Mãe, tu saltaste um capítulo! – Uma história de sogra, nora e o silêncio que dói

— Mãe, tu saltaste um capítulo! — gritou a Joana da cozinha, com a voz embargada entre o cansaço e a irritação. Eu estava sentada à mesa da sala, a olhar para o vazio, com o livro de receitas aberto nas mãos. O cheiro do refogado enchia a casa, mas não conseguia sentir fome. O meu filho, o meu querido Rui, estava no quarto ao telefone, alheio à tensão que se acumulava entre mim e a sua mulher.

A Joana entrou na sala, limpando as mãos ao avental. Tinha os olhos vermelhos, talvez da cebola, talvez de chorar. — Eu pedi-te para me ajudares com o arroz de pato, não para te perderes nos teus pensamentos — disse ela, num tom que tentava ser calmo mas soava sempre como uma acusação.

Senti uma pontada no peito. Desde que o Rui se casou com a Joana, há dois anos, tudo mudou. A casa já não era minha. Os quadros que escolhi com tanto carinho foram trocados por fotografias modernas e frases inspiradoras em inglês. O cheiro do café forte de manhã foi substituído por chá verde e pão sem glúten. Até o silêncio era diferente: antes era confortável, agora era pesado.

Levantei-me devagar e fui até à cozinha. — Desculpa, Joana. Estava distraída. — Tentei sorrir, mas ela desviou o olhar.

— Não faz mal — respondeu ela, mexendo o arroz com força desnecessária. — Só queria que as coisas corressem bem hoje. Os teus irmãos vêm jantar e eu queria que tudo estivesse perfeito.

Os meus irmãos… Era sempre assim: quando havia visitas, a Joana queria mostrar que era uma excelente dona de casa. Eu sentia-me inútil, como um móvel antigo que ninguém tem coragem de deitar fora.

O Rui apareceu à porta da cozinha. — Está tudo bem aqui? — perguntou, olhando de mim para a Joana.

— Está tudo ótimo — disse ela, forçando um sorriso. — A tua mãe está cansada, só isso.

Ele aproximou-se de mim e pousou a mão no meu ombro. — Mãe, vai descansar um bocadinho. Eu ajudo a Joana.

Senti-me ainda mais pequena. Fui até ao meu quarto e fechei a porta devagar. Sentei-me na cama e olhei para as fotografias antigas na cómoda: eu e o Rui na praia da Nazaré, ele em pequeno com os joelhos esfolados, eu e o António no nosso casamento… O António partiu cedo demais. Fiquei sozinha com o Rui e dediquei-lhe tudo: tempo, amor, sacrifício. Agora sentia que tinha perdido o meu lugar.

Ouvi risos vindos da cozinha. A Joana e o Rui falavam baixo, cúmplices. Senti inveja daquela intimidade. Lembrei-me das vezes em que eu e o António cozinhávamos juntos ao domingo; ele cortava os legumes enquanto eu preparava o arroz. Ríamos das asneiras do Rui, das suas perguntas sem fim.

O jantar correu tenso. Os meus irmãos tentavam animar a conversa, mas havia sempre um silêncio estranho quando alguém me dirigia uma pergunta. A Joana respondia por mim ou mudava de assunto rapidamente.

Depois do jantar, enquanto arrumava a loiça sozinha na cozinha — porque agora era assim: eu arrumava sozinha — ouvi a Joana falar baixinho ao Rui na sala:

— A tua mãe está cada vez mais esquecida… Não sei se é da idade ou se faz de propósito.

Senti as lágrimas a subir-me aos olhos. Não queria chorar ali, mas não consegui evitar. Lavei os pratos devagar, tentando abafar os soluços com o barulho da água.

Naquela noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto escuro do quarto, a pensar em tudo o que tinha feito pela família. Será que tinha sido demasiado protetora? Será que devia ter deixado o Rui voar mais cedo? Agora ele era um homem feito, com uma mulher forte ao lado — uma mulher que não precisava de mim.

No dia seguinte acordei cedo e fui ao mercado da vila. Gosto daquele cheiro a fruta fresca e peixe acabado de chegar. A D. Emília cumprimentou-me com um sorriso:

— Então Maria do Carmo, como vai isso lá por casa?

Sorri sem vontade. — Vai-se andando…

Ela olhou-me nos olhos e baixou a voz: — Não te deixes ir abaixo, minha querida. Os filhos crescem e esquecem-se das mães… Mas nós temos de continuar.

Aquelas palavras ficaram comigo todo o dia. Quando voltei para casa, encontrei a Joana sentada à mesa da cozinha com um caderno aberto à frente.

— Maria do Carmo… — disse ela sem levantar os olhos — Preciso de falar contigo.

Sentei-me em frente dela, sentindo um nó no estômago.

— Eu sei que isto não é fácil para ti… Mas também não é para mim — começou ela, mexendo nervosamente numa caneta. — Sinto que estás sempre a julgar-me… Que nunca faço nada bem aos teus olhos.

Fiquei surpreendida. Nunca pensei que ela sentisse isso.

— Joana… Eu só quero ajudar. Só quero sentir-me útil nesta casa…

Ela suspirou. — Eu sei… Mas às vezes sinto que invades o nosso espaço. O Rui é meu marido agora… Preciso de construir a minha família com ele.

As palavras dela doeram mais do que qualquer silêncio. Senti-me rejeitada na minha própria casa.

— Não quero ser um peso para vocês… Só queria sentir que ainda faço parte disto tudo.

Ela olhou para mim finalmente, com lágrimas nos olhos. — Fazes parte… Só precisamos de encontrar um novo equilíbrio.

Nesse momento percebi que não era só eu que sofria com esta mudança; ela também lutava para encontrar o seu lugar.

Nos dias seguintes tentei afastar-me um pouco mais das rotinas deles: deixei de preparar o pequeno-almoço todos os dias, comecei a sair mais vezes para passear ou visitar amigas antigas. Mas sentia falta do barulho da casa cheia, das conversas à mesa, dos risos do Rui em criança.

Uma tarde encontrei-o na sala a ver fotografias antigas no telemóvel.

— Lembras-te disto? — perguntou ele, mostrando uma foto nossa na Serra da Estrela cobertos de neve.

Sorri pela primeira vez em semanas. — Lembro… Tu choraste porque tinhas frio nos pés e eu dei-te as minhas meias.

Ele riu-se. — Sempre cuidaste demasiado de mim… Talvez por isso agora seja tão difícil para ti deixar-me ir.

Assenti em silêncio.

— Mãe… Quero que saibas que és insubstituível para mim. Mas preciso de crescer ao lado da Joana também.

Abracei-o com força, sentindo finalmente que podia começar a aceitar esta nova fase da vida.

Hoje continuo a sentir saudades do passado; há dias em que me sinto invisível nesta casa onde já fui rainha. Mas aprendi que o amor também é saber afastar-se quando é preciso, dar espaço aos outros para crescerem e encontrarem o seu caminho.

Às vezes pergunto-me: será este o destino de todas as mães? Dedicarmo-nos tanto até nos tornarmos estranhas no nosso próprio lar? Ou será possível encontrar um novo papel sem perder quem somos?

E vocês? Já sentiram esta solidão silenciosa dentro da vossa própria família?