“Já não sou a criada de todos” – O Despertar de uma Mãe Portuguesa

— Maria, podes tratar do jantar? O pai chega já! — gritou a minha filha Joana da sala, enquanto eu ainda tentava acabar de passar a camisa do meu marido.

Senti o nó na garganta. Mais um pedido, mais uma tarefa. Olhei para as minhas mãos calejadas, sentindo o peso dos anos. Quantas vezes já ouvi aquela frase? Quantas vezes fui eu a última a sentar-me à mesa, a primeira a levantar-me? Quantas vezes engoli o choro para não perturbar ninguém?

A casa estava cheia de vozes, mas dentro de mim havia um silêncio ensurdecedor. O relógio da cozinha marcava 19h12. O cheiro do arroz queimado misturava-se ao perfume barato que usava para disfarçar o cansaço. Oiço o portão a abrir. O meu marido, António, entra com o passo pesado de quem acha que o mundo lhe deve tudo.

— Maria, onde estão as minhas chaves? — pergunta sem sequer olhar para mim.

— Estão na prateleira, onde deixaste ontem — respondo, tentando não mostrar irritação.

Ele resmunga qualquer coisa e desaparece no corredor. Joana aparece à porta da cozinha, telemóvel na mão, olhos postos no ecrã.

— Mãe, preciso que me leves amanhã à entrevista. Não posso chegar atrasada.

— Joana, amanhã tenho consulta às nove. Não posso faltar outra vez.

Ela revira os olhos.

— A sério, mãe? Não podes adiar? É só uma consulta!

Sinto o sangue ferver-me nas veias. “É só uma consulta”, repete-se na minha cabeça como um eco cruel. Lembro-me das vezes em que adiei tudo por eles: consultas, sonhos, até amizades. Sempre fui a mãe disponível, a esposa incansável, a filha obediente. Mas quem sou eu para além disso?

Naquela noite, enquanto todos dormiam, sentei-me à mesa da cozinha com uma chávena de chá frio. Olhei para as paredes gastas e pensei: “Será isto a minha vida?” Lembrei-me da Maria de 20 anos, cheia de sonhos e planos. Queria ser professora, viajar pelo mundo, aprender línguas. Mas depois veio o casamento, os filhos, o trabalho na fábrica que nunca gostei.

O telefone tocou. Era a minha irmã, Teresa.

— Maria, amanhã podes vir cá ajudar-me com as compras? O Miguel está doente e não tenho ninguém.

Respirei fundo.

— Teresa, amanhã não posso. Tenho consulta e depois preciso de descansar um pouco.

Houve silêncio do outro lado.

— Está bem… — respondeu ela com uma voz magoada.

Desliguei e senti-me culpada. Sempre fui aquela que dizia sim a tudo. Mas naquele momento percebi: se não começar a dizer não, nunca vou ter tempo para mim.

No dia seguinte, acordei antes do sol nascer. Preparei o pequeno-almoço em silêncio. Quando Joana desceu as escadas apressada, olhou para mim com ar zangado.

— Então? Vais mesmo deixar-me ir sozinha?

— Joana, tens 27 anos. És capaz de ir sozinha. Preciso de cuidar de mim também.

Ela saiu sem dizer adeus. Senti um aperto no peito, mas também uma estranha sensação de alívio.

Na consulta, a médica olhou para mim com atenção.

— Maria, tem de pensar mais em si. O seu corpo está cansado demais. Precisa de descansar.

Saí do consultório com lágrimas nos olhos. Sentei-me num banco do jardim e deixei-me ficar ali, a ouvir os pássaros e a sentir o vento na cara. Pela primeira vez em muitos anos, senti-me livre — nem que fosse só por uns minutos.

Quando cheguei a casa, António estava à mesa com cara fechada.

— Onde foste? Não havia almoço feito quando cheguei!

Olhei-o nos olhos pela primeira vez em muito tempo.

— Fui cuidar de mim. E daqui para a frente vou continuar a fazê-lo.

Ele ficou calado. Joana entrou pouco depois, atirou a mala para o sofá e foi directa para o quarto sem me dirigir palavra.

Os dias seguintes foram estranhos. A família parecia andar à deriva sem o meu comando invisível. A roupa acumulava-se na lavandaria, as refeições eram improvisadas ou encomendadas. Ninguém agradecia nada do que eu fazia — mas todos notavam quando eu deixava de fazer.

Uma noite, sentei-me com António na sala.

— António, precisamos de falar.

Ele olhou-me desconfiado.

— Estou cansada de ser a criada desta casa. Quero ser respeitada como mulher e como pessoa. Quero tempo para mim. Quero voltar a pintar, quero ir ao cinema com amigas… Quero viver antes que seja tarde demais.

Ele abanou a cabeça.

— Estás diferente…

— Estou cansada — respondi simplesmente.

Houve discussões, portas batidas e silêncios pesados nos dias seguintes. Joana deixou de me pedir favores e começou a fazer as suas próprias tarefas — ainda que contrariada. António passou mais tempo fora de casa. A minha irmã deixou de me ligar tanto.

No início doeu-me sentir-me menos necessária. Mas aos poucos comecei a descobrir pequenos prazeres: um livro lido até tarde; um café sozinha na esplanada; uma tarde inteira dedicada à pintura; uma caminhada sem destino pela marginal do Tejo.

Certo dia encontrei a vizinha Rosa no supermercado.

— Então Maria, andas desaparecida!

Sorri-lhe com sinceridade pela primeira vez em anos.

— Ando a encontrar-me — respondi.

Ela riu-se e deu-me um abraço apertado.

Comecei a frequentar aulas de pintura no centro cultural do bairro. Fiz novas amigas: mulheres como eu, cansadas de serem invisíveis nas suas próprias casas. Partilhámos histórias, chorámos juntas e rimos ainda mais alto.

Um domingo à tarde, Joana entrou na sala enquanto eu pintava um quadro colorido.

— Mãe… — começou ela timidamente — Desculpa ter sido tão egoísta contigo. Nunca pensei no quanto fazias por nós…

Olhei-a nos olhos e vi nela um reflexo da mulher que fui: cheia de medo de desagradar aos outros, sempre pronta a sacrificar-se.

Abracei-a com força.

— Nunca é tarde para mudarmos — disse-lhe ao ouvido.

Hoje olho para trás e vejo uma vida cheia de amor… mas também cheia de silêncios e renúncias. Se pudesse voltar atrás faria diferente? Talvez não tudo… mas teria aprendido mais cedo a dizer “não” sem culpa.

E vocês? Quantas vezes se esqueceram de si próprios para agradar aos outros? Será que é possível amar sem nos perdermos pelo caminho?