“Sou só uma carteira para eles?” – A minha luta por respeito e amor numa família que sustentei durante anos

— Mãe, já transferiste o dinheiro deste mês? — A voz da Mariana, a minha filha mais velha, ecoou fria do outro lado do telefone. Nem um “olá”, nem um “como estás?”. Só a pergunta, seca, direta, como se eu fosse uma máquina de multibanco.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso da saudade e da mágoa. Estava sentada na pequena cozinha do meu quarto alugado em Lyon, com a chávena de café já fria entre as mãos. O relógio marcava sete da manhã; mais um dia de trabalho a limpar casas de desconhecidos, enquanto os meus filhos cresciam longe de mim, em Vila Nova de Gaia.

— Sim, filha, já transferi ontem à noite — respondi, tentando disfarçar a tristeza na voz. — Está tudo bem contigo? Com a tua irmã?

— Está tudo bem. Preciso de comprar uns livros para a faculdade e a Rita quer ir a uma viagem com os amigos. Obrigada, mãe. — E desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, como se esperasse que ela voltasse a ligar só para perguntar se eu estava bem. Mas sabia que não ia acontecer. Já não acontecia há anos.

Quando decidi emigrar para França, há dez anos, foi para lhes dar tudo aquilo que eu nunca tive: estabilidade, oportunidades, uma casa sem humidade e comida na mesa todos os dias. O António, meu marido na altura, tinha perdido o emprego e passava os dias no café. Eu via as contas acumularem-se e as minhas filhas a crescerem sem nada. Então fui eu. Fui eu quem arriscou tudo.

No início, as chamadas eram cheias de saudades. A Mariana contava-me sobre a escola, a Rita mostrava-me desenhos pela câmara do telemóvel. Mas com o tempo… com o tempo as conversas foram ficando mais curtas. As perguntas passaram de “Quando voltas?” para “Já mandaste dinheiro?”.

Lembro-me do primeiro Natal que passei sozinha em França. Chorei agarrada ao telemóvel enquanto ouvia as vozes delas ao fundo, rindo com os primos e com o pai. Eu era só uma presença distante, uma voz que mandava dinheiro todos os meses.

O António nunca me perdoou por ter ido embora. Dizia-me que uma mãe não abandona os filhos. Mas ele nunca percebeu: eu fui embora precisamente porque era mãe. Porque não suportava vê-las passar necessidades.

Os anos passaram e eu fui ficando cada vez mais invisível na vida delas. Mandava dinheiro para tudo: propinas, viagens de finalistas, computadores novos, até para as festas de aniversário que eu própria não podia estar presente.

Um dia, depois de uma jornada exaustiva a limpar um apartamento onde os donos nem me olhavam nos olhos, sentei-me no banco do jardim e liguei à Rita.

— Olá mãe — disse ela, apressada. — Estou a sair para ir ao cinema.

— Só queria ouvir a tua voz — confessei. — Tenho tantas saudades tuas.

— Eu também tenho saudades… Olha, depois falamos, está bem? — E desligou.

Senti-me tão pequena naquele momento. Como se todo o esforço dos últimos anos não tivesse significado nada. Como se eu fosse apenas… uma carteira ambulante.

No verão passado decidi surpreendê-las e fui a Portugal sem avisar. Queria vê-las, abraçá-las, sentir que ainda era mãe delas e não só uma fonte de dinheiro.

Quando cheguei a casa — à casa que eu pagava todos os meses — encontrei-a cheia de gente: amigos da Mariana espalhados pela sala, música alta, copos por todo o lado. A Rita estava no quarto com as amigas, riam-se alto sem sequer perceberem que eu tinha chegado.

A Mariana olhou para mim como se fosse uma estranha.

— O que estás aqui a fazer? — perguntou, quase ofendida.

— Vim ver-vos… Tinha saudades vossas.

Ela encolheu os ombros.

— Podias ter avisado. Temos planos hoje à noite.

Senti-me deslocada na minha própria casa. Passei o fim de semana ali, como visita indesejada. Elas saíam com os amigos e eu ficava sozinha na sala a ver fotografias antigas no telemóvel.

No domingo à noite sentei-me com elas à mesa da cozinha.

— Meninas… Eu sei que não tenho estado presente como queria. Mas tudo o que fiz foi por vocês. Sinto falta das minhas filhas… Sinto falta de ser vossa mãe e não só alguém que vos manda dinheiro todos os meses.

A Rita olhou para mim com ar impaciente.

— Mãe, tu é que escolheste ir embora. Nós habituámo-nos assim.

A Mariana acrescentou:

— Não podes esperar que tudo seja como antes só porque vieste cá um fim de semana.

As palavras delas doeram mais do que qualquer solidão em França. Senti-me traída pelo tempo e pelas escolhas que fiz.

Voltei para Lyon com o coração apertado. No trabalho ninguém percebeu nada; continuei a sorrir às patroas francesas e a limpar casas como se nada fosse. Mas por dentro sentia-me cada vez mais vazia.

Comecei a perguntar-me se tinha valido a pena. Se teria sido melhor ficar em Portugal, mesmo sem dinheiro, mas perto delas. Se o amor de mãe resiste à distância e ao tempo ou se se transforma apenas em transferências bancárias mensais.

Um dia recebi uma mensagem da Mariana: “Preciso de 200 euros para pagar uma multa.” Nem um “olá”, nem um “desculpa”. Só o pedido frio de sempre.

Respondi: “Filha, podemos falar um bocadinho? Sinto falta de conversar contigo.”

Ela demorou horas a responder: “Agora não posso.”

Nessa noite chorei como há muito não chorava. Senti-me usada, descartável. Perguntei-me se alguma vez voltaria a ser mais do que uma carteira para elas.

No mês seguinte decidi fazer diferente: transferi menos dinheiro e liguei mais vezes. Insisti em falar com elas sobre coisas simples: como estavam na escola, se tinham namorado, se precisavam de ajuda com alguma coisa além do dinheiro.

Ao início ficaram irritadas; diziam que estava a ser controladora, que já eram adultas e sabiam cuidar de si mesmas. Mas continuei a insistir — não porque queria controlar, mas porque queria voltar a ser mãe.

Pouco a pouco começaram a responder mais às minhas mensagens. A Rita mandou-me uma fotografia dela com as amigas; a Mariana contou-me sobre um exame difícil na faculdade.

Ainda não é como antes — talvez nunca volte a ser — mas sinto que dei um passo pequeno para recuperar o respeito e o amor delas.

Agora olho para trás e pergunto-me: será que fiz bem? Será que é possível recuperar o tempo perdido? Ou será que há feridas que nunca saram?

E vocês? O que fariam no meu lugar? O amor de mãe resiste mesmo à distância ou acaba por se perder no tempo e nas transferências bancárias?