Não Consegui Contar à Mãe Dele a Verdade Por Ele: Viver com o Filho da Mamã

— Inês, não te esqueças que amanhã é o jantar de aniversário da minha mãe. Ela faz questão que tragas aquele bolo de laranja que só tu sabes fazer. — A voz do Miguel ecoava pela cozinha, mas eu mal conseguia ouvir. O bolo, o jantar, a mãe dele… tudo se misturava na minha cabeça como uma massa pesada, difícil de mexer.

A verdade é que eu já não sabia onde acabava a minha vida e começava a da Dona Teresa. Desde o dia em que casei com o Miguel, percebi que não era só ele que vinha no pacote. A mãe dele era presença constante: telefonemas diários, visitas inesperadas, opiniões sobre tudo — desde a cor das cortinas até à frequência com que devíamos tentar ter filhos.

— Inês, querida, já pensaram em consultar outro médico? — perguntava ela, sempre com aquele tom doce que escondia uma faca afiada. — O Miguel merece ser pai. E tu também mereces sentir essa alegria.

Eu sorria, apertando os dentes até doerem. O Miguel, sentado ao meu lado, olhava para o chão. Nunca dizia nada. Nunca me defendia. Era como se a voz da mãe dele tivesse mais peso do que a minha existência.

As noites eram as piores. Deitávamo-nos em silêncio, cada um virado para o seu lado. Eu chorava baixinho, para ele não ouvir. Mas sabia que ele ouvia. Sentia-o tenso, imóvel, como se estivesse à espera que eu dissesse alguma coisa — ou talvez que me calasse para sempre.

O diagnóstico tinha sido claro: Miguel era infértil. Mas ele nunca teve coragem de contar à mãe. Em vez disso, deixou que ela pensasse que o problema era meu. E eu… calei-me. Por amor? Por medo? Ou por pura exaustão?

— Inês, tens de compreender… — dizia ele, numa noite em que finalmente tentei falar sobre o assunto. — A minha mãe não aguentava saber isto. Ela sempre sonhou com netos. Não lhe podes tirar esse sonho.

— E eu? — perguntei, com a voz embargada. — E o meu sonho? O meu direito à verdade?

Ele não respondeu. Levantou-se da cama e foi dormir para o sofá.

Os meses passaram e a pressão aumentou. Dona Teresa começou a aparecer em nossa casa sem avisar, trazendo chás milagrosos e conselhos de vizinhas. Uma vez entrou no nosso quarto sem bater, encontrou-me sentada na cama a chorar e disse:

— Não te preocupes, filha. Há mulheres que demoram mais tempo… mas tens de ter fé! O Miguel merece ser pai.

Aquela frase ficou-me cravada no peito como uma farpa. O Miguel merece ser pai. E eu? Eu merecia ser mulher? Mãe? Ou apenas um útero à espera de cumprir uma função?

Comecei a evitar os jantares de família. Inventava desculpas: trabalho, dores de cabeça, enxaquecas súbitas. O Miguel ia sozinho e voltava tarde, cheirando ao perfume da mãe dele e ao vinho barato dos almoços prolongados.

Uma noite, depois de mais uma discussão silenciosa, sentei-me na varanda com um copo de vinho e liguei à minha mãe.

— Filha, tu não podes continuar assim — disse ela, com aquela voz cansada de quem já viu demasiado sofrimento no mundo. — Tens de te impor. Ou vais desaparecer.

Mas como é que se impõe alguém contra uma muralha como Dona Teresa? Como é que se diz a verdade quando o próprio marido prefere viver na mentira?

O ponto de rutura chegou numa tarde de domingo. Estávamos todos sentados à mesa: eu, o Miguel, Dona Teresa e o irmão dele, Rui, com a mulher e os filhos pequenos. Entre garfadas de bacalhau e risos forçados, Dona Teresa lançou:

— Inês, já pensaste em fazer aqueles tratamentos caros? Eu posso ajudar com algum dinheiro…

O Rui olhou para mim com pena. A mulher dele desviou o olhar. O Miguel ficou vermelho como um tomate.

— Mãe… — começou ele.

Mas ela não deixou terminar:

— Não me digas que não tentas tudo pelo meu filho! Ele merece ser pai!

Foi aí que perdi o controlo.

— CHEGA! — gritei, batendo com a mão na mesa. Todos ficaram em silêncio. Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, mas não me importei.

— Chega desta pressão! Chega destas insinuações! Eu não sou menos mulher por não conseguir engravidar! E se há alguém aqui que devia falar… não sou eu!

O silêncio foi absoluto. O Miguel olhava para mim como se eu fosse uma estranha. Dona Teresa ficou branca como a toalha da mesa.

Levantei-me e saí da sala antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa.

Nessa noite dormi em casa da minha mãe. Chorei até adormecer nos braços dela, como quando era criança e tinha medo do escuro.

No dia seguinte, o Miguel apareceu à porta da minha mãe.

— Inês… precisamos de falar.

Olhei para ele e vi um homem pequeno, encolhido dentro do próprio medo.

— Não posso continuar assim — disse-lhe. — Ou contas a verdade à tua mãe ou eu vou embora.

Ele chorou pela primeira vez desde que nos conhecíamos. Chorou como uma criança perdida.

— Não consigo… — sussurrou.

E foi aí que percebi: nunca iria conseguir. Porque há pessoas que nunca cortam o cordão umbilical. Porque há homens que preferem perder tudo a enfrentar a verdade.

Arrumei as minhas coisas e voltei para casa da minha mãe. Os dias seguintes foram um nevoeiro denso: telefonemas do Miguel, mensagens da Dona Teresa (umas vezes doces, outras vezes cheias de veneno), silêncios pesados como chumbo.

Nunca mais voltei àquela casa. Nunca mais fiz bolos de laranja para aniversários forçados.

Hoje vivo sozinha num pequeno apartamento em Lisboa. Às vezes acordo a meio da noite com saudades do tempo em que acreditava no amor incondicional. Outras vezes sinto-me livre como nunca antes.

Mas há perguntas que me perseguem:

Será que fiz bem em ir embora? Quantas mulheres vivem presas ao silêncio dos outros? E vocês… até onde iriam por amor?