O Azeite e a Mentira: O Dia em que Enganei a Minha Sogra por SMS

— Diogo, já compraste o azeite? — A voz da Dona Ivone ecoava do outro lado da linha, carregada daquele tom inquisitivo que me fazia sentir um miúdo apanhado em falta.

Olhei para o telemóvel, hesitante. Mariana estava na cozinha, de costas para mim, a preparar o jantar. O cheiro do refogado misturava-se com o peso daquela pergunta. Eu sabia que não tinha comprado o azeite. E sabia também que aquela pergunta era apenas o início de mais uma ronda de críticas veladas.

— Sim, Dona Ivone, já tratei disso — respondi, tentando soar convincente. Mas ela não se ficou por aí.

— Olha que eu vou passar aí amanhã cedo. Se faltar azeite, não sei o que será do almoço de domingo! — ameaçou, como se o mundo pudesse acabar por causa de um frasco de azeite.

Desliguei o telefone e encostei-me à parede. Mariana virou-se para mim, olhos cansados.

— Outra vez a minha mãe? — perguntou, sem precisar de ouvir a conversa para adivinhar o tema.

Assenti. — Ela vai cá estar amanhã cedo. Quer ver se temos tudo pronto para o almoço.

Mariana suspirou. — Não sei como é que ela consegue sempre arranjar maneira de nos controlar…

O silêncio instalou-se entre nós. Eu sentia-me encurralado. Desde que casei com a Mariana, a Dona Ivone nunca me deu tréguas. Tudo era motivo para apontar o dedo: o pão demasiado branco, a roupa mal passada, o lixo que não ia para fora à hora certa. E agora, o azeite.

Foi então que me ocorreu uma ideia absurda. Uma pequena mentira inofensiva. Peguei no telemóvel e escrevi uma mensagem:

«Dona Ivone, afinal não precisa de trazer azeite. O vizinho António ofereceu-nos uma garrafa do bom, acabado de fazer.»

Enviei sem pensar duas vezes. Senti um alívio imediato, como se tivesse encontrado uma brecha naquele cerco constante.

Na manhã seguinte, Dona Ivone apareceu à porta antes das oito. Trazia um saco cheio de legumes e aquele olhar desconfiado.

— Então e o azeite? — perguntou logo à entrada.

— Está ali na prateleira — respondi, apontando para uma garrafa meio escondida atrás dos frascos de arroz e massa.

Ela pegou na garrafa, examinou-a como se fosse um diamante falso.

— Isto é mesmo do António? — perguntou, olhos semicerrados.

— É sim — menti, sentindo um nó no estômago.

Ela não disse mais nada, mas durante todo o almoço pairou no ar uma tensão estranha. Mariana percebia que algo não estava bem, mas não disse nada à frente da mãe.

Depois do almoço, enquanto lavava a loiça, ouvi Dona Ivone sussurrar à Mariana na sala:

— O teu marido anda estranho. Não confio naquele azeite…

Mariana respondeu num tom baixo:

— Mãe, por favor… deixa-nos em paz pelo menos ao domingo.

Aquela frase ficou-me a ecoar na cabeça durante dias. Senti-me culpado por ter mentido, mas também revoltado por nunca conseguir agradar àquela mulher.

Na semana seguinte, tudo piorou. Dona Ivone apareceu em casa do vizinho António para lhe agradecer o azeite. O António, sem perceber nada do assunto, disse-lhe que não tinha oferecido azeite nenhum.

No dia seguinte, Mariana confrontou-me assim que cheguei do trabalho:

— Diogo, porque é que disseste à minha mãe que o António nos deu azeite?

Fiquei sem palavras. O meu pequeno truque tinha-se virado contra mim.

— Eu… só queria evitar mais discussões — tentei explicar.

Mariana olhou para mim com uma mistura de tristeza e cansaço.

— Não podes continuar a mentir só para agradar à minha mãe ou para evitar conflitos. Isto está a destruir-nos aos poucos…

Senti-me envergonhado e impotente. Tentei justificar-me:

— Mariana, tu sabes como ela é! Nunca está satisfeita com nada… Eu só queria um pouco de paz!

Ela abanou a cabeça.

— A paz não se constrói com mentiras, Diogo. Se não formos honestos um com o outro e com ela, nunca vamos ser felizes nesta casa.

Nessa noite dormi mal. Acordei várias vezes a pensar no que tinha feito. No dia seguinte tomei uma decisão: tinha de enfrentar a Dona Ivone e dizer-lhe a verdade.

No domingo seguinte, sentei-me com ela na sala antes do almoço.

— Dona Ivone, preciso de lhe dizer uma coisa — comecei, sentindo as mãos suadas.

Ela olhou para mim com aquele ar superior.

— Então diga lá…

Respirei fundo.

— Eu menti sobre o azeite. O António não nos deu nada. Só queria evitar mais discussões sobre coisas pequenas… Mas percebo agora que errei.

Ela ficou em silêncio durante uns segundos eternos. Depois levantou-se e foi até à janela.

— Sabe, Diogo… Eu só quero o melhor para a minha filha. Sempre achei que ninguém seria suficientemente bom para ela… Talvez tenha exagerado — disse finalmente, num tom mais brando do que eu esperava.

Fiquei surpreendido com aquela confissão. Pela primeira vez vi nela uma mulher vulnerável e não apenas uma sogra difícil.

— Eu também só quero fazer a Mariana feliz — respondi baixinho.

Ela voltou-se para mim e sorriu levemente.

— Talvez devêssemos tentar confiar mais uns nos outros…

Nesse dia o almoço soube-me diferente. Havia menos tensão à mesa e até Mariana parecia mais leve.

Claro que Dona Ivone continuou a ser exigente e controladora em muitas coisas. Mas depois daquele dia aprendi que fugir aos conflitos só os torna maiores. E que às vezes basta uma conversa honesta para mudar anos de ressentimento.

Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas famílias vivem presas em pequenas mentiras por medo de enfrentar grandes verdades? Será que vale mesmo a pena sacrificar a paz interior só para evitar um confronto? Gostava de saber o que vocês fariam no meu lugar.