Um Velho Pincel e o Silêncio Entre Nós
— Para que é que estás a mexer nessas tralhas, Inês? — A voz da minha mãe ecoou pelo quintal, cortando o silêncio da tarde como uma navalha. Eu estava de cócoras no barracão do avô António, as mãos sujas de pó, quando encontrei aquele pincel velho, as cerdas endurecidas pelo tempo e por tintas secas de outras vidas. O cheiro a madeira húmida misturava-se com o aroma a terra molhada que vinha do jardim. Senti um aperto no peito, uma vontade de chorar sem saber porquê.
— Só estou a ver se encontro alguma coisa para fazer — respondi, tentando esconder o pincel atrás das costas. Mas ela já tinha visto. Aproximou-se, os olhos duros, cansados de quem carrega o peso do mundo às costas.
— Não te metas nisso, filha. Arte não é para nós. Olha à tua volta: achas que temos tempo para sonhar? — A sua voz era uma mistura de tristeza e raiva. — Vai antes ajudar-me com o jantar.
Obedeci, como sempre fazia. Mas naquela noite, enquanto cortava cebolas na cozinha, não conseguia tirar o pincel da cabeça. Lembrei-me do avô António, das histórias que contava sobre Lisboa antes do 25 de Abril, sobre como pintava paredes e quadros para sobreviver. Ele dizia sempre: “A arte é o que nos salva quando tudo o resto falha.” Eu nunca tinha entendido bem o que queria dizer até aquele momento.
Depois do jantar, fechei-me no quarto. Tirei uma folha do caderno da escola e comecei a passar o pincel seco pelo papel. Não havia tinta, mas o gesto era tudo. Senti uma espécie de liberdade a crescer dentro de mim, como se cada movimento fosse uma pequena rebelião contra o destino que me tinham imposto.
Os dias passaram. Sempre que podia, voltava ao barracão para procurar restos de tinta ou carvão. Escondia os meus “quadros” debaixo da cama, com medo que a minha mãe os encontrasse e os rasgasse. O meu pai mal falava comigo; desde que ficou desempregado, passava os dias no café da vila ou a ver televisão em silêncio. A minha irmã mais nova, Mariana, era demasiado pequena para perceber o que se passava.
Um dia, a professora de Português pediu-nos para escrevermos uma redação sobre “O que quero ser quando for grande”. Escrevi: “Quero ser pintora.” Quando a minha mãe leu a redação — porque lia sempre tudo antes de eu entregar — ficou furiosa.
— Pintora? Vais morrer à fome! Olha para mim, Inês! Achas que eu queria ser empregada de limpeza? Não! Mas a vida não é feita de sonhos. Vais estudar, vais arranjar um emprego decente e vais sair daqui. Não vais acabar como o teu avô.
Chorei nessa noite até adormecer. Senti-me egoísta por querer mais do que aquilo que me era permitido. Mas também senti raiva — uma raiva surda contra aquela resignação que parecia passar de geração em geração como uma doença.
No verão seguinte, a escola organizou um concurso de pintura para os alunos. A professora de Educação Visual incentivou-me a participar. Fiquei dias a pensar no tema: “O Silêncio Entre Nós”. Pintei uma família sentada à mesa, cada um virado para o seu lado, os rostos desfocados como se fossem sombras. Usei as tintas baratas que consegui arranjar na papelaria da vila e o velho pincel do avô António.
Quando entreguei o quadro à professora, ela olhou para mim com um sorriso triste.
— Tens muito talento, Inês. Não deixes ninguém dizer-te o contrário.
Ganhei o segundo prémio. A minha mãe não foi à entrega dos prémios; disse que tinha mais que fazer do que perder tempo com “essas coisas”. O meu pai nem comentou. Só a Mariana me abraçou quando cheguei a casa com o diploma.
