Entre o Dever e o Desejo: A Minha Vida Num Casamento Por Obrigações
— Dário, tens mesmo a certeza do que vais fazer? — A voz da minha mãe ecoava pela cozinha, carregada de preocupação e de uma tristeza que ela tentava esconder atrás do avental florido.
Eu olhava para o chão, incapaz de lhe responder. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o peso das palavras não ditas. O relógio da parede marcava sete da manhã, mas eu sentia-me como se tivesse vivido uma vida inteira naquela noite.
— Não há outra saída, mãe. — murmurei, quase sem voz.
Ela aproximou-se, pousou a mão no meu ombro. — Dário, um casamento não se faz só porque sim. A Ana merece mais do que isso. E tu também.
A Ana. O nome dela era como um eco distante na minha cabeça. Conhecemo-nos numa festa de São João, entre sardinhas e balões coloridos. Uma noite quente, cheia de promessas vãs e risos fáceis. Não éramos namorados, éramos apenas dois jovens a tentar esquecer as dores do mundo. Mas bastou uma noite para mudar tudo.
Quando ela me ligou, semanas depois, a voz dela tremia. — Dário… estou grávida.
O mundo parou. Senti o chão fugir-me dos pés. A minha mãe chorou em silêncio quando lhe contei. O meu pai ficou calado durante dias, só me olhava com aquele olhar duro de quem acha que o filho falhou.
A família da Ana foi ainda mais direta: — Ou assumes as tuas responsabilidades ou… — O pai dela nem terminou a frase. O silêncio dele era mais ameaçador do que qualquer palavra.
E assim, entre olhares acusadores e sussurros à porta da igreja, casei-me com a Ana numa manhã cinzenta de outubro. O vestido dela era bonito, mas os olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Eu sentia-me como um figurante na minha própria vida.
Os primeiros meses foram um caos. A Ana estava sempre cansada, chorava por tudo e por nada. Eu tentava ser forte, mas sentia-me cada vez mais distante dela e do bebé que crescia na barriga dela. À noite, deitávamo-nos lado a lado sem trocar uma palavra. O silêncio era tão pesado que me custava respirar.
— Porque é que não falas comigo? — perguntou ela uma noite, com a voz embargada.
— Não sei o que dizer — respondi, sincero.
Ela virou-se para o outro lado da cama e eu fiquei ali, a olhar para o teto, a pensar em tudo o que podia ter sido diferente.
O nascimento do nosso filho, o Tiago, foi um momento agridoce. Quando o peguei nos braços pela primeira vez, senti um amor tão grande que quase me sufocou. Mas ao mesmo tempo, uma culpa imensa: será que algum dia conseguiria ser o pai que ele merecia?
A Ana mudou depois do parto. Tornou-se mais fechada, mais amarga. Discutíamos por tudo: pelas contas da luz, pelo leite que faltava no frigorífico, pelo tempo que eu passava fora de casa a trabalhar nas obras com o meu tio Joaquim.
— Sempre a fugir! — gritava ela. — Achas que isto é vida?
Eu não respondia. Porque no fundo ela tinha razão: eu fugia sempre que podia. Preferia o pó das obras ao silêncio gelado da nossa casa.
A minha mãe tentava ajudar, mas cada vez que vinha cá a casa sentia-se o ambiente pesado. — Tens de falar com ela, Dário. Tens de lutar pelo teu casamento.
Mas como se luta por algo que nunca se quis?
O Tiago crescia depressa. Os primeiros passos dele foram um raio de luz na nossa rotina cinzenta. Mas até esses momentos eram ensombrados pelas discussões constantes.
Uma noite, depois de mais uma discussão acesa sobre dinheiro, a Ana atirou-me à cara:
— Se não fosses tu e esta tua família, eu nunca teria ficado presa nesta vida!
Fiquei sem palavras. Saí de casa e fui até ao miradouro da aldeia. Sentei-me no banco frio e chorei como há muito tempo não chorava.
No dia seguinte tentei falar com ela:
— Ana… isto não está a resultar. Não podemos continuar assim.
Ela olhou para mim com olhos cansados:
— E o Tiago? Vais deixá-lo sem pai?
O peso da culpa caiu-me em cima como uma avalanche. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer.
Os meses passaram e as coisas só pioraram. O Tiago começou a notar as discussões. Um dia entrou na sala a chorar:
— Não gritem! Não gritem!
Nesse momento percebi que estávamos a destruir não só as nossas vidas, mas também a dele.
Procurei ajuda junto do padre António, que sempre foi como um segundo pai para mim:
— Dário, às vezes amar é saber quando deixar ir — disse ele com aquela calma dele.
Mas como deixar ir quando toda a aldeia espera que fiquemos juntos? Quando os meus pais contam com o genro exemplar? Quando a família da Ana me culpa por tudo?
Comecei a passar mais tempo fora de casa. Arranjei trabalho numa cidade próxima, vinha só aos fins-de-semana. A distância trouxe algum alívio, mas também mais solidão.
Uma tarde encontrei a Ana sentada à mesa da cozinha, com uma carta na mão:
— Vou embora para casa dos meus pais — disse ela sem me olhar nos olhos. — Preciso de tempo para mim… para pensar.
Não tentei impedi-la. Só lhe pedi para deixar o Tiago comigo naquele fim-de-semana.
Foram os dois dias mais felizes e mais tristes da minha vida. Brincámos no parque, fiz-lhe panquecas ao pequeno-almoço, contei-lhe histórias antes de dormir.
Quando a Ana voltou para buscar o Tiago, olhámo-nos nos olhos pela primeira vez em meses:
— Talvez seja melhor assim — disse ela baixinho.
Assenti em silêncio.
Hoje vivo sozinho num pequeno apartamento na cidade. Vejo o Tiago todos os fins-de-semana e tento ser o melhor pai possível. A Ana reconstruiu a vida dela aos poucos; somos cordiais um com o outro pelo bem do nosso filho.
Às vezes pergunto-me se poderia ter feito algo diferente. Se teria sido possível amar verdadeiramente alguém só porque era suposto fazê-lo.
Mas talvez algumas perguntas nunca tenham resposta.
E vocês? Acham que é possível construir felicidade sobre escolhas que não são nossas? Ou estamos condenados a viver presos entre o dever e o desejo?