“Tu não és daqui, pois não?” – O dia em que tudo mudou no céu de Lisboa
— Tu não és daqui, pois não? — perguntou-me o senhor do lado, com aquele sotaque cerrado de Trás-os-Montes, enquanto o avião atravessava as nuvens densas sobre Lisboa. Olhei para ele, cansada, os olhos ainda húmidos das lágrimas que tinha chorado em silêncio durante o embarque. — Sou, sim — respondi, mas a minha voz saiu trémula, quase como se eu própria duvidasse.
A verdade é que nunca me senti verdadeiramente de lado nenhum. Nasci em Setúbal, filha de mãe portuguesa e pai cabo-verdiano, mas cresci entre olhares de soslaio e comentários sussurrados. “A tua cor é bonita, mas não é daqui”, dizia a minha avó materna sempre que me via chegar da escola. A minha mãe, Maria do Céu, tentava defender-me, mas acabava sempre por baixar os olhos e mudar de assunto. O meu pai, António, desapareceu quando eu tinha oito anos — foi-se embora para Londres à procura de trabalho e nunca mais voltou.
Naquela manhã, antes do voo para os Açores — uma viagem que devia ser apenas uma pausa para respirar longe dos problemas —, tive mais uma discussão com a minha mãe. Ela queria que eu ficasse, que não fugisse dos problemas. Eu só queria silêncio. “Não podes continuar a fugir de ti própria, Leonor!” gritou ela quando bati com a porta. Mas como é que se foge de algo que está dentro de nós?
No avião, tentei adormecer para esquecer tudo. Mas o sono foi interrompido por um sobressalto: a voz do comandante soou nos altifalantes, tensa e urgente. “Senhores passageiros, se houver alguém a bordo com experiência em pilotar aviões, por favor identifique-se imediatamente.” O pânico espalhou-se como fogo num campo seco. A senhora da frente começou a rezar em voz alta. O bebé ao fundo chorava desalmadamente. Senti o coração bater tão forte que temi que todos ouvissem.
A aeromoça aproximou-se de mim e tocou-me no ombro. — Desculpe incomodar… sabe se alguém aqui sabe pilotar? — perguntou-me, olhando para mim como se eu pudesse ter todas as respostas do mundo. Eu não sabia pilotar aviões. Mas sabia o que era sentir-se perdida no meio do nada.
O senhor ao meu lado agarrou-me na mão. — Vai correr tudo bem, menina. Deus não dorme. — Mas eu já não acreditava em milagres há muito tempo.
Enquanto esperávamos por notícias do cockpit, as pessoas começaram a falar umas com as outras — partilhavam histórias, medos, sonhos adiados. Uma senhora contou que ia conhecer o neto pela primeira vez; um rapaz confessou que fugia de um amor impossível em Braga. Senti-me estranhamente próxima daqueles estranhos.
De repente, ouvi um grito vindo da parte da frente: “O comandante desmaiou!” O pânico instalou-se de vez. A aeromoça correu pelo corredor à procura de ajuda. Eu levantei-me instintivamente, sem saber porquê. Talvez porque sempre fui aquela que tenta resolver tudo sozinha. Talvez porque estava cansada de fugir.
— Alguém tem experiência? — gritou ela outra vez.
Houve um silêncio pesado. Então ouvi uma voz atrás de mim: — Eu… eu já pilotei aviões pequenos… mas nunca um destes! — Era um homem magro, com ar assustado.
A aeromoça agarrou-lhe no braço e levou-o para o cockpit. Ficámos todos em suspenso, presos entre o céu e o mar.
Foi nesse momento que comecei a pensar em tudo o que deixara por dizer à minha mãe. Lembrei-me das noites em que ela me fazia chá quando eu tinha febre; das vezes em que me penteava o cabelo devagarinho porque sabia que eu odiava sentir os dedos duros das outras pessoas na minha cabeça; das cartas que escrevia ao meu pai e nunca enviava.
O avião começou a tremer violentamente. Alguém gritou “Vamos morrer!” e eu senti uma raiva súbita — não queria morrer sem ter tido coragem de ser quem sou.
Fechei os olhos e imaginei-me a voltar para casa. Imaginei-me a olhar nos olhos da minha mãe e dizer-lhe: “Eu sou tua filha, com todas as minhas cores e todas as minhas dores.” Imaginei-me a perdoar o meu pai por ter ido embora — talvez ele também só quisesse fugir dos seus próprios fantasmas.
O avião estabilizou subitamente. O homem magro saiu do cockpit suado mas sorridente: — Conseguimos! Estamos a descer para Ponta Delgada!
As pessoas bateram palmas e choraram de alívio. Abracei o senhor do lado sem pensar duas vezes. Ele sorriu-me: — Vês? Deus não dorme mesmo.
Quando aterrámos, senti uma paz estranha. O medo tinha dado lugar a uma vontade imensa de viver. Liguei à minha mãe assim que pus os pés no chão.
— Mãe… desculpa tudo. Eu amo-te.
Do outro lado ouvi-a chorar baixinho: — Também te amo, filha. Volta para casa quando quiseres… ou fica onde fores feliz.
Desliguei e olhei para o céu açoriano, tão diferente do céu de Setúbal mas igualmente bonito.
Agora pergunto-me: quantas vezes deixamos o medo decidir por nós? E se tivéssemos coragem de enfrentar quem somos — mesmo quando o mundo insiste em perguntar: “Tu não és daqui, pois não?”