O tempo passou e fui crescendo entre dois mundos: o da minha família, onde os sonhos eram vistos como luxos perigosos, e o da escola, onde me diziam que eu podia ser quem quisesse. Senti-me sempre dividida — culpada por querer fugir e ao mesmo tempo desesperada por não conseguir ficar.
Quando terminei o secundário, recebi uma bolsa para estudar Belas-Artes em Lisboa. Foi a primeira vez que vi a minha mãe chorar sem ser de cansaço ou raiva.
— Vais deixar-nos? — perguntou-me numa noite quente de agosto, enquanto lavava a loiça com as mãos vermelhas do detergente barato.
— Não vou deixar ninguém — respondi baixinho. — Só quero tentar ser feliz.
Ela não respondeu. Ficou só ali parada, com as mãos dentro da água suja, os olhos perdidos na janela escura.
Em Lisboa tudo era diferente: as ruas cheias de gente apressada, os cafés onde se discutia arte e política até tarde, os colegas vindos de todo o país com histórias parecidas com a minha. Mas também havia solidão — uma solidão funda, feita de saudades e dúvidas.
Trabalhei em cafés para pagar a renda do quarto minúsculo em Arroios. Pintava à noite, muitas vezes até às lágrimas pela exaustão e pela falta de dinheiro para materiais melhores. Telefonava à minha mãe todas as semanas; as conversas eram curtas e cheias de silêncios desconfortáveis.
No segundo ano da faculdade recebi um telefonema da Mariana:
— A mãe está doente — disse ela num sussurro assustado. — Não quer ir ao médico.
Voltei à vila no primeiro comboio da manhã seguinte. Encontrei a minha mãe mais magra, os olhos fundos e as mãos trémulas. Recusava-se a falar sobre o assunto; dizia que era só “cansaço”.
Fui eu quem marcou a consulta no centro de saúde. O diagnóstico foi rápido: cancro no estômago avançado.
A partir desse dia tudo mudou outra vez. Dividia-me entre Lisboa e a vila; passava noites no hospital ao lado dela e dias a tentar não reprovar nas cadeiras da faculdade. O meu pai tornou-se ainda mais ausente; Mariana cresceu depressa demais.
Nos últimos meses da doença, comecei a pintar retratos dela: as mãos gastas pelo trabalho, o rosto marcado pelas rugas precoces, os olhos onde ainda brilhava uma centelha de orgulho ferido.
Na véspera da sua morte, sentei-me ao lado dela na cama do hospital. Ela segurou-me na mão com uma força surpreendente.
— Desculpa por tudo — murmurou com dificuldade. — Só queria proteger-te deste mundo cruel…
Chorei baixinho enquanto lhe acariciava os cabelos ralos.
— Obrigada por nunca desistires de mim — sussurrei-lhe ao ouvido.
Depois do funeral voltei a Lisboa com um vazio impossível de preencher. Durante meses não consegui pintar nada; sentia-me traidora por ter seguido um caminho diferente daquele que ela tinha sonhado para mim.
Foi só quando encontrei novamente o velho pincel do avô António — agora guardado numa caixa junto às cartas dela — que percebi: não estava sozinha na minha luta. Havia uma linha invisível que ligava todas as mulheres da minha família: o medo e a coragem de sonhar contra tudo e contra todos.
Hoje sou pintora. Expus pela primeira vez numa galeria pequena em Alfama; vendi dois quadros e chorei sozinha na casa de banho depois disso. Mariana está na universidade; o meu pai continua perdido nos seus silêncios.
Às vezes pergunto-me se algum dia vou conseguir perdoar-me por ter escolhido um caminho diferente daquele que esperavam de mim… ou se algum dia vou conseguir perdoar-lhes por nunca terem acreditado nos meus sonhos.
E vocês? Quantas vezes sentiram esse silêncio entre vocês e aqueles que mais amam? Será possível quebrar esse ciclo ou estamos todos condenados a repetir as mesmas histórias?