A Casa que Despedaçou a Minha Família – A História de Ana de Braga
— Ana, não faças essa cara. Eu não tive escolha! — gritou o Rui, com as mãos a tremerem enquanto segurava o contrato.
Olhei para ele, sentada no sofá da sala, o coração a bater tão forte que parecia querer saltar-me do peito. O nosso filho, o Tiago, dormia no quarto ao lado, alheio à tempestade que se abatia sobre a nossa casa.
— Não tiveste escolha? Rui, gastaste todas as nossas poupanças! Tudo o que juntámos em dez anos! — A minha voz saiu num sussurro rouco, entre a raiva e a incredulidade. — E para quê? Para comprares uma casa para a tua mãe? Sem me dizeres nada?
Ele desviou o olhar, envergonhado. — Ela não tinha para onde ir, Ana. O senhorio ia despejá-la. Eu… eu não podia deixá-la na rua.
— E nós? Pensaste em nós? No Tiago? — Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. — Achas justo? Achas normal esconderes-me isto?
O silêncio caiu pesado entre nós. Só se ouvia o tic-tac do relógio da cozinha e a chuva a bater nas janelas. Lembrei-me de todas as noites em que ficámos acordados a sonhar com uma casa maior, um jardim para o Tiago brincar, talvez até um cão. Agora tudo isso tinha desaparecido num instante.
— Ana… — tentou ele aproximar-se, mas recuei.
— Não! Não me toques. Preciso de pensar.
Fechei-me na casa de banho e deixei-me deslizar até ao chão frio. O meu corpo tremia todo. Como é que ele pôde fazer isto? Sempre soube que a Dona Lurdes era importante para ele, mas nunca pensei que me trocasse assim. Senti-me traída não só por ele, mas também por ela. Quantas vezes me olhou nos olhos sabendo disto?
Na manhã seguinte, acordei com o som de vozes baixas na cozinha. O Tiago já estava acordado e ouvi-o perguntar:
— Mãe, porque é que estás triste?
Ajoelhei-me à frente dele e abracei-o com força. — Às vezes os adultos fazem coisas difíceis de entender, meu amor.
O Rui entrou na sala com os olhos vermelhos. — Ana, precisamos de conversar.
— Não há mais nada para dizer — respondi, fria. — Já tomaste as tuas decisões.
Ele tentou justificar-se, mas cada palavra dele era como uma faca a cortar-me por dentro. Senti-me sozinha naquela casa que já não era minha. Os dias seguintes foram um tormento: discussões baixas para o Tiago não ouvir, olhares vazios à mesa do jantar, noites em claro a pensar no futuro.
A Dona Lurdes ligava todos os dias. “Rui, já trataste dos papéis? Quando posso mudar-me?” Eu ouvia tudo da porta da cozinha. Nunca me pediu desculpa. Nunca me perguntou como eu estava.
O meu pai percebeu logo que algo não estava bem. Um domingo à tarde apareceu cá em casa sem avisar.
— Ana, filha… O que se passa?
Desabei nos braços dele como uma criança. Contei-lhe tudo entre soluços. Ele ficou calado durante muito tempo e depois disse:
— Tens de pensar em ti e no Tiago. Não podes viver assim.
Naquela noite tomei uma decisão. Arrumei algumas roupas minhas e do Tiago numa mala e fui para casa dos meus pais. O Rui ficou parado à porta, sem saber o que dizer.
— Vais mesmo deixar-me? — perguntou ele, quase num sussurro.
— Não foste tu que me deixaste primeiro?
Os meses seguintes foram um inferno emocional. O Tiago perguntava pelo pai todos os dias. Eu tentava ser forte por ele, mas sentia-me vazia por dentro. Os meus pais ajudaram-me como puderam, mas eu sabia que não podia ficar ali para sempre.
Comecei a procurar trabalho extra para conseguir pagar um apartamento pequeno só para mim e para o Tiago. As noites eram longas e solitárias. Às vezes chorava até adormecer. Outras vezes sentia raiva de mim própria por ainda amar o Rui apesar de tudo.
Um dia, ao ir buscar o Tiago à escola, encontrei a Dona Lurdes à porta do prédio novo onde ela agora morava.
— Ana… — disse ela, com um ar quase arrependido.
— Não vale a pena — respondi eu, fria. — Espero que esteja feliz na sua nova casa.
Ela baixou os olhos e murmurou: — O Rui está a sofrer muito…
— Ele fez as escolhas dele — cortei eu, sentindo uma pontada de dor no peito.
O tempo passou devagar. Fui reconstruindo a minha vida aos poucos: arranjei um emprego melhor num escritório de advogados em Braga, consegui alugar um T2 modesto e comecei a sair com colegas do trabalho. O Tiago adaptou-se bem à nova escola e fez amigos rapidamente.
O Rui ligava de vez em quando para falar com o filho. As conversas eram sempre tensas e curtas comigo. Nunca mais falou sobre o que aconteceu naquela noite fatídica.
Um dia recebi uma carta dele:
“Ana,
Sei que errei contigo e com o Tiago. Não sei se algum dia vais conseguir perdoar-me, mas quero que saibas que nunca deixei de vos amar. Fiz tudo pela minha mãe porque achei que era o certo, mas perdi a minha família no processo. Espero que um dia consigas entender-me.
Rui”
Li aquela carta dezenas de vezes. Chorei muito nesse dia. Mas percebi finalmente que não podia viver presa ao passado.
Hoje olho para trás e vejo tudo com outros olhos. Aprendi que uma casa não são paredes nem telhados; é feita das pessoas que estão dispostas a lutar umas pelas outras. O Rui escolheu outro caminho e eu precisei de encontrar o meu.
Às vezes pergunto-me: quantas famílias se destroem por causa de escolhas mal explicadas ou prioridades trocadas? Será possível reconstruir a confiança depois de uma traição destas? Gostava de saber o que vocês fariam no meu lugar.