Sombra do Esquecimento: O Meu Quarenta Aniversário
— Mãe, viste as minhas sapatilhas? — gritou o Tomás do corredor, enquanto eu tentava, pela terceira vez naquela manhã, encontrar um momento de silêncio para mim própria. O relógio da cozinha marcava 7h12. O cheiro do café fresco misturava-se com o aroma do pão torrado, mas nada disso me trazia consolo naquele dia. Era o meu aniversário. Quarenta anos. E ninguém parecia lembrar-se.
A Maria, a minha filha mais velha, entrou apressada na cozinha, olhos colados ao telemóvel. — Mãe, deixaste dinheiro para o almoço? — perguntou sem sequer me olhar nos olhos. O meu marido, o António, lia o jornal na sala, absorto nas notícias do mundo, como se nada mais existisse à sua volta.
Senti uma pontada no peito. Tentei sorrir, tentei convencer-me de que estavam apenas distraídos, que talvez me preparassem uma surpresa mais tarde. Mas à medida que as horas passavam e a casa se esvaziava, a esperança foi-se desvanecendo. Fiquei sozinha com o silêncio e com a chávena de café já fria entre as mãos.
Lembrei-me de quando era pequena e a minha mãe fazia questão de me acordar com um beijo e um bolo improvisado, mesmo nos anos em que não havia dinheiro para grandes festas. Senti saudades desse tempo em que era impossível sentir-me invisível.
O telefone tocou. Era a minha irmã, Inês.
— Olá, Elvira! Tudo bem? Preciso que me faças um favor… — começou ela, sem sequer mencionar a data.
— Sabes que dia é hoje? — perguntei, tentando disfarçar a voz trémula.
— Quinta-feira… Porquê? — respondeu distraída.
Desliguei antes de conseguir responder. Senti as lágrimas a escorrerem pelo rosto. Como era possível? Como é que todos se tinham esquecido?
O António chegou a casa ao final da tarde. — O trânsito estava impossível hoje — disse, atirando as chaves para cima da mesa. Olhou para mim e percebeu que algo não estava bem.
— Passou-se alguma coisa?
— Não — menti. — Está tudo bem.
Jantámos em silêncio. Os miúdos discutiam sobre séries e trabalhos de casa. Ninguém reparou no bolo simples que eu própria tinha comprado e colocado na bancada da cozinha. Ninguém reparou nas velas guardadas na gaveta há semanas, à espera deste dia.
Depois do jantar, fechei-me na casa de banho e olhei-me ao espelho. Vi uma mulher cansada, com olheiras fundas e um olhar perdido. Vi alguém que passou metade da vida a cuidar dos outros e se esqueceu de si própria.
Naquela noite não dormi. Revirei-me na cama, ouvindo o António ressonar ao meu lado. Perguntei-me onde tinha falhado. Será que era assim tão fácil esquecer alguém? Ou será que eu própria me tinha tornado invisível ao longo dos anos?
No dia seguinte, fui trabalhar como sempre. Os colegas cumprimentaram-me com a habitual indiferença. Ninguém sabia do meu aniversário. Senti-me ainda mais sozinha.
Durante a pausa para o café, ouvi a Carla comentar com outra colega:
— O meu marido esqueceu-se do meu aniversário no ano passado. Fiquei furiosa!
Senti vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Pelo menos ela teve alguém que se lembrou no dia seguinte.
Quando cheguei a casa, encontrei um bilhete da Maria na mesa:
“Mãe, fui estudar para casa da Rita. Não me esperes.”
O Tomás estava fechado no quarto com os auscultadores nos ouvidos. O António ainda não tinha chegado.
Sentei-me no sofá e deixei finalmente as lágrimas caírem sem vergonha. Senti-me pequena, irrelevante, como se tivesse desaparecido do mundo.
Foi nesse momento que decidi sair de casa. Peguei no casaco e fui até ao jardim público do bairro. Sentei-me num banco e observei as pessoas à minha volta: casais de mãos dadas, crianças a brincar, idosos a conversar animadamente.
Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado.
— Está tudo bem consigo? — perguntou com gentileza.
— Hoje faço quarenta anos e ninguém se lembrou — confessei, surpreendendo-me com a facilidade com que as palavras saíram.
Ela sorriu tristemente.
— Aconteceu-me o mesmo quando fiz sessenta — disse ela. — Mas aprendi que às vezes temos de nos lembrar de nós próprias primeiro.
Voltando para casa, senti uma estranha força dentro de mim. Talvez estivesse na altura de mudar alguma coisa.
No fim de semana seguinte, convoquei todos para uma conversa na sala.
— Preciso falar convosco — disse com firmeza.
O António olhou-me desconfiado. Os miúdos largaram os telemóveis por instantes.
— No meu aniversário ninguém se lembrou de mim — comecei, sentindo a voz embargar-se. — Senti-me invisível nesta casa. Passei anos a cuidar de todos vocês e esqueci-me de mim própria. Mas isso vai mudar.
O silêncio caiu sobre a sala como uma nuvem pesada.
A Maria foi a primeira a reagir:
— Desculpa, mãe… Eu nem reparei…
O Tomás baixou os olhos.
O António tentou justificar-se:
— Tens razão… Tenho estado tão absorvido no trabalho…
— Não quero desculpas — interrompi. — Quero respeito e consideração. Quero que percebam que também sou pessoa, que também preciso de carinho e atenção.
A partir desse dia comecei a mudar pequenas coisas: inscrevi-me numa aula de pintura, comecei a sair para passear sozinha aos domingos de manhã, voltei a ler os livros que tinha deixado esquecidos na estante há anos.
A família estranhou ao início, mas aos poucos começaram a perceber que eu não era apenas mãe ou esposa; era uma mulher com sonhos e necessidades próprias.
No ano seguinte, no meu aniversário, acordei com um pequeno-almoço preparado pela Maria e pelo Tomás. O António ofereceu-me um livro com uma dedicatória emocionada: “Para nunca mais te esqueceres de ti.”
Olhei para eles e sorri, mas no fundo sabia que aquela dor nunca desapareceria completamente. Aprendi da forma mais dura possível que só nos valorizam quando nos valorizamos primeiro.
Agora pergunto-me: quantas mulheres como eu vivem em silêncio este esquecimento? Quantas vezes deixamos de existir para os outros porque deixámos de existir para nós próprias? E vocês? Já se sentiram invisíveis dentro da vossa própria casa?