A sogra que nunca me aceitou – Um domingo de guerra numa família portuguesa
— Não é assim que se faz o arroz, Mariana! — A voz da Dona Amélia cortou o ar como uma faca afiada. Eu estava de costas para ela, mexendo o tacho com as mãos trémulas, sentindo o suor escorrer pela testa apesar do frio lá fora. Era mais um domingo em casa dos pais do Rui, o meu marido, e eu já sabia que qualquer passo em falso seria motivo para críticas.
— Desculpe, Dona Amélia, pensei que… — tentei justificar-me, mas ela já me interrompia.
— Pensaste mal. Aqui em casa faz-se como eu sempre fiz. — O olhar dela era duro, quase cruel. O Rui estava sentado à mesa com o pai e os irmãos, fingindo não ouvir. A sogra continuou: — Não sei como é na tua casa, mas aqui não se inventa.
Senti o rosto a arder. Desde que casei com o Rui, há três anos, nunca consegui agradar à mãe dele. Tudo o que fazia estava errado: a comida, a forma como arrumava a mesa, até a maneira como falava com ele. Lembro-me do primeiro Natal juntos, quando ofereci um cachecol feito por mim ao sogro. Ela olhou para mim e disse alto:
— Não tinhas dinheiro para comprar um presente decente?
O silêncio caiu sobre a sala. O Rui sorriu amarelo e tentou mudar de assunto. Eu engoli em seco e sorri também, mas por dentro sentia-me cada vez mais pequena.
No início do casamento, achava que era uma questão de tempo até ser aceite. A minha mãe dizia-me sempre: “Tem paciência, filha. As sogras são assim.” Mas a cada domingo, a cada almoço de família, sentia-me mais deslocada. O Rui era o filho mais novo e único rapaz; para Dona Amélia, nenhuma mulher seria suficientemente boa para ele.
Havia dias em que chorava no carro antes de entrar na casa deles. O Rui tentava animar-me:
— Não ligues, Mariana. Ela é assim com toda a gente.
Mas eu sabia que não era verdade. Com as noras das irmãs dele era diferente; com elas ria-se, partilhava receitas, até lhes dava prendas no aniversário. Comigo era só frieza e exigência.
Certa vez, durante um almoço de Páscoa, ela comentou:
— O Rui está mais magro desde que casou contigo. Não lhe dás de comer?
O meu sogro tossiu nervoso. O Rui olhou para mim e depois para o prato. Eu sorri sem vontade e disse:
— Ele é que não gosta muito de doces…
— Pois devia gostar! — cortou ela.
A pressão foi crescendo ao longo dos anos. Comecei a duvidar de mim própria: estaria mesmo a falhar? Não era boa dona de casa? Não era boa esposa? Os meus pais viviam longe, no Alentejo, e só os via nos feriados. Sentia-me sozinha naquela cidade grande onde tudo parecia girar à volta da família do Rui.
O pior foi quando engravidei. Pensei que talvez agora ela me visse como parte da família. Mas foi ainda pior.
— Vais mesmo continuar a trabalhar? — perguntou ela logo na primeira visita depois de saber da gravidez.
— Sim, Dona Amélia. Preciso do meu trabalho…
— No meu tempo as mulheres ficavam em casa com os filhos. — Olhou para mim como se eu fosse uma aberração.
O Rui tentava defender-me:
— Mãe, os tempos mudaram…
— Pois mudaram para pior! — respondeu ela.
Quando nasceu a nossa filha, Sofia, senti uma alegria imensa misturada com medo do que viria a seguir. Nos primeiros meses, Dona Amélia aparecia lá em casa sem avisar:
— Vim ver se está tudo bem com a menina — dizia ela, mas passava horas a apontar defeitos: “O leite não está quente o suficiente”, “A menina devia estar mais agasalhada”, “No meu tempo não havia essas modernices das fraldas descartáveis”.
O Rui começou a ficar cansado das discussões. Às vezes discutíamos à noite:
— Porque é que não tentas ser mais paciente com a minha mãe?
— Porque ela nunca vai gostar de mim! — gritava eu, já sem forças.
Ele calava-se e virava-se para o lado na cama. Eu chorava baixinho para não acordar a Sofia.
A situação piorou quando voltei ao trabalho. Dona Amélia ofereceu-se para ficar com a neta durante o dia. Eu hesitei mas acabei por aceitar — não tínhamos dinheiro para uma creche privada e as públicas tinham lista de espera interminável.
No início parecia correr bem, mas logo começaram as críticas:
— A menina chora muito porque sente falta da mãe — dizia ela ao final do dia.
Eu sentia-me culpada por tudo: por trabalhar, por não ser boa mãe, por não ser boa nora. Comecei a ter ataques de ansiedade; perdi peso; deixei de dormir bem.
Um dia cheguei mais cedo do trabalho e ouvi Dona Amélia ao telefone com uma vizinha:
— Esta geração não sabe cuidar dos filhos nem dos maridos… A Mariana só pensa nela!
Entrei na sala sem fazer barulho e sentei-me no sofá ao lado da Sofia. Quando ela desligou o telefone e me viu ali, ficou vermelha.
— Ouviste alguma coisa? — perguntou seca.
— Ouvi tudo — respondi com voz trémula.
Ela levantou-se e saiu sem dizer mais nada. Chorei durante horas naquele dia.
O Rui tentou falar com ela mas nada mudou. Pelo contrário: começou a evitar vir cá a casa quando eu estava presente; passou a ver menos a neta; dizia que estava cansada ou ocupada.
Senti-me culpada por afastar avó e neta mas também sabia que não podia continuar assim. Comecei a ir à psicóloga; aprendi a impor limites; comecei a dizer “não” sem sentir vergonha.
No último Natal juntos, quando Dona Amélia fez mais um comentário venenoso sobre o meu bolo-rei “moderno demais”, levantei-me da mesa e disse calmamente:
— Dona Amélia, eu faço o melhor que posso pela sua família porque amo o seu filho e a sua neta. Mas não vou permitir mais faltas de respeito.
O silêncio foi absoluto. O Rui olhou para mim com surpresa; os cunhados baixaram os olhos; o sogro sorriu discretamente.
Desde esse dia as coisas mudaram. Não ficaram perfeitas — nunca ficaram — mas aprendi a proteger-me. Passei a visitar menos vezes; deixei de tentar agradar sempre; concentrei-me na minha filha e no meu casamento.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem presas às expectativas das famílias dos outros? Quantas Marianas há em Portugal? Será que algum dia vamos conseguir ser aceites como somos – ou estaremos sempre condenadas a ser as eternas forasteiras?