A Tua Culpa Por Mal Sobrevivermos: Uma História de Família, Orgulho e Silêncios
— A culpa é tua, Mariana! — gritou a minha mãe, com os olhos faiscantes e a mão a tremer de raiva. — Se tivesses feito as coisas como eu te disse, não estavas agora a pedir-me ajuda!
Fiquei ali, parada no corredor frio do apartamento dela, com o meu filho mais novo agarrado à minha perna e a minha filha mais velha a olhar para mim com aqueles olhos grandes, assustados. O cheiro a sopa de legumes vinha da cozinha, misturado com o perfume forte da minha mãe, e eu sentia-me pequena, encolhida, como quando era criança e fazia asneiras.
— Mãe, eu só preciso que fiques com eles esta semana. O António está doente, não posso faltar ao trabalho outra vez… — tentei explicar, mas ela já se virava de costas.
— Não posso, Mariana. Tenho a minha vida. E a tua avó também não pode. Já chega de dependeres de nós. — A porta bateu com força.
O silêncio que ficou foi mais pesado do que qualquer grito. Saí dali com as crianças pela mão, descendo as escadas devagar, sentindo cada degrau como uma derrota. Lá fora, o céu estava cinzento e o vento cortava-me a cara. O meu filho tossiu e eu apertei-o contra mim.
No autocarro para casa, olhei para os rostos cansados à minha volta. Todos pareciam carregar o seu próprio fardo. Lembrei-me dos tempos em que o meu pai ainda era vivo. Ele nunca deixaria isto acontecer. Mas desde que morreu, a minha mãe tornou-se fria, distante. A avó só repete que “cada um tem de cuidar do seu”.
Chegámos ao bairro social onde vivemos há dois anos. O prédio precisava de pintura e o elevador estava avariado outra vez. Subi as escadas com as crianças e as compras nos braços. O António tossia cada vez mais. Senti um aperto no peito: e se ele piorasse? E se eu perdesse o emprego por faltar outra vez?
À noite, depois de deitar os miúdos, sentei-me na varanda com uma chávena de chá barato. Olhei para as luzes da cidade ao longe e chorei baixinho. Não queria que eles me ouvissem. Senti-me sozinha como nunca.
No dia seguinte, liguei à minha avó. Ela atendeu com aquela voz cansada:
— Mariana? O que foi agora?
— Avó… o António está mesmo mal. Preciso que fiques com ele só amanhã…
— Não posso, filha. Tenho consulta no centro de saúde e depois vou ao bingo com as amigas. Tens de te desenrascar.
— Mas avó…
Ela desligou antes que eu acabasse a frase.
Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Como podiam elas virar-me as costas assim? Sabia que tinham possibilidades: a minha mãe recebe uma boa pensão do Estado e a avó tem dinheiro guardado desde sempre. Mas orgulho é coisa que nunca lhes faltou.
No trabalho, a chefe olhou-me de lado quando pedi para sair mais cedo.
— Mariana, já é a terceira vez este mês… Preciso de alguém em quem possa confiar.
Baixei os olhos e prometi que não voltaria a acontecer. Mas sabia que era mentira.
À noite, sentei-me com os meus filhos à mesa da cozinha pequena. A sopa era aguada e o pão já estava duro.
— Mãe, porque é que a avó não gosta de nós? — perguntou a Inês, baixinho.
O nó na garganta quase não me deixou responder:
— Gosta sim, filha… Só está cansada.
Ela não pareceu convencida.
Os dias passaram assim: entre pedidos negados, discussões ao telefone e noites sem dormir. O António piorou e tive de levá-lo ao hospital público. Esperei horas nas urgências enquanto ele dormia no meu colo. Olhei à volta: mães sozinhas, pais desesperados, idosos esquecidos.
Quando finalmente fomos atendidos, o médico disse:
— Ele precisa de repouso absoluto durante uns dias. Não pode ir à escola nem ficar sozinho.
Saímos do hospital já de madrugada. Liguei à minha mãe outra vez:
— Por favor… só desta vez…
Ela suspirou do outro lado:
— Mariana, tu fizeste as tuas escolhas. Agora aguenta as consequências.
Desliguei sem dizer mais nada.
No caminho para casa, pensei em tudo o que tinha feito até ali: deixei os estudos para cuidar dos meus irmãos quando o meu pai morreu; casei cedo demais com um homem que me deixou sozinha com duas crianças; aceitei empregos mal pagos porque precisava de dinheiro rápido; nunca pedi nada além de um pouco de apoio quando mais precisei.
Na escola da Inês chamaram-me para uma reunião:
— A sua filha anda distraída, Mariana. Diz que tem medo de ficar sozinha em casa.
Senti vergonha e raiva ao mesmo tempo. Como explicar à professora que faço tudo o que posso? Que acordo às cinco da manhã para limpar escritórios antes de levar os miúdos à escola? Que às vezes não como para eles terem sopa?
Nessa noite, depois de adormecerem, liguei à minha mãe uma última vez:
— Mãe… eu sei que não sou perfeita. Sei que fiz escolhas erradas. Mas são teus netos…
Ela ficou em silêncio durante uns segundos longos demais:
— Mariana… eu também estou cansada. Não tenho paciência para crianças agora.
— Mas mãe…
— Boa noite.
A linha ficou muda.
Senti um vazio tão grande dentro de mim que pensei que nunca mais ia conseguir levantar-me daquela cadeira.
No dia seguinte, fui trabalhar com os olhos inchados de chorar. A chefe chamou-me ao gabinete:
— Mariana… vamos ter de dispensar-te. Não posso continuar assim.
Saí dali sem forças para protestar. No autocarro para casa, olhei para as mãos vazias e pensei: “E agora?”.
Quando contei aos miúdos que ia estar mais tempo em casa com eles, a Inês sorriu pela primeira vez em semanas:
— Que bom! Assim já não fico sozinha!
O António abraçou-me com força:
— Gosto tanto de ti, mãe!
Chorei ali mesmo, sem vergonha desta vez.
Naquela noite, sentei-me outra vez na varanda e olhei para as estrelas escondidas pelas nuvens da cidade. Pensei em tudo o que tinha perdido: o apoio da família, o emprego, a esperança de uma vida melhor para os meus filhos.
Mas também pensei no que ainda tinha: eles dois, pequenos mas cheios de amor; a força para continuar; a certeza de que nunca lhes viraria as costas como fizeram comigo.
No fundo do peito ficou uma pergunta amarga: será justo carregar sozinha o peso dos erros dos outros? Até onde vai a responsabilidade dos pais? E quando é que começa verdadeiramente a nossa própria luta?
E vocês? Alguma vez sentiram este vazio? Até onde iriam por quem amam?