O Testamento do António: Entre Heranças e Feridas

— Não podes fazer isto, mãe! — gritei, com a voz embargada, enquanto segurava a mão do meu filho, Miguel, que tremia ao meu lado. O olhar dela, frio como nunca antes, atravessou-me como uma lâmina.

— A casa era do António, mas agora é de todos nós. Não penses que vais ficar aqui a viver à custa da família! — respondeu a minha mãe, Maria do Céu, com aquela dureza que só conheci depois da morte do meu marido.

Nunca imaginei que a morte do António, o homem que amei desde os meus dezassete anos, fosse abrir um abismo tão fundo entre mim e a minha família. O funeral foi há apenas três meses, mas parece que já se passaram anos desde aquele dia em que tudo mudou. Lembro-me do cheiro das flores murchas na igreja de São João, do choro abafado do Miguel, e da sensação de vazio a crescer dentro de mim.

O António deixou-nos uma casa modesta em Almada e algum dinheiro no banco. Sempre fomos simples, nunca ligámos a luxos. Mas bastou o advogado ler o testamento para os olhos da minha mãe e dos meus irmãos se acenderem de cobiça. O António deixou tudo para mim e para o Miguel. Achei que isso nos protegeria. Enganei-me.

— Mãe, por favor… — tentei apelar à compaixão dela. — O António confiou em mim para cuidar do Miguel. Não posso sair de casa agora. Não temos para onde ir.

Ela virou-me as costas e saiu da sala sem dizer mais nada. Fiquei ali, parada, com o Miguel a chorar baixinho no meu colo. Senti-me tão sozinha como nunca antes.

Os dias seguintes foram um inferno. O meu irmão mais velho, Rui, começou a aparecer todos os dias à porta de casa. Batia com força, exigia ver os papéis da herança, ameaçava chamar a polícia. Uma vez chegou mesmo a trazer um advogado com ele.

— Isto não vai ficar assim! — gritou ele à porta, enquanto os vizinhos espreitavam pelas janelas. — O António devia ter pensado na família toda! Tu não és ninguém sem ele!

Eu tremia de medo cada vez que ouvia passos no corredor. O Miguel começou a ter pesadelos todas as noites. Acordava a gritar pelo pai e agarrava-se a mim como se eu pudesse protegê-lo de todos os monstros do mundo.

No meio deste caos, tentei manter alguma normalidade. Levava o Miguel à escola todos os dias, fingindo que estava tudo bem. Mas as professoras notaram logo que algo não estava certo.

— Dona Sofia, o Miguel está muito calado ultimamente… — disse-me a professora Ana um dia à porta da escola. — Se precisar de ajuda, sabe que pode contar connosco.

Agradeci com um sorriso forçado, mas por dentro sentia-me prestes a desabar. Não queria expor a vergonha da minha família aos outros. Sempre fomos vistos como uma família unida, respeitada no bairro. Agora éramos motivo de cochichos e olhares de pena.

Uma noite, depois de adormecer o Miguel, sentei-me sozinha na sala escura e chorei como há muito não chorava. Senti raiva do António por me ter deixado sozinha com este peso. Senti raiva da minha mãe por me virar as costas quando mais precisava dela. Senti raiva de mim própria por não conseguir ser mais forte.

No dia seguinte, recebi uma carta registada: era uma intimação judicial. O Rui tinha avançado com um processo para contestar o testamento. Dizia que o António não estava em pleno uso das suas faculdades quando assinou os papéis. Acusava-me de manipulação.

Fui ter com o advogado do António, o senhor Joaquim, um homem idoso e paciente que sempre nos tratou com respeito.

— Sofia, sei que isto é difícil — disse ele, olhando-me nos olhos por cima dos óculos — mas tens de ser forte pelo teu filho. O testamento está legalmente válido. Eles podem tentar contestar, mas vai ser difícil provarem alguma coisa.

— Mas eles não vão parar… — murmurei, sentindo as lágrimas a quererem saltar outra vez.

— Não vão — concordou ele. — Mas tu também não podes desistir.

Voltei para casa com o coração apertado. O Miguel estava sentado no tapete da sala a desenhar uma casa com três pessoas: ele, eu e o António sorridentes ao sol. Sentei-me ao lado dele e abracei-o com força.

Os meses passaram entre audiências no tribunal, discussões familiares e noites sem dormir. A minha mãe deixou de me falar completamente. No Natal, nem sequer me convidaram para o jantar em casa dela. Passei a noite sozinha com o Miguel, a fingir alegria enquanto ele desembrulhava um carrinho de brinquedo barato que consegui comprar com o pouco dinheiro que restava.

A solidão tornou-se uma companheira constante. Os amigos afastaram-se aos poucos — ninguém queria meter-se em confusões familiares. Só a vizinha Dona Graça me dava algum apoio: trazia sopa quente nos dias mais difíceis e sentava-se comigo na varanda a ouvir as minhas mágoas.

— Filha, não deixes que te tirem aquilo que é teu por direito — dizia ela sempre. — A família às vezes é pior que estranhos.

Comecei a procurar trabalho para garantir algum sustento além da herança bloqueada pelo tribunal. Aceitei limpar escritórios à noite e fazer costuras para fora durante o dia. O cansaço era tanto que às vezes adormecia sentada à mesa da cozinha.

O Miguel sentiu tudo isto na pele: ficou mais fechado, começou a ter dificuldades na escola e até deixou de brincar com os amigos no parque. Um dia encontrei-o escondido atrás do sofá a chorar baixinho.

— Mãe… eles vão levar-nos embora? — perguntou ele com os olhos vermelhos.

Abracei-o com todas as forças que me restavam.

— Não vão, meu amor. Enquanto eu viver, ninguém nos separa.

Mas eu própria já duvidava das minhas palavras.

O processo arrastou-se durante quase dois anos. No final, o tribunal deu-me razão: o testamento era válido e ninguém podia tirar-nos a casa nem o pouco dinheiro que restava. Mas a vitória soube-me amarga: perdi quase toda a família no processo e fiquei marcada como aquela que “roubou” a herança ao resto dos irmãos.

Hoje vivo sozinha com o Miguel naquela mesma casa onde fui feliz com o António. A relação com a minha mãe nunca mais foi a mesma; raramente fala comigo e quando o faz é só para perguntar pelo neto.

Às vezes pergunto-me se valeu a pena lutar tanto por paredes vazias e memórias dolorosas. Mas depois olho para o Miguel — agora mais crescido e sorridente — e penso que talvez tenha feito tudo certo.

Será que alguma vez conseguimos reconstruir uma família depois de tanta traição? Ou certas feridas nunca cicatrizam? Gostava de saber o que fariam no meu lugar.