Porque Proíbo a Minha Filha de se Divorciar: Entre o Medo e o Amor
— Mãe, eu não aguento mais. — A voz da Mariana tremia, mas os olhos estavam secos, como se já não houvesse mais lágrimas para chorar.
O relógio da cozinha marcava quase meia-noite. Oiço o tic-tac como se fosse um martelo a bater no meu peito. Sento-me à mesa, com as mãos apertadas em cima do pano de renda que herdei da minha mãe. O cheiro do café frio mistura-se com o perfume doce da Mariana, que sempre me lembra os dias felizes em que ela era só uma menina a correr pelo quintal.
— Mariana, tu tens uma família linda. O João é um bom homem, trabalhador, nunca te faltou nada. — Tento manter a voz firme, mas sinto o coração a desmoronar-se por dentro.
Ela desvia o olhar, fixa-se na parede onde ainda está pendurada a fotografia do casamento. Lembro-me daquele dia como se fosse ontem: o vestido branco, os sorrisos forçados, o olhar dela perdido no horizonte. Talvez já ali estivesse a semente desta dor.
— Mãe, tu nunca quiseste saber se eu era feliz. Só te importava que eu tivesse uma casa bonita, um marido com dinheiro, filhos bem vestidos. — A voz dela sobe um tom, mas não grita. É uma acusação calma, fria.
Sinto-me pequena, esmagada pelo peso das minhas escolhas. Sempre temi que ela acabasse como eu: sozinha, a lutar para pôr comida na mesa depois que o pai dela nos deixou. O António era um homem bonito, mas fraco. Levava tudo de casa — até os brinquedos da Mariana — para vender e gastar no café. Eu prometi a mim mesma que a minha filha nunca passaria fome.
— Mariana, eu só quero o melhor para ti. — Tento justificar-me, mas sei que as palavras soam vazias.
Ela levanta-se de repente, empurra a cadeira com força.
— O melhor para mim? Ou para ti? Tu nunca me ouviste! O João pode ser bom para ti, mas para mim é um estranho dentro de casa. Não me toca há meses, não fala comigo… Só existe trabalho e dinheiro!
Oiço o choro dela finalmente romper. Sinto vontade de abraçá-la, mas fico imóvel. O medo paralisa-me: medo de ver a minha filha repetir os meus erros, medo de admitir que talvez eu nunca tenha sido uma boa mãe.
Lembro-me de quando ela era pequena e dizia que queria casar com um homem rico. Eu ria-me e dizia-lhe para estudar, para ser independente. Mas no fundo, desejava que encontrasse alguém que lhe desse tudo aquilo que eu não consegui dar.
O João apareceu na vida dela como um príncipe: carro novo, apartamento no centro de Lisboa, viagens ao Algarve no verão. No início parecia perfeito. Mas aos poucos fui percebendo que havia algo errado. Mariana sorria menos, evitava falar do marido. Quando lhe perguntava se estava tudo bem, ela respondia sempre:
— Está tudo ótimo, mãe.
Agora percebo que era só fachada. E eu deixei-me enganar porque queria acreditar.
— Mariana… — Tento chamá-la de volta à mesa, mas ela já está a caminho do quarto. Oiço a porta bater com força.
Fico sozinha na cozinha, rodeada pelo silêncio pesado da noite. Penso na minha própria mãe, na aldeia onde cresci. Ela também me dizia para aguentar tudo pelo bem da família. “Mulher tem de ser forte”, repetia ela enquanto lavava roupa no tanque gelado.
Mas será isso força? Ou é medo?
No dia seguinte acordo cedo. Mariana já saiu para levar os miúdos à escola. O João está sentado na sala a ver as notícias. Olha para mim de relance e volta ao telemóvel.
— Está tudo bem com a Mariana? — pergunta sem tirar os olhos do ecrã.
— Ela está cansada — respondo seca.
Ele encolhe os ombros e muda de canal.
Vejo-o ali sentado e penso: será que ele alguma vez amou verdadeiramente a minha filha? Ou foi só mais uma conquista para mostrar aos amigos?
Ao almoço tento falar com Mariana outra vez.
— Filha, pensa bem antes de tomares uma decisão destas… Os miúdos precisam do pai.
Ela olha-me nos olhos desta vez.
— E eu? Não mereço ser feliz? Não mereço sentir amor?
Fico sem resposta. Porque no fundo sei que nunca me fiz essas perguntas a mim mesma.
Os dias passam e o ambiente em casa fica cada vez mais tenso. Os miúdos percebem tudo — fingem que não ouvem as discussões à noite, mas vejo-os assustados quando me pedem colo.
Uma tarde Mariana chega mais cedo do trabalho. Senta-se ao meu lado no sofá e segura-me a mão.
— Mãe… Eu vou mesmo pedir o divórcio.
Sinto um nó na garganta.
— E se te arrependeres? E se ficares sozinha como eu fiquei?
Ela sorri tristemente.
— Prefiro estar sozinha do que viver uma mentira.
Nesse momento vejo-a como mulher pela primeira vez — não como filha, mas como alguém capaz de lutar pela própria felicidade.
Naquela noite não consigo dormir. Penso em todas as mulheres da minha família: avó Maria, mãe Rosa… Todas elas sofreram caladas para manter as aparências. Será esse o destino das mulheres portuguesas? Aguentar tudo por medo do escândalo?
No dia seguinte ajudo Mariana a arrumar as malas. O João não está em casa; foi trabalhar cedo como sempre. Os miúdos choram quando percebem que vão mudar de casa.
Abraço-os com força e prometo-lhes que tudo vai correr bem — mesmo sem acreditar nisso.
Quando Mariana sai pela porta com as crianças pela mão, sinto um vazio imenso dentro de mim. Mas também sinto orgulho: ela teve coragem de fazer aquilo que eu nunca consegui fazer.
Agora estou aqui sentada na cozinha vazia, a escrever estas palavras e a perguntar-me: será que fiz bem em tentar impedi-la? Ou devia ter-lhe dado apoio desde o início?
Quantas mães portuguesas vivem presas ao passado por medo do futuro dos filhos? Será que é possível quebrar este ciclo sem perdermos quem mais amamos?