Abracei-te como filha, mas o meu coração partiu-se

— Mãe, eu juro que não fui eu! — A voz da Inês ecoou pelo corredor, trémula, quase a chorar. O meu coração apertou-se, mas a raiva e a desilusão eram mais fortes do que qualquer compaixão naquele momento.

— Não mintas mais, Inês! — respondi, tentando controlar o tom de voz. — Encontrámos o dinheiro escondido na tua mochila. Como podes fazer-nos isto?

Ela baixou os olhos, as mãos a tremerem. O meu marido, o Rui, estava encostado à porta da cozinha, os braços cruzados, o rosto fechado. O silêncio dele era pior do que qualquer grito. O nosso filho biológico, o Tiago, observava tudo da escada, com uma expressão entre o medo e o desprezo.

Nunca pensei que a minha família chegasse a este ponto. Quando aceitei ser família de acolhimento para a Inês, há dois anos, sabia que não ia ser fácil. Ela tinha 13 anos e um passado cheio de buracos e silêncios. A mãe biológica desaparecera, o pai estava preso. Os primeiros meses foram um inferno: birras, fugas, mentiras pequenas. Mas depois… depois parecia que estávamos a construir algo. Começou a chamar-me “mãe” sem que eu pedisse. Fez um bolo comigo no Natal. Riu-se das piadas do Rui. Até o Tiago começou a aceitá-la como irmã.

Mas agora… agora tudo parecia uma ilusão.

— Eu só queria ajudar a Marta — murmurou Inês de repente. — Ela precisava de dinheiro para pagar uma dívida… ameaçaram-na na escola…

— E tu achaste que roubar cá em casa era solução? — O Rui finalmente falou, a voz dura como pedra. — Depois de tudo o que fizemos por ti?

Vi as lágrimas escorrerem pela cara da Inês. Senti vontade de abraçá-la, mas também de gritar com ela até perder a voz. Como é que se lida com isto? Como é que se continua a amar alguém que nos traiu?

Aquela noite foi um pesadelo. O Tiago recusou jantar connosco. O Rui saiu para dar uma volta e só voltou tarde. Fiquei sozinha com a Inês na cozinha, as duas em silêncio, rodeadas por pratos sujos e palavras por dizer.

Lembrei-me da primeira vez que ela me chamou “mãe”. Tinha sido num dia de tempestade, quando ela chegou molhada da escola e eu lhe dei uma manta e chocolate quente. “Obrigada, mãe”, disse ela, quase sem querer. Senti-me tão orgulhosa naquele momento… Agora parecia tudo tão distante.

— Porque é que não confiaste em mim? — perguntei baixinho.

Ela encolheu os ombros.

— Achei que não ias perceber… Achei que ias mandar-me embora.

O medo dela era real. E era também o meu medo: o de falhar como mãe, o de não ser suficiente para curar as feridas dela.

Os dias seguintes foram um arrastar de silêncios e olhares desconfiados. O Rui queria devolvê-la à instituição. “Não podemos viver assim”, dizia ele. “O Tiago sente-se inseguro em casa própria.” Eu compreendia-o, mas não conseguia desistir da Inês.

Uma noite, ouvi-a chorar no quarto dela. Entrei sem bater. Ela estava encolhida na cama, abraçada ao urso de peluche que lhe dei no aniversário.

— Desculpa — sussurrou ela. — Eu estraguei tudo.

Sentei-me ao lado dela e puxei-a para mim.

— Não estragaste tudo. Mas tens de confiar em nós. Somos família… ou pelo menos tentamos ser.

Ela olhou-me nos olhos.

— Achas mesmo que sou da vossa família?

A pergunta ficou no ar como uma faca afiada. Eu queria dizer que sim, claro que sim! Mas naquele momento percebi que talvez nunca conseguíssemos apagar o passado dela — nem o nosso medo de sermos magoados outra vez.

O Tiago começou a evitar a Inês na escola e em casa. Os amigos dele perguntavam porque é que tínhamos “adotado uma delinquente”. Ele sentia vergonha dela — e de nós.

O Rui tornou-se distante comigo também. Discutíamos baixinho à noite:

— Não podemos sacrificar o nosso filho biológico por alguém que nem sequer é sangue do nosso sangue!

— Mas ela precisa de nós! Se desistirmos agora, quem vai acreditar nela?

As noites tornaram-se longas e frias. Comecei a duvidar de mim própria: teria sido egoísta ao querer salvar alguém quando nem sabia se conseguia manter a minha própria família unida?

Um dia, fui chamada à escola da Inês. Ela tinha faltado às aulas e ninguém sabia dela. O pânico tomou conta de mim. Liguei-lhe dezenas de vezes até finalmente atender:

— Estou bem… só preciso de pensar — disse ela, a voz rouca.

Encontrei-a sentada num banco do Jardim da Estrela, sozinha, com os olhos vermelhos.

— Não fujas mais — pedi-lhe. — Não te vou abandonar.

Ela chorou no meu ombro durante minutos intermináveis.

Voltámos para casa juntas. O Rui estava à porta à nossa espera, com o rosto cansado mas aliviado.

— Isto não pode continuar assim — disse ele calmamente. — Ou confiamos uns nos outros ou isto acaba aqui.

Sentámo-nos todos à mesa naquela noite: eu, o Rui, o Tiago e a Inês. Pela primeira vez em semanas falámos abertamente sobre tudo: medos, mágoas, expectativas.

O Tiago confessou:

— Eu só queria ter a minha família antiga de volta… antes disto tudo.

A Inês respondeu:

— Eu só queria ter uma família… nunca tive nenhuma.

As palavras deles ficaram presas no ar, pesadas como pedras.

Decidimos procurar ajuda juntos: terapia familiar, conversas semanais com uma psicóloga do centro de saúde local em Lisboa. Lentamente, começámos a reconstruir alguma confiança.

Não foi fácil nem bonito. Houve recaídas: mais mentiras pequenas da Inês; discussões entre mim e o Rui; olhares frios do Tiago à mesa do jantar. Mas também houve momentos bons: risos inesperados; tardes no parque; abraços tímidos.

Hoje olho para trás e vejo uma família cheia de cicatrizes mas também de amor imperfeito. A Inês ainda luta com os fantasmas do passado; o Tiago ainda sente ciúmes; o Rui ainda tem dúvidas se fizemos o certo.

Mas eu? Eu continuo aqui — mãe por escolha e por teimosia.

Às vezes pergunto-me: será possível amar alguém como filho sem partilhar sangue? Ou será que as feridas antigas acabam sempre por vencer?

E vocês? Já sentiram que deram tudo por alguém… e mesmo assim não foi suficiente?