A Casa Onde a Felicidade Não Mora – A História de Uma Família Portuguesa à Beira do Abismo
— Não grites comigo, mãe! — A voz da Mariana ecoou pela casa, atravessando as paredes finas do nosso velho apartamento em Almada. Senti o peito apertar, como se cada palavra dela fosse uma pedra atirada contra mim. Eu, que sempre quis ser uma mãe compreensiva, agora era apenas mais uma figura autoritária aos olhos da minha filha. O relógio marcava quase meia-noite e a tempestade lá fora parecia querer entrar pela janela da sala.
“Como chegámos aqui?”, pensei, enquanto via o olhar magoado do meu marido, António, sentado no sofá, calado, com os olhos fixos no chão. O silêncio dele era mais ensurdecedor do que qualquer discussão. O nosso casamento, outrora feito de promessas sussurradas ao ouvido nas noites quentes de verão, agora era um campo minado de ressentimentos e palavras não ditas.
— Mariana, não é assim que falas à tua mãe — tentou António, mas a voz saiu-lhe fraca, quase um sussurro. Mariana revirou os olhos e bateu com a porta do quarto. O som seco ressoou no meu peito como um tiro.
Sentei-me à mesa da cozinha, as mãos a tremerem. Lembrei-me de quando éramos felizes. Quando comprámos esta casa, ainda cheirava a tinta fresca e esperança. Eu estava grávida da Mariana e o António fazia planos para o jardim que nunca chegámos a plantar. Ríamos muito nessa altura. Agora, mal nos olhávamos nos olhos.
A minha mãe dizia sempre: “Filha, casamento é trabalho diário.” Mas ninguém me avisou que às vezes esse trabalho é como remar contra a maré, sem nunca ver terra à vista.
O António levantou-se e veio ter comigo. Sentou-se ao meu lado, mas não me tocou. Entre nós havia uma distância invisível, feita de mágoas acumuladas ao longo dos anos.
— Achas que estamos a falhar como pais? — perguntei-lhe, a voz embargada.
Ele suspirou, passou as mãos pelo cabelo grisalho.
— Não sei… Talvez seja só uma fase. A Mariana está naquela idade…
Mas eu sabia que não era só isso. O problema não era só a adolescência da Mariana ou as notas baixas do Miguel, o nosso filho mais novo, que se fechava cada vez mais no mundo dos videojogos. O problema era o cansaço. O António trabalhava horas intermináveis como motorista de autocarro e eu fazia limpezas em casas alheias para pagar as contas. Quando chegávamos a casa, já não tínhamos energia para conversar, quanto mais para amar.
Naquela noite, depois de todos se recolherem aos quartos, fiquei sozinha na cozinha. Ouvi a chuva bater na janela e chorei baixinho. Senti-me tão pequena, tão impotente perante o desmoronar da minha família.
No dia seguinte, acordei cedo para preparar os pequenos-almoços. O cheiro do café fresco misturava-se com o aroma das torradas queimadas — mais uma manhã igual a tantas outras. Mariana saiu sem dizer nada; Miguel nem sequer levantou os olhos do telemóvel.
No trabalho, enquanto esfregava o chão da casa da Dona Emília, ouvi-a comentar com a vizinha:
— Hoje em dia os miúdos não respeitam ninguém…
Senti um nó na garganta. Será que falhei mesmo como mãe? Será que devia ter sido mais dura? Ou talvez mais carinhosa?
À noite, tentei falar com o António sobre procurar ajuda — talvez uma terapia familiar. Ele abanou a cabeça.
— Não precisamos dessas coisas… Só precisamos de tempo.
Mas o tempo era precisamente aquilo que não tínhamos. Cada dia parecia afastar-nos mais uns dos outros.
Uma semana depois, tudo explodiu. Mariana chegou tarde a casa, com os olhos vermelhos e cheiro a álcool. O António perdeu o controlo:
— Achas que isto é vida? Achas que podes fazer o que te apetece?
— Tu nunca estás cá! — gritou ela de volta. — Só sabes trabalhar e gritar!
Miguel fugiu para o quarto e eu tentei acalmar os ânimos, mas ninguém me ouvia. Senti-me invisível.
Nessa noite, depois de todos adormecerem — ou fingirem dormir — fui até à varanda e deixei-me ficar ali, sentindo o vento frio no rosto. Pensei em fugir. Pensei em deixar tudo para trás e começar de novo noutro lugar qualquer. Mas depois lembrei-me dos risos antigos, das festas de aniversário improvisadas na sala pequena, das noites em que adormecíamos todos juntos no sofá depois de ver um filme.
No dia seguinte, tomei uma decisão: não ia desistir da minha família.
Comecei por pequenas coisas — deixei bilhetes carinhosos na lancheira da Mariana; convidei o Miguel para cozinhar comigo; tentei conversar com o António sobre os nossos sonhos antigos. No início, ninguém parecia notar ou ligar.
Mas aos poucos, algo mudou. Uma noite, Mariana sentou-se ao meu lado na cozinha e chorou baixinho:
— Desculpa, mãe… Eu só queria que tudo fosse como antes.
Abracei-a com força.
— Também eu, filha… Também eu.
O António começou a chegar mais cedo a casa; Miguel largou um pouco o telemóvel para jogar às cartas connosco depois do jantar.
Não foi fácil nem rápido. Ainda discutimos muito; ainda há silêncios pesados à mesa. Mas sinto que estamos a tentar — juntos.
Agora escrevo estas palavras numa noite calma, ouvindo a chuva lá fora e o riso tímido dos meus filhos no quarto ao lado. Sei que nunca voltaremos a ser aquela família perfeita dos meus sonhos. Mas talvez possamos ser algo novo — algo verdadeiro.
Pergunto-me: quantas famílias vivem assim, presas entre o passado e o medo do futuro? E será que temos coragem de lutar por aquilo que realmente importa?