Tudo o que é teu, fica contigo: A minha luta por casa, família e verdade
— Não podes ficar com tudo, Mariana! Não és a única filha dos teus pais! — O grito da minha tia Lurdes ecoou pela sala, misturando-se com o cheiro a café frio e lágrimas secas. Eu estava sentada à mesa da cozinha da casa dos meus pais, aquela onde tantas vezes partilhámos risos e discussões banais. Agora, era palco de uma guerra silenciosa, onde cada palavra era uma faca.
O meu irmão, o João, olhava para o chão, incapaz de me encarar. Os meus primos, que mal apareciam nos Natais, estavam ali, de braços cruzados, olhos ávidos. O testamento dos meus pais era claro: a casa ficava para mim, única filha que nunca saiu do Ribatejo, que cuidou deles até ao fim. Mas a família não aceitava.
— A mãe e o pai sempre disseram que esta casa era para todos — murmurou o João, finalmente levantando os olhos. Vi neles uma mistura de mágoa e cobiça. — Não é justo.
Senti o peito apertar. O eco das palavras dos meus pais ressoava-me na cabeça: “Mariana, esta casa é tua. Só tu sabes cuidar dela.” Mas agora, perante aquela assembleia de rostos familiares e estranhos ao mesmo tempo, duvidei de tudo.
A morte deles foi um golpe seco. Um acidente de carro numa manhã de nevoeiro. Fiquei sozinha num instante. O funeral foi um desfile de abraços forçados e promessas vazias. Só depois veio o verdadeiro luto: a luta pela casa.
— Não quero dinheiro — disse eu, tentando manter a voz firme. — Só quero ficar aqui. Vocês têm as vossas vidas em Lisboa, no Porto… Eu nunca pedi nada.
A tia Lurdes bufou.
— Pois, mas agora queres tudo para ti! Achas que és melhor do que nós? Sempre foste a menina dos papás!
O silêncio caiu pesado. Senti as lágrimas ameaçarem-me os olhos, mas não lhes dei esse gosto. Levantei-me e fui até à janela. Lá fora, o campo estendia-se até ao Tejo, as vinhas dos meus avós ainda verdes apesar do outono. Era ali que eu pertencia. Mas será que pertencia mesmo?
Os dias seguintes foram um pesadelo burocrático e emocional. Os meus tios ameaçaram contestar o testamento. O João deixou de me falar. Os vizinhos começaram a cochichar: “A Mariana ficou com tudo…”, “Coitada, sozinha naquela casa grande…”, “Dizem que a família vai levar aquilo a tribunal.”
À noite, sentava-me na sala escura e ouvia os sons da casa: o ranger das madeiras antigas, o vento a bater nas portadas. Sentia os meus pais ali comigo, mas também sentia o peso da culpa. Será que estava a ser egoísta? Será que devia ceder?
Uma tarde, enquanto limpava o pó das fotografias antigas, encontrei uma carta da minha mãe escondida entre os livros.
“Minha Mariana,
Se estás a ler isto é porque já não estou aí para te abraçar. Sei que vai ser difícil. Sei como a família pode ser cruel quando se trata de heranças. Mas lembra-te: esta casa é mais do que paredes e telhado. É onde está o nosso amor, as nossas memórias. Protege-a, mas não te percas nela.”
Chorei como há muito não chorava. A carta deu-me forças para enfrentar o que vinha aí.
O processo arrastou-se meses. Os meus tios tentaram tudo: alegaram incapacidade dos meus pais ao fazerem o testamento, disseram que eu os tinha manipulado. Chegaram a aparecer cá em casa com um advogado arrogante e ameaçador.
— Mariana, se fores sensata, vendes a casa e dividimos tudo — disse ele, com um sorriso frio.
— Esta casa não está à venda — respondi-lhe, com uma firmeza que nem sabia ter.
A aldeia dividiu-se. Uns apoiavam-me; outros diziam que devia ceder para evitar escândalos. O João afastou-se cada vez mais. Senti-me traída por todos.
Houve noites em que pensei em desistir. Em fazer as malas e ir embora para Lisboa, começar do zero. Mas depois lembrava-me das mãos da minha mãe a amassar pão na cozinha, do meu pai a podar as videiras ao nascer do sol. Aquela casa era tudo o que restava deles.
No tribunal, vi os rostos fechados da minha família do outro lado da sala. O juiz leu o testamento em voz alta. O advogado deles tentou descredibilizar-me:
— A Mariana sempre foi dependente dos pais… Nunca trabalhou fora da aldeia… Não tem condições para manter uma propriedade destas…
Senti as lágrimas subirem-me aos olhos outra vez, mas lembrei-me da carta da minha mãe.
— Eu posso não ter muito — disse ao juiz — mas tenho amor por esta casa e por quem aqui viveu. Não quero dinheiro nenhum. Só quero manter viva a memória dos meus pais.
O juiz deu-me razão. A casa ficou para mim.
Mas a vitória soube-me amarga. O João nunca mais me falou. Os tios cortaram relações comigo. Passei o primeiro Natal sozinha naquela sala enorme, com um prato vazio à mesa para cada membro da família ausente.
Com o tempo, fui reconstruindo a minha vida ali. Abri uma pequena casa de turismo rural para pagar as contas e manter a propriedade viva. Fiz novos amigos entre os vizinhos mais velhos e os turistas curiosos.
Mas há noites em que me sento à lareira e pergunto-me: valeu mesmo a pena? Ganhei uma casa mas perdi uma família. O que é mais importante? O sangue ou as raízes?
E vocês? O que fariam no meu lugar? Até onde iriam para proteger aquilo que vos pertence?