Quando o Meu Mundo Ruiu e Tive de Me Reerguer: A História de Inês e Ricardo

— Vais mesmo deixar-nos assim, Ricardo? — perguntei, com a voz embargada, enquanto segurava no braço dele à porta de casa. O cheiro do café da manhã ainda pairava no ar, misturado com o perfume dele, que eu conhecia tão bem. Os olhos do Ricardo estavam fixos no chão, como se procurasse ali uma desculpa melhor do que aquela que já me tinha dado.

— Inês, eu preciso disto. Preciso de espaço. Preciso de encontrar qualquer coisa que perdi… — respondeu ele, sem me encarar.

A nossa filha, Matilde, tinha acabado de sair para a escola. O silêncio da casa parecia gritar comigo. Quinze anos juntos. Quinze anos de amor, discussões, sonhos partilhados e contas para pagar. Conhecemo-nos na Faculdade de Letras do Porto. Eu era caloira, ele já estava no segundo ano. Vi-o pela primeira vez num sarau académico — tocava guitarra e cantava uma música dos Xutos & Pontapés. Fiquei rendida ao sorriso dele, ao jeito como olhava para mim entre refrões.

Casámo-nos cedo, talvez cedo demais para alguns. Mas éramos felizes. Ou pelo menos eu achava que sim. Tivemos a Matilde dois anos depois do casamento. A vida foi-se tornando rotina: trabalho, casa, escola, supermercado ao sábado de manhã. O Ricardo começou a queixar-se do emprego — era técnico informático numa empresa que nunca lhe deu valor. Eu dava aulas numa escola secundária e tentava equilibrar tudo.

Foi há um ano que tudo mudou. O Ricardo perdeu o emprego e começou a ficar cada vez mais calado. Passava horas no computador, dizia que estava à procura de trabalho fora do país. Eu tentava animá-lo, mas ele afastava-se cada vez mais.

— Não percebes, Inês? Aqui não há futuro! — gritava ele numa dessas noites em que discutíamos baixinho para não acordar a Matilde.

— E nós? E a nossa família? — perguntava eu, sentindo-me cada vez mais pequena.

Quando ele finalmente anunciou que tinha arranjado trabalho em França, senti um misto de alívio e medo. Alívio porque talvez as coisas melhorassem financeiramente; medo porque sabia que algo se estava a quebrar entre nós.

Os primeiros meses foram estranhos. Falávamos por videochamada quase todos os dias. A Matilde chorava muito à noite, dizia que tinha saudades do pai. Eu tentava ser forte por ela, mas chorava sozinha na casa de banho quando ela já dormia.

Com o tempo, as chamadas tornaram-se menos frequentes. O Ricardo começou a sair com colegas portugueses em Paris. Mandava fotos em restaurantes caros, sorridente, rodeado de gente nova.

— Estás diferente — disse-lhe uma noite, quando finalmente atendeu o telefone depois de três dias sem dar notícias.

— Lá fora é tudo diferente, Inês. Sinto-me vivo outra vez — respondeu ele, com uma voz que já não reconhecia.

Comecei a ouvir rumores através dos amigos em comum. Diziam que o Ricardo andava com uma francesa do trabalho. O meu coração apertou-se num nó impossível de desfazer.

— Mãe, o pai vai voltar? — perguntou-me a Matilde numa tarde chuvosa de novembro.

— Não sei, filha… — respondi-lhe, sentindo-me a falhar como mãe e como mulher.

O Natal foi um dos piores da minha vida. A mesa ficou com um lugar vazio e o silêncio pesou mais do que nunca. Os meus pais tentavam animar-me:

— Tens de ser forte pela Matilde — dizia-me a minha mãe enquanto me abraçava na cozinha.

Mas eu sentia-me sozinha no meio da multidão.

Em janeiro recebi uma mensagem do Ricardo: “Preciso de falar contigo.” O coração disparou-me no peito. Encontrámo-nos num café perto da escola onde dou aulas. Ele estava magro, cansado, mas com um brilho estranho nos olhos.

— Inês… — começou ele, hesitante — Eu… conheci alguém lá fora. Achei que era só uma aventura… mas perdi-me pelo caminho.

As lágrimas caíram-me sem pedir licença. Senti raiva, vergonha e uma tristeza tão funda que pensei que nunca mais ia conseguir respirar normalmente.

— E agora? — perguntei-lhe, quase num sussurro.

— Quero voltar para casa… Quero tentar outra vez — disse ele, com uma sinceridade que me desarmou e revoltou ao mesmo tempo.

Durante semanas não consegui dormir. Os meus amigos diziam-me para não aceitar de volta alguém que me tinha traído daquela forma. Os meus pais achavam que devia pensar na Matilde acima de tudo.

A Matilde começou a ter problemas na escola: notas a descer, birras constantes. Uma noite ouvi-a chorar baixinho no quarto:

— Queria tanto que o pai voltasse…

O Ricardo voltou para Portugal em março. Trouxe poucas malas e um olhar carregado de culpa. Tentou aproximar-se da Matilde aos poucos; ela resistiu-lhe durante semanas até finalmente ceder ao abraço dele num domingo à tarde no parque da cidade.

Entre nós dois ficou um muro invisível feito de perguntas sem resposta e mágoas antigas. Fomos à terapia de casal porque eu queria tentar perceber se ainda havia salvação para nós.

Na primeira sessão disse-lhe tudo o que me magoava:

— Senti-me invisível durante meses! Senti-me trocada por uma vida nova onde eu e a tua filha não tínhamos lugar!

Ele chorou pela primeira vez desde que voltou:

— Fui cobarde… Tive medo de ser só aquilo em que me tornei aqui…

A terapeuta perguntou-nos se ainda havia amor ou só medo da solidão. Não soube responder naquele momento.

Os meses passaram devagarinho. Fomos reconstruindo rotinas: jantares em família, passeios ao domingo, conversas longas à noite depois da Matilde adormecer. Mas nada era igual ao que tínhamos antes.

Uma noite sentei-me na varanda com um copo de vinho e olhei para as luzes da cidade:

“Será possível recomeçar depois de tanta dor? Ou estamos apenas a adiar o inevitável?”

O Ricardo aproximou-se e sentou-se ao meu lado:

— Obrigado por me dares esta segunda oportunidade…

Olhei-o nos olhos e vi ali o homem por quem me apaixonei há tantos anos atrás — mas também vi todas as cicatrizes que agora nos uniam e separavam ao mesmo tempo.

Hoje ainda não sei se esta pausa foi o início da nossa nova viagem feliz ou apenas mais um capítulo antes do fim definitivo. Mas aprendi que o amor não é feito só de promessas bonitas; é feito de escolhas difíceis todos os dias.

E vocês? Acham mesmo possível perdoar quem nos magoou tanto? Ou há feridas que nunca saram completamente?