Nunca Imaginei Que o Meu Marido Pagava as Dívidas da Ex-Mulher – A História Que Mudou a Minha Vida

— Maria, precisamos falar sobre as contas deste mês — disse o João, com aquele tom de voz que eu já conhecia bem, meio cansado, meio distante. Eu estava a arrumar a loiça do jantar, mas parei imediatamente. O João nunca gostou de falar sobre dinheiro, e sempre que puxava o assunto era porque algo não estava bem.

— O que se passa? — perguntei, tentando manter a calma, embora o meu coração já batesse mais depressa.

Ele hesitou, olhou para o chão e depois para mim. — Acho que vamos ter de apertar um bocadinho o cinto nos próximos tempos.

Senti um frio na barriga. Não era a primeira vez que tínhamos dificuldades, mas ultimamente tudo parecia mais pesado. As contas da casa em Setúbal, as despesas dos miúdos, o carro que precisava de revisão… Mas havia algo diferente naquele olhar do João. Uma sombra que eu nunca tinha visto.

— João, diz-me a verdade. O que é que se passa realmente?

Ele suspirou fundo. — É complicado, Maria. Não quero preocupar-te.

— Já estou preocupada! — respondi, a voz a tremer. — Diz-me!

Foi então que ele largou a bomba: — Tenho ajudado a Sandra…

Fiquei em silêncio. A Sandra. A ex-mulher dele. Sempre foi um assunto sensível entre nós, mas eu nunca imaginei…

— Ajudado como? — perguntei, quase sem voz.

— Ela ficou com dívidas depois do divórcio. Eu… eu tenho pago algumas prestações por ela. Não queria que os miúdos ficassem sem casa.

Senti o chão fugir-me dos pés. O João estava a usar o nosso dinheiro para pagar as dívidas da ex-mulher? Sem me dizer nada? Sentei-me à mesa, as mãos a tremer.

— Há quanto tempo isto dura?

Ele não respondeu logo. — Uns meses… talvez um ano.

Um ano. Um ano inteiro de mentiras, de contas que não batiam certo, de noites em que ele dizia estar cansado do trabalho mas afinal estava era cansado de esconder segredos.

— E achaste que eu nunca ia descobrir? — perguntei, com lágrimas nos olhos.

Ele tentou justificar-se. — Eu só queria ajudar os miúdos. Eles não têm culpa de nada.

— E nós? Nós temos culpa? — gritei, já sem conseguir controlar a raiva e a dor.

Os miúdos ouviram a discussão e vieram à cozinha. O Tomás, com 10 anos, olhou para mim assustado. — Mãe?

Respirei fundo e tentei recompor-me. — Vai para o quarto, Tomás. Já lá vou ter contigo.

Quando ficámos novamente sozinhos, encarei o João. — Isto não é só sobre dinheiro, João. É sobre confiança. Como é que achaste que isto era aceitável?

Ele baixou os olhos. — Eu não sabia como te dizer… Tinha medo de te perder.

— Mas assim é que me estás a perder! — respondi, sentindo-me traída como nunca antes.

Nessa noite não consegui dormir. Fiquei a olhar para o teto do nosso quarto, a pensar em tudo o que tínhamos construído juntos e em como tudo podia ruir por causa de uma mentira. Lembrei-me de todas as vezes em que ele dizia estar preocupado com as contas, das discussões sobre as férias que nunca tirávamos, dos presentes de Natal mais modestos… Tudo fazia sentido agora.

No dia seguinte fui trabalhar como se nada fosse, mas por dentro sentia-me vazia. No escritório ninguém percebeu nada; sorri, respondi aos emails, fui tomar café com a Carla e fingi normalidade. Mas cada vez que olhava para o telemóvel e via uma mensagem do João sentia um aperto no peito.

À noite tentei falar com ele outra vez. — João, precisamos de resolver isto. Não posso viver com esta dúvida constante.

Ele prometeu parar de ajudar a Sandra, mas eu sabia que não era assim tão simples. A Sandra ligou-me dias depois:

— Maria, desculpa estar a ligar-te… Sei que descobriste tudo. Não queria causar problemas entre vocês.

A voz dela era sincera, mas eu não conseguia sentir empatia naquele momento.

— Só queria que fosses honesta comigo também — respondi friamente.

Ela suspirou. — O João só queria ajudar os filhos… Eu nunca pedi para ele esconder nada de ti.

Desliguei sem saber se acreditava nela ou não. Senti-me sozinha como nunca antes na vida.

As semanas passaram e tentei perdoar o João. Mas cada vez que olhava para ele via um estranho à minha frente. Comecei a desconfiar de tudo: das horas extra no trabalho, das mensagens no telemóvel, até dos abraços demorados aos miúdos quando voltava da escola.

A minha mãe percebeu logo que algo não estava bem e insistiu para eu ir passar uns dias com ela em Almada.

— Filha, tu tens de pensar em ti e nos teus filhos primeiro — disse-me ela enquanto me fazia chá na cozinha pequena onde cresci.

— Mas mãe… e se eu nunca mais conseguir confiar nele?

Ela olhou-me nos olhos com aquela sabedoria antiga: — Às vezes é preciso perder para perceber o que realmente queremos ganhar.

Voltei para casa decidida a pôr tudo em pratos limpos. Sentei-me com o João à mesa da cozinha onde tudo tinha começado e disse-lhe:

— Ou somos honestos um com o outro daqui para a frente ou isto acaba aqui.

Ele chorou pela primeira vez desde que nos conhecemos há 12 anos. Pediu desculpa mil vezes, prometeu mudar… Mas será que as pessoas mudam mesmo?

Os meses seguintes foram uma luta diária entre o perdão e a desconfiança. Fomos juntos à psicóloga de casal em Lisboa, tentámos reconstruir o que restava da nossa relação. Mas cada vez que havia uma nova despesa inesperada ou uma chamada da Sandra eu sentia-me novamente traída.

O Tomás começou a ter problemas na escola; a professora chamou-me para uma reunião e disse que ele andava distraído e triste.

— Está tudo bem em casa? — perguntou ela com delicadeza.

Quis mentir-lhe, mas não consegui. — Estamos a passar uma fase difícil…

À noite abracei o Tomás com força e pedi-lhe desculpa por tudo aquilo que ele nem sequer compreendia totalmente.

O tempo foi passando e percebi que já não era só sobre o João ou sobre as dívidas da Sandra. Era sobre mim: sobre quem eu era antes deste casamento, antes dos filhos, antes das mentiras.

Comecei a sair mais com amigas antigas, voltei a pintar como fazia antes de casar, inscrevi-me num curso de cerâmica na junta de freguesia. Aos poucos fui recuperando partes de mim que tinha deixado para trás.

O João percebeu essa mudança e tentou acompanhar-me; começou a ajudar mais em casa, passou mais tempo com os miúdos sem estar agarrado ao telemóvel. Mas havia sempre um silêncio entre nós, uma distância impossível de preencher apenas com gestos ou palavras bonitas.

Um dia sentei-me sozinha na praia da Costa da Caparica ao pôr-do-sol e escrevi no meu diário:

“Será possível reconstruir uma vida quando já não se confia em quem está ao nosso lado? Ou será melhor recomeçar sozinha do zero?”

E vocês? Acham que é possível perdoar uma mentira destas? Ou há coisas que simplesmente não têm volta atrás?