Entre o Amor e o Dever: O Preço de Ser Mãe em Portugal

— Mãe, a Ana não tem direito a metade do que tu lhe dás! — gritou a Joana ao telefone, a voz trémula de raiva e talvez de inveja. Senti o peito apertar, como se cada palavra dela fosse um prego cravado na minha consciência. Era verão, e eu tinha acabado de chegar a Lisboa depois de mais um ano a trabalhar como empregada de limpeza em Genebra. O cheiro do aeroporto misturava-se com o perfume da saudade, mas mal pus os pés em casa, fui atirada para o centro da tempestade.

A Ana e a Joana sempre foram unidas quando pequenas. Lembro-me delas a correrem pelo quintal da casa dos meus pais em Santarém, os cabelos loiros embaraçados pelo vento e os joelhos esfolados das brincadeiras. Mas tudo mudou quando cresceram, casaram e começaram a construir as suas próprias famílias. O que era cumplicidade transformou-se em competição silenciosa, alimentada por pequenas comparações: quem tinha o carro melhor, quem vestia as crianças com roupas mais caras, quem passava férias em Vilamoura ou apenas na Costa da Caparica.

O pior foi quando os maridos entraram na equação. O Rui, marido da Joana, sempre foi ambicioso, daqueles que acham que o mundo lhes deve tudo. O Pedro, marido da Ana, é mais calado, mas não menos orgulhoso. Os dois nunca se deram bem. No último Natal, quase chegaram às vias de facto por causa de uma discussão sobre futebol — Benfica contra Sporting — mas eu sabia que era mais do que isso. Era sobre dinheiro. Sobre quem recebia mais ajuda minha.

— Mãe, tu trabalhaste tanto lá fora para quê? Para dar tudo à Ana? — insistiu a Joana naquele telefonema fatídico.

Sentei-me na cama do meu quarto, ainda com as malas por desfazer. Olhei para as mãos calejadas, lembrando-me das casas que limpei, dos invernos gelados em Genebra, das noites em que chorei de saudade das minhas filhas. Fiz tudo por elas. Mas agora sentia-me usada.

— Joana, eu faço o melhor que posso. Ajudo-vos às duas — tentei explicar.

— Não é verdade! A Ana recebeu dinheiro para pagar o colégio da Beatriz e eu tive de pedir empréstimo para comprar livros para o Tomás! — acusou ela.

O silêncio caiu pesado entre nós. Senti-me culpada. Sempre tentei ser justa, mas talvez nunca tenha conseguido.

Naquela noite, sentei-me sozinha na varanda. O cheiro do manjerico misturava-se com o ar quente da cidade. Lembrei-me do que uma colega suíça me dissera antes de eu voltar: “Maria, tu dás demais às tuas filhas. Elas nunca vão aprender a viver sozinhas.” Na altura achei aquilo cruel. Agora começava a perceber.

No dia seguinte, fui visitar a Ana. Ela morava num apartamento moderno em Oeiras, decorado com móveis caros que eu sabia terem sido comprados com parte do dinheiro que lhe enviei ao longo dos anos.

— Mãe! — exclamou ela ao abrir a porta, abraçando-me com força. — Que saudades!

A Beatriz correu para mim, rindo e pedindo colo. Por um momento esqueci tudo. Mas logo o Pedro apareceu na sala, olhar desconfiado.

— Então, Maria? Veio ver se está tudo bem com os seus investimentos? — disse ele com um sorriso forçado.

Fingi não perceber a provocação.

— Vim ver a minha filha e a minha neta — respondi.

A Ana percebeu o clima e tentou mudar de assunto, mas não consegui evitar sentir-me desconfortável. O Pedro sempre fez questão de me lembrar que a ajuda financeira era uma obrigação minha, não um gesto de amor.

No regresso a casa, passei pelo supermercado e encontrei a Joana por acaso. Estava com o Tomás pela mão e olhou para mim como se eu fosse uma estranha.

— Olá mãe — disse ela secamente.

— Joana… podemos falar?

Ela hesitou, mas acabou por acenar com a cabeça. Sentámo-nos num café ali perto.

— Sinto que estou a perder-vos às duas — confessei. — Não era isto que queria para nós.

Ela olhou-me nos olhos pela primeira vez em meses.

— Mãe… eu só queria sentir que sou tão importante para ti como a Ana. Sempre tive de lutar pelo teu reconhecimento. Quando era pequena era porque ela tirava melhores notas; agora é porque ela tem mais dinheiro graças a ti.

As palavras dela doeram mais do que qualquer cansaço físico dos meus anos na Suíça.

— Não sabia que te sentias assim… — murmurei.

Ela encolheu os ombros.

— Talvez nunca quiseste saber.

Fiquei ali sentada muito depois de ela ter ido embora, olhando para o café frio à minha frente. Pela primeira vez questionei todas as minhas escolhas: teria sido melhor deixá-las aprenderem a viver sem mim? Teria sido melhor ser menos mãe e mais mulher?

Os dias seguintes foram um desfile de pequenas tensões: mensagens passivo-agressivas no grupo de WhatsApp da família; convites recusados para almoços; silêncios prolongados ao telefone. Senti-me sozinha na minha própria casa.

Uma tarde, decidi ir à praia sozinha. Sentei-me na areia da Costa da Caparica e deixei o vento salgado limpar-me as ideias. Vi famílias inteiras rirem juntas e senti inveja daquela harmonia simples.

Foi então que tomei uma decisão: ia deixar de ser o banco das minhas filhas. Ia começar a viver para mim mesma. Pela primeira vez em décadas, ia pensar no meu futuro — talvez viajar sem destino marcado ou inscrever-me num curso de pintura como sempre sonhei.

Na semana seguinte convoquei as duas para um jantar em minha casa. O ambiente estava tenso; os maridos não vieram.

— Filhas, preciso falar convosco — comecei, tentando controlar o tremor na voz. — Passei metade da minha vida a trabalhar para vos dar tudo. Mas percebi que isso vos afastou uma da outra… e de mim também.

A Ana tentou interromper:

— Mãe, não é verdade…

Levantei a mão.

— Deixa-me acabar. A partir de agora vou ajudar-vos apenas quando realmente precisarem e não porque sentem que têm direito ao meu dinheiro. Quero ser vossa mãe, não vossa financiadora.

O silêncio foi absoluto. Vi lágrimas nos olhos da Joana; vi raiva nos olhos da Ana.

— Vocês são adultas. Está na altura de viverem as vossas vidas sem dependerem de mim para tudo.

A Ana levantou-se abruptamente:

— Então é isto? Depois de tudo agora ficas egoísta?

Senti um nó na garganta mas mantive-me firme:

— Não é egoísmo querer viver um pouco para mim mesma.

A Joana aproximou-se e abraçou-me em silêncio. Pela primeira vez senti que talvez ela me compreendesse.

Depois daquela noite as coisas mudaram devagarinho. Houve distância, houve mágoa, mas também houve espaço para cada uma crescer à sua maneira. A Ana teve de aprender a gerir melhor o orçamento familiar; a Joana começou a confiar mais em si própria e menos no meu apoio financeiro.

Eu? Inscrevi-me num curso de pintura na Universidade Sénior e viajei sozinha até aos Açores — sempre quis ver as lagoas verdes e azuis com os meus próprios olhos.

Hoje olho para trás e pergunto-me: será que fiz bem? Será possível ser mãe sem me anular? Ou será que o amor materno tem mesmo de ser sinónimo de sacrifício eterno?

E vocês? Já sentiram este dilema entre amar demais e perder-se no processo?