Não consegui salvá-lo – a história de uma mãe que perdeu o filho num trágico acidente
— Tomás, espera! Não corras para a rua! — gritei, mas o som da minha voz perdeu-se no ar, abafado pelo estrondo dos travões e pelo grito do metal a rasgar o silêncio da tarde. O tempo parou. Senti o coração a cair-me aos pés, as pernas a fraquejar. Corri, tropeçando nos próprios pés, e vi o corpo pequeno do meu filho estendido no alcatrão, os olhos fechados, o sangue a manchar-lhe a t-shirt azul com dinossauros.
Nunca pensei que um dia comum pudesse transformar-se num pesadelo tão absoluto. Era uma terça-feira como tantas outras em Vila Nova de Gaia. O Tomás tinha três anos e meio, uma energia inesgotável e um sorriso capaz de iluminar qualquer sala. Eu estava cansada — como sempre — depois de uma noite mal dormida, com as preocupações do trabalho e as contas por pagar a pesarem-me nos ombros. O meu marido, Rui, tinha saído cedo para o emprego na fábrica. Fiquei sozinha com o Tomás e a Leonor, a nossa bebé de oito meses.
Estávamos no parque em frente ao prédio. O Tomás adorava brincar no escorrega e correr atrás dos pombos. Eu tentava dar atenção aos dois filhos ao mesmo tempo, mas a Leonor começou a chorar com fome. Sentei-me no banco, tirei-a do carrinho e comecei a amamentar. Foi nesse momento — esse maldito momento — que perdi o Tomás de vista por segundos. Segundos! Olhei para cima e vi-o já perto do portão aberto do parque, a correr em direção à rua.
— Tomás! — gritei outra vez, mas já era tarde. O carro apareceu do nada. O condutor travou com força, mas não conseguiu evitar. O som do impacto ecoa-me na cabeça todos os dias desde então.
As pessoas correram, alguém chamou uma ambulância. Eu ajoelhei-me ao lado do meu filho, as mãos trémulas, sem saber o que fazer. Senti-me impotente, inútil. O Tomás não reagia. Lembro-me de gritar por ajuda, de chorar, de implorar a Deus para não me levar o meu menino.
O Rui chegou ao hospital pouco depois de nós. Quando me viu sentada no chão da sala de espera, com as mãos cheias de sangue seco e os olhos vazios, caiu de joelhos ao meu lado. Não dissemos nada. Não havia palavras.
O médico apareceu com aquela expressão que nunca esquecerei — compaixão misturada com resignação. Disse-nos que tinham feito tudo o que podiam, mas que o Tomás não resistira aos ferimentos internos. Senti o mundo desabar. O Rui abraçou-me com força, mas eu só queria desaparecer.
Os dias seguintes foram um borrão de dor e burocracia: polícia, funerária, familiares em choque. A minha mãe chorava baixinho ao telefone; o meu pai tentava ser forte por todos nós. Os vizinhos deixavam flores à porta e bolos que ninguém conseguia comer.
A culpa começou a crescer dentro de mim como uma erva daninha. Porque é que não fechei melhor o portão? Porque é que não pedi ajuda à vizinha? Porque é que não consegui estar em dois sítios ao mesmo tempo? O Rui tentava consolar-me, mas eu via-lhe nos olhos o mesmo sofrimento — e talvez um pouco de ressentimento também.
As noites eram as piores. O silêncio da casa pesava sobre mim como um manto negro. O quarto do Tomás ficou intacto durante semanas; não tive coragem de mexer nos brinquedos espalhados pelo chão nem nas roupas dobradas na cómoda. A Leonor chorava mais do que nunca — talvez sentisse a ausência do irmão ou apenas absorvesse a tristeza dos pais.
Começaram as discussões com o Rui. Pequenas coisas tornavam-se grandes tempestades: ele achava que eu devia sair mais de casa; eu queria apenas ficar sozinha com a minha dor. Ele voltou ao trabalho cedo demais; eu não conseguia sequer pensar em regressar ao escritório onde todos me olhariam com pena.
Uma noite, depois de mais uma discussão acesa, o Rui saiu porta fora e só voltou de madrugada. Fiquei sentada na cozinha, a olhar para uma chávena de chá frio, a pensar se algum dia voltaríamos a ser uma família normal.
A certa altura, comecei a evitar os amigos e até os meus pais. Não suportava ouvir frases feitas como “o tempo cura tudo” ou “ele está num lugar melhor”. Nada fazia sentido sem o Tomás.
Procurei ajuda numa psicóloga do centro de saúde. As primeiras sessões foram só choro e silêncio. Aos poucos fui conseguindo falar sobre aquele dia — sobre o medo, a culpa, a raiva contra mim própria e contra Deus.
O Rui recusou-se sempre a ir comigo às consultas. Dizia que cada um tem de lidar com a dor à sua maneira. Mas eu via-o cada vez mais distante — passava horas no computador ou saía para correr até à exaustão.
A Leonor foi crescendo no meio deste vazio. Um dia olhei para ela e percebi que estava a perder também a minha filha viva enquanto me afundava na dor pela filha perdida. Senti vergonha — mas também um fio ténue de esperança.
Comecei a sair mais vezes com a Leonor: passeios curtos ao jardim, idas ao mercado, pequenas rotinas que me obrigavam a respirar fundo e enfrentar o mundo outra vez. Conheci outras mães no parque; algumas partilharam histórias de perdas e recomeços.
O Rui e eu fomos reaprendendo a falar um com o outro — devagarinho, sem pressas nem cobranças. Houve dias em que pensei em desistir do casamento; outros em que senti que só juntos poderíamos sobreviver à tragédia.
Passou um ano desde aquele dia maldito. No aniversário do Tomás fomos ao cemitério levar-lhe flores azuis — as preferidas dele — e ficámos em silêncio junto à campa pequena demais para tanto amor.
Hoje ainda dói — talvez sempre doa — mas aprendi que posso viver com essa dor sem deixar que ela me destrua por completo. A Leonor é agora uma menina cheia de vida; às vezes vejo nela traços do irmão e sorrio entre lágrimas.
Pergunto-me muitas vezes: será possível perdoar-me verdadeiramente? Como seguir em frente sem esquecer quem perdemos? Talvez nunca encontre respostas definitivas… Mas partilho esta história porque sei que há outras mães como eu — e talvez juntas possamos aprender a viver outra vez.