A Ferida Que Nunca Sara: O Dia em Que Encontrei a Outra Mulher

— Não me olhes assim, Mariana. Não faças essa cara — disse o Rui, com a voz trémula, enquanto eu segurava o telemóvel dele na mão. O ecrã ainda brilhava com aquela mensagem curta: “Sinto a tua falta. Preciso de te ver. — Sofia”.

O meu coração batia tão forte que temi desmaiar ali mesmo, na cozinha. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o amargo da traição que me subia à garganta. Senti as pernas fraquejarem, mas não caí. Não podia cair. Não à frente dele.

— Quem é a Sofia? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas ela saiu num sussurro rouco, quase irreconhecível.

O Rui desviou o olhar, fitando o chão como se ali encontrasse uma resposta melhor do que a verdade. O silêncio entre nós era tão denso que quase podia tocá-lo. Finalmente, ele murmurou:

— É alguém do trabalho. Não é nada…

— Não é nada? — interrompi, sentindo as lágrimas a queimarem-me os olhos. — Então porque é que ela sente a tua falta? Porque é que precisa de te ver?

Ele não respondeu. E naquele momento, soube tudo o que precisava de saber.

Os dias seguintes foram um borrão de discussões abafadas atrás das portas fechadas do nosso apartamento em Benfica. O nosso filho, Tiago, com apenas oito anos, percebia mais do que eu queria admitir. Perguntava porque é que o pai dormia no sofá, porque é que eu chorava à noite, porque é que já não íamos ao parque aos domingos.

A minha mãe ligava todos os dias:

— Mariana, tens de ser forte. Os homens são todos iguais. Pensa no Tiago.

Mas eu não queria pensar no Tiago. Queria pensar em mim, na mulher que fui antes de ser mãe e esposa. Queria gritar, partir pratos, fugir para longe dali. Mas ficava. Porque era isso que se esperava de mim.

O Rui pediu desculpa. Chorou. Prometeu que tinha acabado tudo com a Sofia. Disse que me amava, que éramos uma família, que ia fazer tudo para me reconquistar.

Eu tentei perdoar. Juro que tentei. Fomos à terapia de casal, fizemos viagens curtas para relembrar os velhos tempos, tentámos reacender a paixão perdida entre lençóis frios e conversas forçadas.

Mas a ferida estava lá. Sempre lá. Uma cicatriz invisível que doía sempre que ele chegava tarde do trabalho ou quando o telemóvel vibrava à noite.

Os anos passaram. O Tiago cresceu, tornou-se um adolescente fechado e irónico, como se carregasse dentro dele todos os silêncios e mágoas dos pais. O Rui mudou-se para o escritório novo em Oeiras e eu dediquei-me ao meu trabalho na escola primária do bairro, tentando encontrar sentido nas pequenas vitórias diárias dos meus alunos.

A Sofia tornou-se um fantasma entre nós. Nunca mais ouvi falar dela, nunca mais vi o nome dela no telemóvel do Rui. Mas ela estava lá, nos meus pensamentos, nas minhas inseguranças, nos meus pesadelos recorrentes em que via o Rui a afastar-se de mim para sempre.

Até ao dia em que tudo mudou outra vez.

Era uma tarde chuvosa de novembro quando entrei apressada no supermercado do bairro para comprar pão e leite antes de ir buscar o Tiago à escola. Estava distraída, a pensar numa reunião difícil com os pais de um aluno problemático, quando ouvi alguém chamar pelo meu nome:

— Mariana?

Virei-me e vi uma mulher alta, cabelo castanho apanhado num coque desleixado, olhos claros e cansados. Reconheci-a imediatamente pelas fotos antigas no Facebook do Rui: Sofia.

O meu corpo ficou rígido como pedra. Pensei em fugir, fingir que não era comigo. Mas ela aproximou-se com um sorriso tímido e um olhar estranho, misto de culpa e alívio.

— Desculpa abordar-te assim… Eu sei quem tu és — disse ela baixinho.

Fiquei sem palavras. O supermercado parecia girar à minha volta.

— O que queres? — consegui perguntar finalmente.

Ela suspirou fundo.

— Só queria pedir-te desculpa… Sei que não serve de nada agora, mas precisava de te dizer isto há muito tempo.

Olhei para ela com raiva e desprezo.

— Achas mesmo que um pedido de desculpas apaga tudo? Achas que alguma vez vou esquecer o que fizeste à minha família?

Ela baixou os olhos.

— Eu também perdi muito naquela altura… O Rui prometeu-me coisas que nunca cumpriu. Fui ingénua, acreditei nele… Acabei sozinha e arrependida.

As palavras dela caíram sobre mim como chuva gelada. Pela primeira vez vi-a como uma pessoa real, não apenas como a vilã da minha história.

— Não me interessa o que perdeste — respondi friamente. — Eu perdi a confiança no homem com quem casei. Perdi noites de sono, perdi alegria… E o meu filho perdeu o pai dele sem sequer perceber porquê.

Ela assentiu em silêncio.

— Só queria dizer-te isto… E pedir-te desculpa por tudo — repetiu antes de se afastar pelos corredores do supermercado.

Fiquei ali parada alguns minutos, incapaz de me mexer ou sequer respirar fundo. Senti uma estranha mistura de alívio e tristeza profunda. Afinal, ela também era humana. Também sofrera as consequências das escolhas do Rui.

Nessa noite contei ao Rui sobre o encontro com a Sofia. Ele ficou pálido e tentou abraçar-me, mas afastei-o.

— Ela pediu-me desculpa — disse-lhe secamente. — E tu? Alguma vez te arrependeste mesmo?

Ele não respondeu logo. Depois murmurou:

— Todos os dias desde então.

Olhei para ele e percebi que talvez nunca mais voltasse a confiar verdadeiramente nele. Talvez nunca mais voltasse a ser aquela Mariana ingénua e feliz dos primeiros anos de casamento.

O Tiago entrou na sala nesse momento e olhou para nós com aquele olhar cansado de quem já viu demasiado para a idade que tem.

— Está tudo bem? — perguntou desconfiado.

Sorri-lhe como pude e disse:

— Vai ficar tudo bem, filho.

Mas será mesmo possível sarar uma ferida destas? Será possível perdoar sem esquecer? Ou vivemos todos condenados a carregar as cicatrizes das escolhas dos outros?

E vocês? Já conseguiram perdoar uma traição? Ou há dores que simplesmente nunca desaparecem?