantar quando o telefone tocou. O cheiro do arroz queimado misturou-se com o frio que me subiu pela espinha.
— O que se passa, mãe? — perguntei, tentando soar calma, mas já sentia o coração a bater mais rápido.
— O teu irmão está com dificuldades. A Andreia deixou-o, sabes? Ele ficou sem casa, Mariana. E… — fez uma pausa longa, como se procurasse coragem — pensei que talvez pudesses ajudá-lo. Talvez… talvez pudesses ceder-lhe o teu apartamento por uns tempos.
Fiquei em silêncio. O meu apartamento. O único espaço que era verdadeiramente meu, conquistado com anos de sacrifício, noites sem dormir e empregos precários. Lembrei-me de todas as vezes em que o meu irmão, Rui, foi salvo pela família. Sempre houve um colchão para ele cair. Para mim, nunca houve redes de segurança.
— Mãe, eu não posso simplesmente sair da minha casa! — A minha voz saiu mais alta do que queria. — O Rui tem trinta e cinco anos! Não pode continuar a viver às custas dos outros!
Do outro lado, ouvi um soluço abafado. — Mariana, por favor… Ele está mesmo mal. Não tem para onde ir. Eu já não aguento mais vê-lo assim.
Desliguei a chamada com as mãos a tremer. Senti-me egoísta, mas também cansada de ser sempre eu a ceder. Liguei para a minha melhor amiga, Sofia.
— Achas que estou a ser má pessoa? — perguntei-lhe, depois de lhe contar tudo.
— Má pessoa? Mariana, tu sempre foste a filha responsável! O Rui sempre foi protegido. Não tens de sacrificar a tua vida por ele outra vez.
Mas as palavras da Sofia não me confortaram. Passei a noite em claro, a olhar para o teto do quarto onde finalmente me sentia em casa.
No dia seguinte, fui almoçar com os meus pais. O Rui estava lá, de olhos vermelhos e barba por fazer. Mal me olhou nos olhos.
— Mariana — começou ele, hesitante — eu sei que não mereço pedir isto… Mas só preciso de um tempo para me reerguer. Prometo que não te vou incomodar muito tempo.
Olhei para ele e vi o rapaz que em criança me fazia rir, mas também o homem que tantas vezes me magoou com as suas escolhas irresponsáveis. Lembrei-me da vez em que pediu dinheiro emprestado e nunca devolveu, da vez em que mentiu à família para encobrir um erro.
— Rui, eu trabalhei tanto para ter este apartamento… Não é justo — disse-lhe, com a voz embargada.
A minha mãe interveio logo:
— Mariana, somos família! Temos de nos ajudar uns aos outros!
O meu pai ficou calado, como sempre fazia quando as coisas ficavam difíceis.
Durante dias vivi num limbo. No trabalho, não conseguia concentrar-me. Os colegas notaram o meu ar ausente.
— Está tudo bem contigo? — perguntou-me o João, do departamento financeiro.
— Só problemas de família — respondi, sem vontade de explicar mais.
À noite, chorava sozinha na cozinha. Sentia-me dividida entre o amor pela família e o respeito por mim mesma. Porque é que era sempre eu a sacrificar tudo?
Uma semana depois, os meus pais apareceram à porta do meu apartamento sem avisar.
— Viemos falar contigo — disse a minha mãe, determinada.
Sentaram-se no sofá e começaram a argumentar:
— O Rui está desesperado! Tu tens estabilidade, Mariana! Ele precisa mais do que tu!
— E eu? Quando é que alguém pensou em mim? — gritei finalmente, incapaz de conter mais a raiva e a tristeza acumuladas ao longo dos anos.
A minha mãe chorava baixinho. O meu pai olhava para o chão.
— Mariana… — tentou ele — somos todos diferentes. O Rui não é tão forte como tu.
Essas palavras magoaram-me mais do que qualquer outra coisa. Porque é que ser forte significava ter de aguentar tudo?
Naquela noite, decidi sair para caminhar pela cidade. Passei pelas ruas onde cresci, lembrei-me das festas de família, dos natais felizes antes das discussões e das mágoas acumuladas. Senti saudades da infância em que éramos só irmãos e não rivais por amor e atenção dos pais.
No regresso a casa encontrei uma mensagem do Rui:
«Desculpa estar a causar-te isto tudo. Se não quiseres ajudar-me, eu percebo.»
Sentei-me no chão da sala e chorei como há muito não chorava. Não era só sobre a casa; era sobre anos de ressentimento, sobre nunca me sentir suficiente para os meus pais porque não precisava deles tanto como o Rui precisava.
No dia seguinte liguei à minha mãe:
— Mãe… Eu vou pensar no assunto. Mas quero que saibas que isto me está a magoar muito.
Ela chorou ao telefone e pediu desculpa por me pôr nesta posição.
Passei semanas a ponderar todas as opções: arrendar um quarto ao Rui em vez de lhe dar o apartamento todo; ajudá-lo financeiramente sem abdicar do meu espaço; ou simplesmente dizer não e lidar com as consequências familiares.
Falei com um psicólogo sobre o peso da culpa e da responsabilidade familiar. Ele disse-me:
— Mariana, às vezes ajudar alguém é também ensinar-lhe a ser responsável pelos próprios erros.
No fim, decidi propor ao Rui que ficasse comigo durante dois meses enquanto procurava outra solução. Não foi fácil: houve discussões sobre tarefas domésticas, sobre horários, sobre privacidade. Mas também houve conversas sinceras como nunca tínhamos tido antes.
Uma noite, depois de uma discussão acesa sobre quem devia lavar a loiça, sentámo-nos à mesa da cozinha em silêncio. O Rui olhou para mim e disse:
— Desculpa por tudo isto. Eu sei que te pus numa posição impossível. Obrigado por não me virares as costas.
Nesse momento percebi que talvez nunca conseguíssemos ser uma família perfeita, mas podíamos tentar ser honestos uns com os outros.
Hoje o Rui já saiu do meu apartamento e está a tentar recomeçar sozinho. Os meus pais ainda acham que fui dura demais; eu acho que finalmente pus limites saudáveis.
Às vezes pergunto-me: será possível amar a família sem nos anularmos? Quantas vezes devemos sacrificar-nos pelos outros antes de dizermos basta?
E vocês? Já passaram por algo assim? Até onde iriam pela vossa família?