Trinta Anos Atrás Eu Cuidei de Cinco Filhos: Agora Ninguém Quer Ajudar-nos
— Mãe, não posso agora. O Miguel tem treino de futebol e a Inês ficou doente. — A voz da minha filha mais velha, Mariana, ecoou fria do outro lado da linha. Senti o peito apertar-se, como se cada palavra dela fosse uma pedra a pesar-me no coração.
Desliguei o telefone devagar, tentando não chorar à frente do António. Ele estava sentado na poltrona, a olhar para a janela, os olhos perdidos num horizonte que já não lhe dizia nada. O AVC tinha-lhe roubado metade do corpo e quase toda a vontade de viver. Eu era agora as suas pernas, as suas mãos, a sua voz. E estava sozinha.
Lembro-me de quando éramos jovens, eu e o António. Casámos cedo, numa igreja pequena em Alfama, rodeados de família e vizinhos. Tive cinco filhos em dez anos: Mariana, Pedro, Sofia, Rui e Joana. A nossa casa era pequena, mas cheia de risos, discussões e sonhos. Eu trabalhava como empregada de limpeza num hospital; o António era motorista de autocarro. Nunca tivemos muito dinheiro, mas nunca faltou comida na mesa nem amor nos corações.
Os dias eram longos. Acordava antes do sol para preparar pequenos-almoços, uniformes e lancheiras. Corria para o trabalho e voltava a tempo de ajudar nos trabalhos de casa, ouvir confidências e resolver brigas. Quantas vezes adormeci sentada à mesa da cozinha, com um caderno de contas na mão e lágrimas nos olhos de cansaço? Mas nunca me arrependi. Sempre achei que estava a construir algo bonito.
Agora olho para trás e pergunto-me: onde foi que tudo se perdeu?
O Pedro vive no Porto há anos. Liga-me no Natal e nos anos, sempre apressado. — Mãe, desculpa não poder ir este ano. O trabalho está impossível — diz ele, como se fosse uma desculpa suficiente para não ver os pais há mais de três anos.
A Sofia casou com um engenheiro e mudou-se para Cascais. Tem dois filhos lindos que quase não conheço. Quando ligo, ouço sempre barulho de fundo: televisão alta, crianças a gritar, o marido a falar ao telefone. — Mãe, depois ligo-te eu — diz ela. Mas raramente liga.
O Rui foi sempre o rebelde. Saiu de casa aos 18 anos depois de uma discussão feia com o pai sobre o curso que devia seguir. Desde então, só aparece quando precisa de dinheiro ou quando está em apuros. Da última vez que veio cá a casa foi para pedir ajuda para pagar uma dívida. Dei-lhe o pouco que tinha guardado para emergências. Ele desapareceu outra vez.
A Joana é a mais nova. Ainda vive em Lisboa, mas trabalha tanto que quase não tem tempo para nada nem ninguém. — Mãe, estou exausta — diz ela sempre que tento marcar um almoço ou pedir que venha cá ajudar-me com o pai.
Sinto-me invisível na minha própria família.
O António já quase não fala. Às vezes olha para mim com olhos tristes e diz: — O que fizemos de errado? — Não sei responder-lhe. Será que demos demais? Será que protegemos demasiado? Ou será simplesmente assim a vida?
No outro dia caí na cozinha enquanto tentava levantar uma panela pesada. Fiquei no chão durante minutos intermináveis até conseguir arrastar-me até ao telefone fixo. Liguei à Mariana — ela atendeu ao fim de cinco toques.
— Mãe, não podes chamar uma vizinha? Estou mesmo cheia de trabalho.
Chamei a Dona Emília do 3º esquerdo. Ela veio logo, ajudou-me a levantar e trouxe-me um chá quente. Senti vergonha por depender de uma vizinha quando tenho cinco filhos.
À noite chorei baixinho para não acordar o António.
No domingo seguinte tentei juntar todos cá em casa para um almoço como antigamente. Liguei a cada um deles dias antes:
— Mariana, fazes um esforço? O teu pai sente tanto a vossa falta…
— Mãe, vou tentar mas não prometo.
— Pedro, vens ao menos desta vez?
— Mãe, é complicado… mas vou ver.
— Sofia?
— Tenho os miúdos com atividades… talvez só consiga passar à tarde.
— Rui?
— Não sei se posso… tenho coisas para tratar.
— Joana?
— Vou tentar sair mais cedo do trabalho.
No domingo preparei tudo como antes: arroz de pato, salada russa e pudim caseiro. O António vestiu a camisa azul que usava nos aniversários dos filhos. Sentou-se à mesa ao meio-dia, esperançoso.
Às duas da tarde só a Joana tinha aparecido — e mesmo assim ficou pouco tempo porque tinha uma reunião online às três.
O António olhou para mim e murmurou: — Estamos sós.
Senti uma raiva surda misturada com tristeza profunda. Como é possível que cinco pessoas criadas com tanto amor se tenham afastado tanto?
Naquela noite escrevi uma carta longa a cada filho. Não pedi nada; só contei como me sentia: sozinha, cansada e invisível. Disse-lhes que compreendia as vidas ocupadas mas que também precisava deles — nem que fosse só para conversar um pouco ou dar um passeio ao domingo.
Só recebi resposta da Sofia:
— Mãe, desculpa se te magoei. Não tenho dado conta do tempo passar… prometo tentar estar mais presente.
Passaram-se semanas sem grandes mudanças. A Dona Emília continua a ser quem me ajuda quando preciso de ir à farmácia ou levantar o António da cama.
Às vezes penso em como seria se tivéssemos emigrado como tantos amigos nossos fizeram nos anos 90. Talvez os filhos tivessem aprendido o valor da família longe da terra natal? Ou talvez tudo fosse igual — talvez seja mesmo assim que as famílias se desfazem: devagarinho, sem ninguém dar por isso.
No Natal passado fiz um esforço enorme para montar uma árvore pequena na sala e preparar rabanadas como antigamente. Só vieram a Sofia e os filhos pequenos — ficaram pouco tempo porque tinham outro jantar em casa dos sogros.
O António adormeceu cedo na poltrona. Fiquei sozinha na sala iluminada pelas luzes trémulas da árvore artificial e pensei em tudo o que dei durante trinta anos: noites sem dormir, sonhos adiados, sorrisos forçados quando só queria chorar.
Agora pergunto-me: será que valeu a pena? Será que algum dia os meus filhos vão perceber tudo o que fiz por eles? Ou será este o destino das mães portuguesas — dar tudo sem esperar nada em troca?
E vocês? Acham que é possível reconstruir uma família desfeita pelo tempo? Ou há feridas que nunca saram?