Quando o coração não sabe perdoar: A minha fuga com o meu bebé e a luta por mim mesma
— Não podes simplesmente ir embora, Marta! — gritou o Rui, com os olhos vermelhos de raiva e cansaço, enquanto eu tentava enfiar à pressa as roupinhas do Tomás numa mochila velha.
O choro do meu filho ecoava pelo corredor, misturando-se com o som abafado da chuva a bater nas janelas. O cheiro a café frio e a roupa por lavar pairava no ar, como se a casa inteira estivesse suspensa no tempo, à espera de uma decisão que eu já tinha tomado há semanas, talvez meses.
“Não posso mais”, repeti para mim mesma, sentindo as mãos a tremer. O Rui aproximou-se, mas não me tocou. Já não me tocava há tanto tempo. Entre nós só restava o vazio, um abismo feito de silêncios, discussões sussurradas para não acordar o Tomás, e olhares que evitavam encontrar-se.
— Marta, pensa no nosso filho. Vais mesmo levá-lo assim? — O tom dele era mais de acusação do que de preocupação.
Olhei para o Tomás, tão pequeno e indefeso no berço improvisado na sala. O meu coração apertou-se. Não era justo para ele crescer num ambiente onde o amor se tinha transformado em gelo.
— Estou a pensar nele, Rui. É por isso que vou embora — respondi, com a voz embargada.
Ele virou costas, murmurando algo que não consegui perceber. Senti uma lágrima escorrer-me pela face, mas limpei-a rapidamente. Não queria que ele visse a minha dor. Não queria dar-lhe esse poder.
A nossa história começou como tantas outras: dois jovens apaixonados, cheios de sonhos e promessas. Conhecemo-nos numa festa da faculdade em Coimbra, rimos até às lágrimas e jurámos nunca deixar que a rotina nos separasse. Mas a vida não é feita de juras; é feita de dias iguais, contas para pagar e noites em claro com um bebé que não dorme.
Depois do nascimento do Tomás, tudo mudou. O Rui mergulhou no trabalho, dizia que era para nos dar uma vida melhor. Eu fiquei sozinha em casa, rodeada de fraldas sujas e dúvidas. Sentia-me invisível. Quando ele chegava, mal olhava para mim ou para o nosso filho. As conversas resumiam-se a perguntas práticas: “Já pagaste a luz? O Tomás comeu bem?” Nunca mais ouvi um “gosto de ti” ou um simples “como estás?”.
A solidão foi crescendo dentro de mim como uma erva daninha. Tentei falar com ele tantas vezes…
— Rui, precisamos de conversar — disse-lhe numa noite, enquanto embalava o Tomás.
— Agora não, Marta. Estou cansado — respondeu sem sequer levantar os olhos do telemóvel.
Comecei a duvidar de mim própria. Será que estava a exagerar? Será que todas as famílias eram assim? A minha mãe dizia-me para ter paciência: “Os homens são todos iguais, filha. Aguenta mais um pouco.” Mas eu sabia que não era só cansaço ou rotina. Era indiferença. Era ausência.
A gota de água foi naquela tarde em que cheguei a casa depois de ir ao centro de saúde com o Tomás — ele tinha febre alta e eu estava assustada. Liguei ao Rui várias vezes; ele não atendeu nenhuma. Quando finalmente chegou a casa, contei-lhe o que se tinha passado.
— E então? Já passou? — perguntou, sem emoção.
— Rui… eu estive sozinha no hospital com o nosso filho! Precisei de ti!
Ele encolheu os ombros e foi tomar banho. Senti-me tão pequena naquele momento… Como se tudo aquilo fosse só meu problema.
Nessa noite, sentei-me no chão da cozinha e chorei baixinho para não acordar o Tomás. Foi aí que decidi: não podia continuar ali. Não podia deixar que o meu filho crescesse a achar que o amor era isto — ausência e frieza.
Comecei a planear a minha saída em segredo. Falei com a minha irmã, Inês, que vivia em Aveiro:
— Inês, preciso de ajuda… Não aguento mais — confessei-lhe ao telefone.
Ela não hesitou:
— Vem para cá, Marta. Eu arranjo-te um quarto e ajudo-te com o Tomás.
Durante dias vivi num estado de ansiedade constante, sempre à espera do momento certo para sair. Tinha medo da reação do Rui, medo do julgamento da família dele — sempre tão tradicional — e até da minha própria mãe, que nunca aceitaria ver uma filha separada.
Na manhã em que finalmente saí de casa, chovia torrencialmente. O Rui tinha saído cedo para trabalhar; aproveitei aquele silêncio para arrumar as poucas coisas essenciais numa mala pequena. Peguei no Tomás ao colo e olhei uma última vez para aquela casa onde fui feliz e infeliz em igual medida.
No comboio para Aveiro, sentada junto à janela embaciada pela chuva, senti uma mistura de alívio e culpa. O Tomás dormia tranquilo no meu colo; eu chorava baixinho, tentando não chamar a atenção dos outros passageiros.
A chegada à casa da Inês foi um bálsamo. Ela abraçou-me forte e deixou-me chorar tudo o que tinha guardado durante meses.
— Vais conseguir recomeçar — sussurrou-me ao ouvido.
Os primeiros dias foram difíceis. O Tomás estranhou o novo ambiente; chorava muito e eu sentia-me perdida sem rotina nem certezas. A minha mãe ligava todos os dias:
— Marta, volta para casa do teu marido! Pensa no teu filho! O que vão dizer as vizinhas?
Eu desligava sempre antes de começar a chorar outra vez.
A família do Rui também não facilitou:
— És egoísta! — acusou-me a sogra numa mensagem fria. — Estás a destruir uma família por um capricho.
Mas eu sabia que não era capricho nenhum. Era sobrevivência.
Procurei apoio num grupo de mães solteiras na internet; ali encontrei mulheres com histórias parecidas com a minha. Partilhávamos medos, dúvidas e pequenas vitórias diárias: conseguir dormir três horas seguidas; arranjar um emprego part-time numa loja; ouvir o primeiro sorriso do bebé depois de uma noite difícil.
O Rui ligou-me algumas vezes nas primeiras semanas:
— Marta… volta para casa. Eu posso mudar — dizia ele com voz cansada.
Mas eu já não acreditava nessas promessas vazias. O amor não se pede; sente-se ou não se sente.
Com o tempo fui reconstruindo a minha vida aos poucos. Arranjei trabalho numa pastelaria perto da escola da Inês; deixava o Tomás com ela durante as manhãs e ia buscá-lo ao almoço. As noites continuavam solitárias, mas já não eram sufocantes — havia esperança misturada com o medo.
Um dia encontrei uma carta da minha mãe na caixa do correio:
“Filha,
Sei que estás magoada comigo por te ter pedido para voltares atrás na tua decisão. Mas quero que saibas que te amo e que estou aqui para ti sempre que precisares.
Com amor,
Mãe”
Chorei ao ler aquelas palavras. Percebi que todos estávamos a aprender a viver com as nossas escolhas — mesmo quando elas nos partem o coração.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente daquela que saiu de casa numa manhã de chuva com um bebé nos braços. Sou mais forte porque tive coragem de escolher o difícil em vez do confortável; porque aprendi que amar também é saber partir quando já não há caminho possível juntos.
Às vezes pergunto-me se algum dia conseguirei perdoar o Rui — ou até perdoar-me a mim própria por ter desistido tão cedo. Mas talvez perdoar seja isto: aceitar que fizemos o melhor que sabíamos naquele momento.
E tu? Já tiveste de escolher entre partir ou ficar? Como encontraste forças para seguir em frente?