Mensagens Estranhas no Telemóvel do Meu Marido: Entre a Dúvida e o Perdão
— António, quem é a Teresa? — perguntei, com a voz trémula, segurando o telemóvel dele na mão. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ele olhou para mim, primeiro confuso, depois assustado, como se tivesse sido apanhado num crime.
Nunca pensei que um dia me encontraria nesta situação. Eu, Maria do Carmo, casada há quarenta anos com o António, mãe de dois filhos já adultos, avó de uma neta que é a luz dos meus olhos. Sempre fui daquelas pessoas que acreditam que o amor verdadeiro resiste a tudo. Mas naquele instante, com o telemóvel dele a vibrar na minha mão e o nome “Teresa” a piscar no ecrã, senti o chão fugir-me dos pés.
— Não é nada do que estás a pensar — murmurou ele, desviando o olhar.
— Então explica-me! — insisti, sentindo as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos. — Porque é que uma mulher te manda mensagens às onze da noite? E porque é que apagas as conversas?
O António sempre foi reservado. Trabalhador incansável, reformado há pouco mais de um ano, passava agora os dias entre o café do bairro e as caminhadas pelo parque. Eu achava que conhecia todos os seus segredos. Afinal, partilhámos uma vida inteira: as alegrias do nascimento dos nossos filhos, as dificuldades financeiras quando ele perdeu o emprego nos anos 90, as noites em claro quando a nossa filha mais nova teve pneumonia.
Mas ali estava eu, a tremer por dentro e por fora, perante um estranho.
Ele sentou-se à mesa da cozinha e passou as mãos pelo rosto.
— Maria, por favor… Não compliques. A Teresa é só uma amiga do grupo das caminhadas. Ela perdeu o marido há pouco tempo. Às vezes desabafa comigo…
— E tu apagas as mensagens porquê? — interrompi-o, incapaz de conter a raiva e o medo.
Ele não respondeu. O silêncio dele era como uma faca a cortar-me por dentro.
Naquela noite não dormi. Fiquei deitada na cama, de costas voltadas para ele, a ouvir-lhe a respiração pesada. A minha cabeça era um turbilhão: Será que ele me traiu? Será que alguma vez me amou? Ou será que fui eu que me acomodei à rotina e deixei de ser interessante?
No dia seguinte, tentei agir normalmente. Preparei o pequeno-almoço para nós os dois — torradas com manteiga e café forte — mas mal consegui engolir um pedaço. O António evitava olhar-me nos olhos. O nosso filho mais velho ligou-nos para saber se íamos ao almoço de domingo em casa dele. Disse-lhe que sim, mas por dentro só queria desaparecer.
Durante dias vivi num estado de ansiedade constante. Espreitei-lhe o telemóvel sempre que podia. As mensagens da Teresa continuavam: “Obrigada por ontem”, “Preciso tanto de falar contigo”, “Sinto-me sozinha”. E ele respondia: “Estou aqui para ti”, “Liga-me quando quiseres”.
A minha irmã Ana foi a primeira pessoa a quem contei tudo.
— Maria, tens de falar com ele abertamente — aconselhou-me ela. — Não podes viver assim.
Mas como falar quando tudo dentro de mim gritava? Como confiar outra vez?
Comecei a reparar em pequenas coisas: ele saía mais vezes de casa, estava mais calado, distraído. Uma noite, ouvi-o ao telefone na varanda:
— Teresa, não posso falar agora… Sim… Amanhã no parque…
O meu coração apertou-se. Senti-me ridícula: uma mulher de sessenta anos, ciumenta como uma adolescente.
No domingo fomos ao almoço em casa do nosso filho Miguel. A família toda estava lá: a nora Joana, sempre tão simpática; os netos a correrem pela casa; a nossa filha Rita com o namorado novo. Mas eu sentia-me deslocada, como se estivesse a ver tudo através de um vidro.
A certa altura, Miguel chamou-me à cozinha.
— Mãe, está tudo bem contigo? Pareces distante…
Sorri-lhe e disse que estava cansada. Não tive coragem de lhe contar nada.
Na segunda-feira seguinte decidi seguir o António até ao parque. Senti-me miserável por fazê-lo, mas precisava de respostas. Vi-o sentar-se num banco ao lado de uma mulher loira, magra, com ar triste. Falaram durante quase uma hora. Não houve abraços nem beijos. Só conversa séria e olhares pesados.
Quando ele chegou a casa confrontei-o:
— Vi-te hoje no parque com ela. Porque não me contas tudo?
Ele ficou pálido.
— Maria… Eu só queria ajudar alguém que está pior do que eu. A Teresa perdeu o marido há seis meses e anda completamente perdida. Eu sei o que é sentir-se sozinho…
— Mas tu não estás sozinho! Tens-me a mim! — gritei-lhe, incapaz de conter as lágrimas.
Ele aproximou-se devagar e pegou-me nas mãos.
— Maria… Eu sinto-me sozinho há muito tempo. Desde que me reformei parece que deixei de ser útil para ti, para os miúdos… Até para mim próprio. A Teresa só me ouve sem julgar…
As palavras dele foram como um murro no estômago. Nunca pensei que ele se sentisse assim.
— Porque nunca me disseste nada? — perguntei baixinho.
— Porque achei que não ias perceber… Que ias achar ridículo um homem da minha idade sentir-se perdido.
Chorámos os dois nessa noite. Pela primeira vez em muitos anos falámos verdadeiramente um com o outro: sobre os medos dele, sobre as minhas inseguranças, sobre tudo aquilo que tínhamos deixado por dizer ao longo dos anos.
Nos dias seguintes tentei ser menos dura com ele — e comigo própria. Convidei-o para irmos juntos ao cinema como fazíamos antes; começámos a fazer caminhadas juntos; voltei a escrever-lhe bilhetes amorosos como nos primeiros tempos.
A Teresa continuou a ser presença na vida dele — mas agora eu também fazia parte desse círculo. Conheci-a numa das caminhadas e percebi que era realmente uma mulher destroçada pela perda.
O António nunca me traiu fisicamente — mas percebi que há muitas formas de traição: quando deixamos de ouvir quem amamos; quando nos fechamos no nosso próprio mundo; quando deixamos morrer aos poucos aquilo que nos uniu.
Hoje olho para trás e vejo quanto crescemos os dois neste processo doloroso. Aprendi que o amor não é garantido — é preciso cuidar dele todos os dias.
Às vezes pergunto-me: quantos casais vivem juntos durante décadas sem nunca se ouvirem verdadeiramente? Quantos segredos cabem num silêncio partilhado?
E vocês? Já sentiram medo de perder alguém sem saberem bem porquê?