Entre Lágrimas e Silêncios: O Dia em Que Descobri a Verdade Sobre o Meu Marido
— Dona Teresa, desculpe incomodar… mas eu preciso falar consigo. — A voz dela tremia tanto quanto as mãos, que apertavam um lenço encharcado de lágrimas.
Fiquei ali, parada à porta, com o coração a bater descompassado. O céu estava carregado e a chuva caía pesada, como se quisesse lavar o mundo dos pecados que eu ainda nem sabia que existiam na minha casa. Olhei para aquela mulher — devia ter uns quarenta anos, cabelo castanho apanhado à pressa, olhos vermelhos de tanto chorar. Não a reconheci.
— Quem é você? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Ela hesitou, olhou para os sapatos molhados e depois encarou-me com uma coragem desesperada:
— O meu nome é Sílvia… Eu… eu amo o seu marido.
O tempo parou. Senti o chão fugir-me dos pés. O Edmundo? O meu Edmundo? Trinta anos de casamento, três filhos criados juntos, domingos em família, férias na Nazaré… Tudo passou pela minha cabeça num segundo. Senti uma náusea subir-me à garganta.
— Isto é algum tipo de brincadeira? — sussurrei, mais para mim do que para ela.
Sílvia abanou a cabeça, lágrimas a correrem-lhe pelo rosto.
— Eu juro que não queria magoá-la. Mas não aguento mais viver assim. Ele prometeu-me que ia contar-lhe…
A raiva misturou-se com o medo. Fechei a porta atrás de mim e sentei-me no banco do alpendre. Ela ficou de pé, encolhida sob a chuva.
— Há quanto tempo? — perguntei, sem conseguir olhar para ela.
— Dois anos… — murmurou. — Conheci-o no café onde trabalho. Ele ia lá todos os dias depois do trabalho…
Dois anos. Dois anos de mentiras, de beijos falsos de boa noite, de desculpas esfarrapadas sobre horas extra e reuniões intermináveis. Senti-me ridícula por nunca ter desconfiado.
— Ele ama-a? — A pergunta saiu-me antes que pudesse pensar.
Sílvia hesitou. — Ele diz que sim… mas também diz que não consegue deixar a família.
Ouvimos passos atrás de nós. Era o Edmundo, com o casaco encharcado e a pasta do trabalho na mão. Parou ao ver-nos as duas ali.
— Teresa? Sílvia? O que se passa aqui?
Olhei-o nos olhos e vi ali um medo antigo, um pânico infantil de quem foi apanhado em flagrante. Senti vontade de gritar, de atirar-lhe tudo à cara — mas não consegui. Levantei-me devagar.
— A Sílvia veio contar-me aquilo que tu nunca tiveste coragem de dizer.
Ele ficou pálido. A pasta caiu-lhe das mãos.
— Teresa… deixa-me explicar…
— Explicar o quê? Que andas há dois anos a enganar-me? Que entras nesta casa todos os dias como se nada fosse?
Os filhos estavam em casa dos avós naquele fim-de-semana. Ainda bem. Não queria que vissem aquilo. Não queria que ouvissem as palavras feias que me subiam à boca.
Sílvia afastou-se devagar, deixando-nos sozinhos na chuva. Edmundo tentou aproximar-se, mas recuei.
— Não me toques! — gritei. — Não tens esse direito!
Ele chorava agora, como uma criança perdida.
— Teresa, eu amo-te… Mas aconteceu… Eu não planeei nada disto…
Ri-me, um riso amargo e rouco.
— Não planeaste? Dois anos não é um deslize! Dois anos é uma escolha!
Ele caiu de joelhos à minha frente.
— Eu não queria perder-te… Não queria perder os miúdos…
Olhei para ele e só vi um estranho. Onde estava o homem com quem casei? Onde estavam as promessas feitas diante de Deus e da família?
A noite caiu devagar sobre nós. Fui para dentro e tranquei-me no quarto. Ouvi-o chorar do lado de fora da porta durante horas. Não abri.
Nos dias seguintes, a casa tornou-se um campo de batalha silencioso. Ele tentava falar comigo; eu evitava-o. Os filhos começaram a perceber que algo estava errado.
A Marta, a mais velha, confrontou-me na cozinha:
— Mãe, o que se passa? O pai anda estranho…
Olhei para ela e vi nela o reflexo da minha própria dor.
— Às vezes as pessoas magoam-nos sem querer, filha…
Ela abraçou-me com força.
O Edmundo tentou tudo: flores, cartas, jantares improvisados. Mas nada apagava a imagem daquela mulher à minha porta, encharcada em lágrimas e verdades.
Um dia, sentei-me com ele na sala.
— Edmundo, não sei se consigo perdoar-te. Não sei se algum dia vou voltar a confiar em ti.
Ele baixou a cabeça.
— Eu mereço tudo o que estás a sentir. Só te peço uma oportunidade para tentar remediar o mal que fiz.
As semanas passaram devagar. Fui à psicóloga, conversei com amigas, rezei muito. Descobri forças que não sabia ter — mas também descobri mágoas profundas que talvez nunca cicatrizem.
A Sílvia nunca mais apareceu. Soube por uma vizinha que pediu transferência do café e mudou-se para outra cidade. O Edmundo ficou — ou melhor, ficou o corpo dele; o homem que eu amava parecia ter desaparecido para sempre.
Os filhos sofreram em silêncio. A Marta afastou-se; o João começou a chegar tarde a casa; a Inês chorava sozinha no quarto. A traição não foi só minha — foi da família toda.
Um dia, sentei-me à mesa com eles e contei-lhes tudo. Preferi a verdade à mentira confortável.
Chorámos juntos nessa noite. E pela primeira vez em meses senti-me menos sozinha na minha dor.
Hoje ainda não sei o que fazer do meu casamento. O Edmundo tenta reconquistar-me todos os dias; eu tento perdoar-lhe todos os dias. Mas há feridas que demoram muito tempo a sarar.
Às vezes pergunto-me: será possível reconstruir uma vida depois de tanta mentira? Ou será melhor recomeçar do zero?
E vocês? O que fariam no meu lugar?